Crítica | Druk - Mais Uma Rodada é ensaio filosófico sobre a vida

Por Laísa Trojaike | Editado por Jones Oliveira | 30 de Março de 2021 às 21h00
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As evidências históricas mostram a produção de fermentados no surgimento da civilização egípcia, um exemplo bastante comum, mas nossa relação com o álcool é ainda mais antiga. As bebidas alcoólicas podem não ter sido nossas primeiras drogas, mas certamente estão entre as primeiras das quais temos conhecimento, com uma história de mais ou menos dez mil anos, o que significa que a humanidade vem submetendo seus corpos aos efeitos do álcool há muito tempo.

Há quem goste e há quem não goste, como acontece com tudo na vida. Para além de uma questão de gosto, o álcool é também uma questão social e este é o ponto de Druk. Ainda que mestres da caipirinha, nós brasileiros somos apenas jovens padawans do álcool ao lado dos jedis de alguns países como a Dinamarca. Como não somos dinamarqueses, fica um pouco mais difícil de notar a relevância de Druk para o seu contexto, mas isso não significa que o filme não nos seja pertinente. Pelo contrário, Druk é incrivelmente universal e consegue atiçar nossa curiosidade e reflexão sobre o consumo de álcool de uma forma que é essencialmente filosófica.

Imagem: Reprodução/Zentropa Entertainments

É interessante notar também como Druk parece refletir sobre os problemas da “crise de meia-idade”, mas não com o intuito de encaixar os personagens nessa categoria. Aquilo que é chamado de “crise da meia-idade” não tem comprovação científica. Algumas pesquisas apontam, inclusive, que o termo faz um resumo grosseiro de uma série de problemas psicológicos que não estão atrelados necessariamente à idade, mas a fatores sociais que geram os mesmos problemas em pessoas diferentes simplesmente porque somos submetidos a um padrão.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Só mais um copo...

Há muito mais drama que comédia em Druk. Por mais que não sejamos íntimos da cultura dinamarquesa, é notável a tensão que paira sobre os personagens, sobre a ideia de uma vida que é vivida de uma forma meio anestesiada, apenas existindo um dia após o outro, cumprindo com obrigações, raramente pensando em si e no que nos faz feliz. A bebida (assim como operam em maior ou menor medida outras drogas, lícitas e ilícitas) tem um papel fundamental como auxiliar da relação entre o eu e o outro em Druk.

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Thomas Vinterberg, que dirige Druk e assina o roteiro ao lado de Tobias Lindholm, faz uma crítica bastante contundente ao falso-moralismo que parece atingir a humanidade. Por que a bebida alcoólica é considerada tão nociva, chegando a ser proibida, quando já sabemos que em muitas ocasiões elas nos ajudam? Isso acontece pelos problemas do excesso, claro, algo que foi sabiamente adicionado ao roteiro. Por outro lado, as boas e más experiências do álcool são quase um senso comum, o que torna ainda mais intrigante o fato de ainda não sabermos lidar com isso.

A escolha da profissão de professor de Ensino Médio para os personagens centrais é excelente nesse sentido, justamente porque promove o choque de realidades que irá culminar no desenvolvimento de sintomas que podem ser entendidos como crise de meia-idade, mas que, na verdade, têm muito mais a ver com um apagamento de si mesmo, seja pelas pressões da vida adulta, seja por outros problemas psicológicos que estejam atrelados a tudo isso.

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Como professores, também fica mais plausível a ideia de experimentação científica, que no contexto do roteiro chega a parecer uma desculpa esfarrapada para beber, mas que se transforma em um manual que poderia ser seguido por qualquer pessoa que aprecie beber: é necessário tomar conhecimento do próprio corpo, dos próprios limites. Assim, o que Vinterberg consegue fazer é remover da bebida a demonização que geralmente é entendida como intrínseca ao álcool, revelando que, na verdade, a substância não é boa ou má em si, dependendo única e exclusivamente do uso que fazemos dela.

Desconstrução

Apesar de estar na moda, a palavra “desconstrução” faz referência a um processo antigo, que nós, humanos, fazemos há muito tempo: filosofia. Não a toa, o filósofo Søren Kierkegaard é uma citação recorrente no filme (além de funcionar também como um spoiler da depressão que assola os personagens centrais). Conhecido por ter vivido em sofrimento, Kierkegaard é, paradoxalmente, um grande autor capaz de nos ajudar a desenvolver amor pela vida, apesar da verdadeira tragédia que é viver.

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Em Druk, o álcool funciona como pequenas doses de uma filosofia kierkegaardiana, existencialista até o talo: nada somos, nos tornamos, somos construção. E não uma construção isolada: somos nós, mas somente com relação aos outros. Em suma, o que define a quantidade ideal de álcool ideal socialmente é a reação do outro, nossa relação com as pessoas que nos cercam nas mais diversas funções sociais: beber um pouquinho pode ajudar a se livrar de um nervosismo, mas talvez você precise de mais do que isso para dançar sem vergonha alguma. Não ter vergonha alguma, no entanto, pode não ser o ideal no contexto de uma reunião pedagógica, por exemplo.

A justa medida e a relação com o outro evocam outros muitos filósofos, sobretudo Aristóteles e Sartre, que se juntam a Kierkegaard nesse pensamento crítico sobre a vida. É preciso experimentar e refletir, sozinho e acompanhado. "Conhece a ti mesmo", diz a máxima [supostamente] inscrita no Templo de Apolo em Delfos, e os diálogos de Platão não estão muito distantes dos experimentos propostos pelo quarteto de professores. Não é exagero algum dizer que Druk, enfim, é filosofia pura em um dos seus formatos mais acessíveis.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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