Crítica | Contágio é um filme assustador porque é um raio-x perfeito do pânico

Por Rui Maciel | 01 de Fevereiro de 2020 às 08h17

Na última quinta-feira (30), o Canaltech noticiou que o crescente surto de Coronavírus, que pode se espalhar pelo mundo, vem fazendo que o filme Contágio, lançado em 2011, volte a ser um dos mais procurados no iTunes nos EUA. Isso porque, como o próprio nome diz, o longa retrata como um vírus misterioso contamina uma cidadã norte-americana na China e, logo depois, passa a infectar não apenas os cidadãos chineses, mas também milhões de pessoas mundo afora, matando-as em 24 horas e transformando-se em uma epidemia global.

Mas, coincidências à parte, se você ainda não viu Contágio, dê um jeito de assistir (ele está disponível para aluguel no YouTube por apenas R$ 7,90 e também no serviço de streaming HBO GO). Não apenas porque ele tem diversas semelhanças com a nossa realidade atual - até porque o vírus fictício é bem mais letal -, mas, acima de tudo, porque é um baita filme! E se você acha que ele é um drama, está errado. Contágio é um longa de terror. E dos bons!

O filme começa com Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow) em uma viagem de negócios em Hong Kong. Já no aeroporto, preparando-se para voltar a Mineápolis, ela conversa com o amante por telefone, já apresentando alguns sintomas estranhos. Ao chegar nos EUA, ela encontra o marido Mitch (Matt Damon) e o filho Clark (Griffin Kane). Seu estado de saúde piora e, horas depois, ela e o filho estão mortos. Ao mesmo tempo, diversos cidadãos chineses e japoneses que tiveram contato (ou não) com Beth também morrem em poucas horas. Em território norte-americano, a mesma coisa acontece. O vírus desconhecido começa a ganhar o mundo e, rapidamente, se transforma em uma pandemia, uma espécie de "Peste Negra 2.0".

Gwyneth Paltrow: O Benegrip não funcionou dessa vez (Crédito da foto: Warner Bros.)

A partir daí, o filme ganha várias frentes: Mitch — pertencente a uma seleto clube de pessoas imunes ao vírus — tenta manter sua filha a salvo da doença e da bagunça em que o mundo vai se tornando; organizações médicas como a CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doença dos EUA), capitaneada pelo doutor Ellis Cheever (Laurence Fishburne), e a OMS (Organização Mundial de Saúde) tentam não só descobrir o marco zero do vírus como também uma vacina contra ele; um blogueiro irresponsável, metido à jornalista (Jude Law, excelente) quer ganhar fama e fortuna com teorias da conspiração, colocando em risco a vida de milhões de pessoas; exércitos tentam controlar a população, que ameaça transformar o planeta em um caos. E, claro, políticos mundo afora travam disputas pelo poder, seja atrapalhando os esforços de organizações humanitárias, seja brigando por orçamentos ou pela distribuição de remédios que, supostamente, combateriam o vírus. Tudo isso enquanto dezenas de milhões de pessoas morrem.

Enfim, o apocalipse em sua forma mais realista.

O terror mais eficiente

Contágio é um filme de terror de primeira linha porque mostra que o pior horror não são monstros, acontecimentos sobrenaturais, demônios ou serial killers que nunca morrem. Na verdade, nosso pior pesadelo é a própria humanidade. No caos em que o mundo se transforma, casas, mercados, farmácias e hospitais são saqueados, roubos e assassinatos ganham escala assustadora, sequestros viram rotina e as ruas se transformam em uma espécie de Mad Max contemporâneo.

E o ponto alto do filme é mostrar que o terror está nos detalhes: nas ruas, lojas e aeroportos das grandes metrópoles vazias ou cheias de lixos e cadáveres, vítimas do vírus. No close fechado em maçanetas, copos, suportes de ônibus e tosses que podem trazer a doença... ou não. Nos atos violentos de pessoas desesperadas em manterem-se vivas.

Enfim, o medo maior está naquilo que presenciamos diariamente e que pode se multiplicar por mil quando milhões de pessoas resolvem entrar em pânico ao mesmo tempo.

O apocalipse se forma depois da epidemia (Crédito da foto: Warner Bros.)

E, claro, um filme com esse tema poderia virar um daqueles suspenses de baixíssima qualidade nas mãos de um diretor ruim. Só que Steven Soderbergh (Sexo, Mentiras e Videotape, a trilogia de Onze Homens e Um Segredo, Traffic, Erin Brockovich) está longe de ser um deles. Nas suas mãos, Contágio consegue assustar para valer, sem necessariamente apelar para algum tipo de clímax ou sustos fáceis. Ele usa uma trilha sonora sóbria, lentes diferentes para cada país onde a doença é retratada e truques legais como um letreiro entrecortando as cenas, indicando "Dia 2", "Dia 3", "Dia 21"... mostrando como a epidemia começou a se espalhar pelo mundo e suas consequências ao longo dos dias. Aliás, o "Dia 1" você só descobre no final.

Jason Bour...ops...Matt Damon e Steven Soderbergh: elenco de primeira e direção das melhores (Crédito da foto: Warner Bros.)

E para um filme desses funcionar bem é preciso, claro, de um elenco bom o suficiente para tornar a coisa toda crível. E Soderbergh mostra porque é um diretor influente em Hollywood. Contágio traz um cast de primeira. Além de Paltrow, Damon, Law e Fishburne, o longa conta ainda com Kate Wislet, Marion Cotillard, Jennifer Ehle, Bryan Cranston entre outros. E, spoiler: vários deles não chegam até o final.

Enfim, ainda que seja muito difícil que o Coronavírus tome as proporções do vírus retratado no longa, é bem interessante notar que o que mais devemos temer não um palhaço assassino como Pennywise, mas sim a pessoa sentada ao seu lado quando ela coloca na cabeça o temível ditado "Antes ele do que eu". Por isso, Contágio é um filmaço!

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