Por que o final de Game of Thrones foi horrível — e por que isso não importa

O inverno chegou, e a Longa Noite teve seu fim: no último domingo (19), a HBO transmitiu o último episódio de Game of Thrones, colocando um ponto final na série que foi um dos grandes fenômenos culturais dos últimos anos, e muito provavelmente a última série de TV em que nos reunimos em volta do aparelho e sentimos a necessidade de assistir ao episódio no momento em que ele é transmitido.

O fim de Game of Thrones é um marco não apenas para a TV — pois é o fim da produção mais cara e expansiva já produzida para a mídia —, como também o fim de um modo de assistir TV, em que nos sentíamos compelidos a, em determinado dia e horário, parar tudo que estivéssemos fazendo em nossas vidas e dedicar a próxima hora olhando atentamente para aquela tela.

AVISO DE SPOILER: Esta matéria contém spoilers de todas as temporadas de Game of Thrones, incluindo até o episódio final da série. Então, se você não está em dia com ela, proceda com cautela.

E é isso: Game of Thrones finalmente chegou ao fim. Se você não ficou os últimos dias completamente desconectado das redes sociais, mesmo quem não acompanha a série provavelmente já sabe que esse fim foi decepcionante para a maioria dos fãs. Mas a pergunta que fica é: por que tanta gente achou tão decepcionante esse final?

Quebra de ritmo

Independente de seus sentimentos sobre o final da série, uma coisa é certa: as duas últimas temporadas de Game of Thrones foram tão diferentes das seis primeiras que nem pareciam a mesma série. E o problema, claramente, estava no ritmo: as primeiras temporadas da série mantinham um ritmo extremamente lento e metódico, mostrando todas as minúcias de negociações e planos que nos levavam às cenas de maior choque narrativo, como a execução de Ned Stark, o Casamento Vermelho e o assassinato de Jon Snow. Mas, nas duas últimas temporadas, a série parece ter dado um giro de 180º em seu ritmo, e tudo parecia muito mais corrido: cada episódio tinha dois ou três momentos de clímax que, em temporadas anteriores, seriam reservados para a cena final. Não havia mais uma preocupação em explicar nos mínimos detalhes os pequenos eventos e conversas que nos levarão ao momento de maior importância e que servirão para fazer a narrativa central sair do lugar. E essa percepção de que as coisas mudaram muito a partir da sétima temporada não está errada.

Essa mudança é explicada de modo brilhante por Zeynep Tufekci, professora de análise do discurso da Universidade da Carolina do Norte, em um artigo publicado pela revista Scientific American. No artigo, Tufekci explica que essa diferença de ritmo ocorre por conta de uma mudança de estilo da narrativa, que começa a acontecer durante a sexta temporada mas que termina sua transição e se modifica completamente na sétima — não por coincidência, exatamente quando a série ultrapassa os eventos dos livros já publicados por George R.R. Martin.

Isso acontece porque, durante as primeiras seis temporadas — ou seja, quando a série ainda está adaptando os eventos dos livros —, elas utilizavam uma narrativa do tipo sociológica, ou seja, era uma história não sobre personagens específicos, mas sobre o funcionamento dos mecanismos de poder de Westeros — a tal “roda” que Daenerys sempre falava ter o desejo de quebrar. Por isso que coisas como a execução de Ned Stark e o Casamento Vermelho poderiam acontecer, porque nesse tipo de narrativa não há personagens protagonistas que são extremamente necessários para a história; o protagonista era a própria disputa pelo trono, e assim a série conseguia se safar da morte de personagens principais para a narrativa até aquele momento, porque a morte desses personagens servia para “girar a roda” e, como em um tabuleiro de xadrez, obrigar as peças a se movimentarem ao invés de continuarem estáticas.

