Crítica | Distúrbio é uma prova da genialidade esquecida de Steven Soderbergh

Por Laísa Trojaike | 12 de Maio de 2020 às 20h00
20th Century Fox

Distúrbio é um excelente exemplo de que um filme não precisa ser grandioso para estimular a nossa reflexão. O diretor Steven Soderbergh, que já realizou títulos como Sexo, Mentiras e Videotape (1989), Traffic: Ninguém Sai Limpo (2000), Onze Homens e um Segredo (2001) e Contágio (2011), dirigiu Distúrbio com um baixíssimo orçamento: equipe reduzida, apenas 10 dias de gravação, um iPhone 7 em um Gimbal e uma cadeira de rodas para fazer dolly shots (imagens captadas a partir da movimentação da câmera pelo set de filmagem).

Embora a produção tenha cara de filme universitário, que precisa utilizar equipamentos mais baratos aliados a gambiarras, a genialidade de Soderbergh reside em justamente mostrar como é possível fazer um filme no mínimo interessante com esses recursos: os conhecimentos cinematográficos do diretor transbordam através dos ângulos e enquadramentos escolhidos para uma trama que permite a exploração das deformações proporcionadas pela grande angular de uma câmera de celular, além de decisões criativas como a excelente sobreposição criada para demonstrar os efeitos que o metilfenidato, associado a outras drogas, teve em Sawyer, personagem de Claire Foy.

Soderbergh utiliza as deformações da lente para mostrar como a realidade de Sawyer foi alterada pelo medo (Imagem: 20th Century Fox)
Sobreposição mostra Sawyer fora de si após ter sido inadequadamente medicada (Imagem: 20th Century Fox)

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Era uma vez uma mulher…

"Amo quando você veste de azul. Quero dizer, amo você em qualquer coisa, mas... você vestia azul naquela primeira vez que te vi, então sempre que te vejo de azul, isso me lembra de como me senti naquele momento. De como eu nem sabia o que era estar vivo até ver você. Você liberou algo dentro de mim naquele dia, algo que eu nem imaginava que estava lá. E, naquele momento, eu soube que mais nada na minha vida seria o mesmo. Naquele momento, fui permanentemente transformado. Você fez isso". (tradução livre)

O roteiro de Jonathan Bernstein e James Greer é genial ao iniciar Distúrbio (disponível para os assinantes do Prime Video) com esse discurso que pode comover o espectador com uma belíssima declaração de amor que poderá ser esquecida nos primeiros minutos do filme, contribuindo para que uma incógnita seja lançada sobre a sanidade mental de Sawyer. O próprio discurso, que descobriremos posteriormente ser de David Strine (Joshua Leonard), já esconde em si mesmo sinais de alerta: embora fale de si, o sujeito da frase culpabiliza a vítima de stalker por tudo que está acontecendo, como se o sentimento doentio por ele desenvolvido encontrasse a causa única e exclusivamente nela.

Os créditos iniciais e finais de Distúrbio apresentam, ao mesmo tempo, sinais de aparente pobreza estética e riqueza de linguagem: a escolha de fontes parece questionável pelo uso da comum Century Gothic e pelo mau gosto ao estilizá-las na cor vermelha com contorno preto, o que contrasta com os padrões contemporâneos de design de créditos. A economia do orçamento chega a parecer exagerada nesses momentos. Essa pobreza visual guarda, no entanto, uma riqueza cultural: enquanto a abertura do filme mostra Sawyer sendo observada, com arbustos emoldurando sua figura que é vista com distanciamento, a imagem de menor qualidade aliada à trilha sonora e à escolha de fontes para os créditos, remete diretamente aos giallos, subgênero de terror e suspense italiano que tinha quase sempre mulheres como vítimas. O encerramento, além de resgatar novamente essa ambientação de gênero, ainda congela um frame, mostrando a personagem Sawyer estática enquanto parece quebrar a quarta parede eternamente, como fez François Truffaut em Os Incompreendidos (1959).

Imagem: 20th Century Fox

Insanidade

A ideia de que pacientes são compulsoriamente internados como parte de um grande esquema da indústria farmacêutica e da saúde soa tanto como teoria da conspiração quanto plausível, mas não vem ao caso na história de Sawyer. O que está em xeque aqui é a veracidade da sua história e, a princípio, somos quase ou completamente convencidos de que, enfim, ela realmente está fora de si ao ver seu stalker em todos os lugares. O que as pessoas ao redor de Sawyer são incapazes de pensar é que se trata de uma mulher em uma situação de extrema vulnerabilidade.

Aliás, você percebeu que é David Strine o cara que aparece no escritório onde Sawyer trabalha? (Imagem: )

O roteiro fica ainda mais incisivo com o flashback que contém a participação especial de Matt Damon como um policial: após Sawyer recorrer à justiça para conseguir o distanciamento de David Strine, o que ela ganha é mais alimento para o pânico, com sua vida precisando ser completamente repensada simplesmente porque um homem foi incapaz de compreender um “não”. Enfim, Sawyer desenvolve distúrbios como Síndrome do Pânico aliado a uma mania de perseguição justificada que contribuem enormemente para sua estadia na ala psiquiátrica do hospital.

Em meio a questões sobre a vulnerabilidade feminina, o roteiro encontra espaço para demonstrar o horror de se ver preso em um lugar capaz de anular a veracidade do discurso de um indivíduo: se o suposto “louco” diz que não é “louco”, quem vai acreditar nele? Além disso, Distúrbio mostra como o tratamento pode remover alguém do seu estado de sanidade, seja quimicamente, seja pelo trato desumano, além de agravar o estado de quem já foi diagnosticado com alguma doença mental. Marcada pelo pânico da perseguição, Sawyer não consegue se ver livre da sensação mesmo após ter matado David com suas próprias mãos.

A utilização de visão noturna para mostrar o que acontece no escuro também funciona como referência ao filme A Bruxa de Blair, primeiro trabalho de Joshua Leonard como ator (Imagem: 20th Century Fox)

Soderbergh tem um trabalho no mínimo encorajador com Distúrbio: é possível fazer um filme bastante complexo com um orçamento muito reduzido, desde que se tenha um roteiro que possibilite isso, além de conhecimento suficiente para transformar a falta em ganho. Claire Foy contribui enormemente com o desenvolvimento da trama, transitando entre a racionalidade e o inconsciente, potencializando os efeitos dos momentos em que roteiro e direção tentam enganar intencionalmente o espectador. Distúrbio é um filme que, tendo sido lançado em 2018, já parecer ter passado meio despercebido, mas será sempre um grande achado para quem resolver se aventurar em conhecer a filmografia de Soderbergh.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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