Crítica | Cursed tem seus méritos, mas tropeça em atuações irregulares

Por Claudio Yuge | 20 de Julho de 2020 às 12h48
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“Todas as grandes histórias já foram contadas, cabe aos escritores revigorá-las para uma nova geração de leitores”, disse certa vez Neil Gaiman. E é justamente o que a obra original de Cursed - A Lenda do Lago fez na recorrente revisão da lenda do Rei Artur ao oferecer protagonismo feminino e criticar a religião em meio à perversão das características básicas de personagens como o próprio Artur e o mago Merlin. A adaptação da Netflix, que estreou na sexta-feira (17), segue bem a linha do livro de Frank Miller e Thomas Wheeler, mas tropeça em atuações irregulares e alguns problemas de produção.

Atenção, a partir daqui há detalhes da trama com spoilers!

Tudo gira em torno de Nimue (Katherine Langford), que antes era uma discreta transeunte nas histórias do Rei Artur e agora é o centro das atenções. Desde criança, ela possui um dom/maldição que a permite dialogar com forças sobrenaturais dos “Ocultos”. Isso a torna muito diferente na comunidade que vive, pois a trama se passa em um período em que os Paladinos Vermelhos — ou os extremistas da Igreja Católica — estão em guerra contra bruxas — ou com qualquer um que vá contra os ideais da religião.

Nimue e Artur (Reprodução/Netflix)

Eis que, em uma de seus atos inconsequentes, Nimue chama a atenção dos Paladinos Vermelhos, que destroem o vilarejo e assassinam a mãe da garota na sua frente. Em seu último desejo, Lenore (Catherine Walker) pede à Nimue que leve a Espada do Poder (claramente uma citação à Excalibur) para Merlin (Gustaf Skarsgard) — que um dia foi um poderoso mago, mas agora passa seus dias sem as habilidades de outrora, enquanto cai pelas beiradas de bêbado por aí.

Atuações e texto irregulares

Katherine Langford tem inegável charme e carisma, contudo, a trajetória de uma adolescente rebelde para se tornar uma brava líder é cheia de percalços. Na maioria das vezes ela até dá conta da oscilação entre o medo e a coragem ou a dúvida e a impulsividade de Nimue — e é o que compele a audiência a continuar seguindo seus passos para o fora do vilarejo e rumo à maturidade.

Mas aí começamos a notar um problema que se torna recorrente em toda a trama: não sabemos exatamente em que época isso acontece; e o local, que desde a primeira cena exibe elementos mágicos, também parece deslocado da Terra. Ou seja, não há precisão histórica e esse “lugar nenhum” traz certa confusão à história toda. Os diálogos refletem bastante isso e Katherine, por exemplo, tem muito mais a maneira de falar de uma adolescente colegial de 13 Reasons Why do que de uma jovem do final do século V.

Irmã Iris parece vilã de novela mexicana (Reprodução/Netflix)

Devon Terrell traz diversidade e uma outra perspectiva à Artur, com bom manejo de espada. Mas sua atuação é muito irregular, e o texto, mais uma vez, não o ajuda. Vale ressaltar que temos ótimos momentos com o Merlin pinguço de Skarsgard; e Lily Newmark faz uma boa interpretação de Pym, a melhor amiga de Nimue. Mas basta olhar para os vilões Padre Carden (Peter Mullan) e Irmã Iris (Emily Coates) para notar que realmente faltou mais cuidado nesse setor de Cursed - A Lenda do Lago — esta última tem recorrentes tomadas dignas de novelas mexicanas, chorando de raiva, fazendo beicinho e rangendo os dentes em vários episódios.

Cursed ou Game of Thrones?

Dá para notar que a Netflix investiu bastante em Cursed - A Lenda do Lago, pois há variedade de locações. Os cenários, figurinos, maquiagem e efeitos visuais são caprichados para uma série de TV. Aliás, há muitas cenas de gore e violência — uma herança do estilo de Miller, que, no final das contas, não aparece muito na identidade visual da atração, somente na abertura e em algumas animações de passagem.

Essa vontade de ser épica extrapola os limites da produção e invade a trama: aos poucos, vamos percebendo um jogo de poder entre diferentes sociedades, que estão em busca da espada para conquistar uma posição de destaque — embora ninguém diga exatamente o que fará com a suposta Excalibur quando finalmente a tirar de Nimue.

Nesse cenário emergem dois personagens interessantes, a fada Morgana (Shalom Brune-Franklin) e o cavaleiro Gawain (Matt Stokoe). Contudo, há uma certa irregularidade na narrativa e no tom que muitas vezes mina a personalidade de Cursed e pasteuriza a série como mais uma tentativa de emular o sucesso de Game of Thrones.

Embora produção seja caprichada, cenas de ação não trazem a urgência ou ares épicos que Cursed precisa
(Reprodução/Netflix)

As batalhas, por exemplo, não são muito bem coordenadas, e, em vez das sequências épicas dignas da série da HBO, vemos invasões a vilarejos com edição e tomadas pouco inspiradas — e, veja bem, isso não é culpa exatamente da produção, porque é possível ver centenas de pessoas envolvidas. Logo nos primeiros episódios, a narrativa muda e saímos de um bosque mágico para vermos um novelão de drama de abadia.

Em seguida, temos uma disputa de diferentes castas de mágicos no caminho de Merlin e um Artur incoerente, muitas vezes sem química com a própria Nimue. Para completar, ainda há a transição mal concebida de Morgana e vilões sem apelo — inimigos melhores construídos naturalmente fariam com que os protagonistas brilhassem mais.

Vale a pena? 

Se você é realmente fã das histórias arturianas ou de Katherine Langford, é possível que consiga maratonar de uma vez só. Mas para a maioria das pessoas, acredito ser difícil encarar sem algumas pausas. As imprecisões históricas, confusão nas mudanças de narrativa, atuações irregulares e sequências de ação pouco inspiradas podem tornar a experiência um tanto quanto modorrenta.

Reprodução/Netflix

Cursed - A Lenda do Lago tem seus méritos ao fazer bem o papel de trazer (mais) uma diferente perspectiva sobre a lenda do rei Artur, com personagens clássicos que receberam interessantes doses de modernidade. Contudo, a série precisa de um pouco de disposição do telespectador para chegar à conclusão de seus dez longos episódios.

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