E por isso Game of Thrones parecia tão diferente de qualquer outra série de TV, exatamente porque era: narrativas sociológicas são extremamente raras no ambiente televisivo, e a última série de sucesso a utilizar esse tipo de narrativa talvez tenha sido The Wire, também produzida pela HBO e que fez um certo sucesso no começo dos anos 2000.

Já nas duas últimas temporadas, a série passou por uma mudança brusca na narrativa, deixando de ser uma narrativa sociológica e passando a se tornar uma narrativa psicológica — ou seja, ela deixou se ser sobre os mecanismos de poder e passou a ser sobre personagens específicos. Esse é um método mais comum de narrativa e utilizado pela maioria das séries de TV, sendo o modo padrão como roteiros são escritos em Hollywood . Assim, não é difícil entender por que essa mudança de narrativa ocorreu justamente quando a série de TV ultrapassou os livros. Esse seria o principal motivo de a série ter parado de nos mostrar os mínimos detalhes de como cada evento ocorre, pois isso não seria mais o ponto mais importante da narrativa, e sim mostrar as coisas incríveis que cada personagem faz.

Por isso, personagens como Jon Snow e Daenerys Targaryen passaram a ter algo conhecido como “armadura de roteiro” — ou seja, eles podiam ter as ideias mais estúpidas possíveis que nada aconteceria com eles. Em temporadas anteriores, a ideia de Jon de ir capturar um Caminhante Branco, ou a de Daenerys de aparecer numa praia sem nenhuma proteção e exigir a rendição de Cersei enquanto dezenas de balistas e arqueiros estavam nos muros de Porto Real prontos para matá-la, e nada acontecer a eles, é um sintoma dessa “armadura”, pois como a série não é mais sobre um sistema, mas sobre os personagens, ela então passa a ter protagonistas claros que não podem ser mortos antes do momento correto, independente dos erros de julgamento que cometem ao longo dos episódios, pois eles passam a ser parte integrantes do andamento da narrativa.

Ao mesmo tempo, seria esse também o motivo de personagens como Tyrion e Varys terem tanto destaque nas primeiras temporadas e são praticamente postos para escanteio nas duas últimas, pois o diferencial de ambos os personagens é saber manipular as estruturas de poder e fazê-las operar em seu favor — então, quando essas estruturas não mais são importantes, eles também perdem relevância.

Quem é o culpado?

Claro, parte da culpa disso é do próprio George R.R. Martin: quando a HBO começou as gravações da série em 2009/2010, Martin havia garantido a todos que não havia a possibilidade de a série ultrapassar os livros, pois em 2012 ele lançaria Winds of Winter (o sexto livro da série), e que antes de a HBO precisar gravar a última temporada de Game of Thrones ele já teria também lançado o sétimo livro da série.

A realidade todos sabemos: a HBO transmitiu o último episódio da série oito anos depois da estreia da primeira temporada, e Martin ainda está enrolando para entregar o sexto livro e fazendo promessas vagas de que ele deverá sair em 2020. Assim, não dá pra culpar apenas a equipe da série pelos problemas das últimas temporadas, pois os roteiristas foram contratados para adaptar uma série de livros (o que fizeram muito bem mesmo, entregando talvez uma das melhores adaptações de um livro para a televisão) mas, a partir do momento que não havia mais uma obra a ser adaptada, era de se esperar que esses roteiristas passassem a utilizar o modo de escrita mais comum para séries de TV, pois a partir daquele momento não era mais uma adaptação, mas uma criação, e era esse o estilo de escrita que eles usavam para criar histórias.

Ao mesmo tempo, também não há como tirar totalmente a culpa da queda de qualidade das últimas duas temporadas dos showrunners da série — principalmente quando a maior parte dessa queda na qualidade se deve à mudança brusca de ritmo. Mesmo sem ter os livros de base, nos momentos em que a série “desacelerava” — como, por exemplo, em todo o segundo episódio da última temporada, ou na cena do episódio final em que Tyrion acaba convencendo Jon de que Daenerys precisava ser morta —, era possível ver que aquela qualidade do texto, da preparação para os momentos grandiosos existentes nas primeiras temporadas podiam, sim, ser feitas sem grande perda de qualidade pelos mesmos roteiristas que antes só adaptavam os livros, deixando claro que a decisão de fazer com que as duas últimas temporadas da série fossem menores, entregando apenas treze episódios ao invés dos vinte esperados, foi um dos motivos que obrigou a narrativa a tomar tantos “atalhos”.

Pensando-se apenas na frieza dos números, fazer duas temporadas menores não faz o menor sentido. Ao mesmo tempo em que Game of Thrones era a série mais cara da HBO, também era a que mais dava retorno financeiro ao canal, que já havia deixado claro que continuaria bancando a produção independente do tempo de duração, deixando a cargo de David Bennioff e D.B. Weiss decidirem quantos episódios eles precisariam para terminar a história. E, quanto mais episódios, melhor para a HBO: a série ainda não estava em um momento de perda de audiência — ao contrário, se tornava ainda mais famosa a cada nova temporada — e mais episódios significava ainda mais retorno em acordos comerciais e mais marketing para o canal em todas as publicações que cobriam a série.

Assim, seria do interesse de todos manter o mesmo ritmo de dez episódios por temporada e, por que não, esticar a série para um nona ou décima ao invés de finalizá-la com duas temporadas menores do que o padrão.

Ao mesmo tempo, não podemos esquecer que quem trabalha na série são pessoas, e gravar esses dez episódios por temporada não era nada fácil. Gravar Game of Thrones não é tão simples quanto, por exemplo, The Big Bang Theory — que também chegou ao final este ano. Boa parte das séries americanas são gravadas quase que majoritariamente em estúdios fechados, muitas vezes nas cidades de Los Angeles ou Nova York, o que permite que toda a equipe de produção da série saia de casa, vá para a gravação, e tenha tempo para ter uma vida normal com seus amigos e família, como em qualquer emprego. Isso se torna mais difícil em uma série como Game of Thrones, onde a maioria das cenas são gravadas em cidades da Europa, como Belfast (Irlanda), Dubrovnik (Croácia), Sevilha (Espanha), além de diversas outras localidades em países como Malta, Islândia e Marrocos. Isso quer dizer que, durante cerca de nove meses do ano, os atores, diretores, produtores e toda a equipe envolvida na gravação da série eram obrigados a viajar para diversos lugares do mundo, deixando para trás suas famílias e suas vidas pessoais.

Esse cronograma era ruim até mesmo para os atores da série, que não conseguiam aproveitar a fama que ganhavam para alavancarem suas carreiras, sendo obrigados apenas a aceitar projetos rápidos e que poderiam ser terminados nos cerca de três meses que tinham de férias até o início das gravações da próxima temporada — e nesses três meses de férias eles eram obrigados a participar de programas de entrevistas e compromissos com a imprensa para promover a série. Assim, o mesmo trabalho que os havia transformado em celebridades mundiais era o que impedia esses atores de usarem essa fama para alavancarem suas carreiras em outros papéis.

Os próprios showrunners da série, Benioff e Weiss, já tinham outros projetos em mente, e esticar demais a existência de Game of Thrones seria algo que poderia atrapalhar os planos futuros da dupla. Assim, é possível entender a escolha de diminuir as duas últimas temporadas de Game of Thrones não como uma decisão de negócios que se preocupou com a lucratividade, mas uma decisão feita pelo lado humano, como forma de dar fim a algo que, mesmo que fosse o responsável pelo sucesso adquirido por seus criadores e por todo o seu elenco, era o que estava atrapalhando o prosseguimento da carreira dessas pessoas.

Ao mesmo tempo, é possível que Benioff & Weiss venham a, daqui a alguns anos, considerar que a decisão de diminuir as últimas temporadas de Game of Thrones foi a pior de suas carreiras, porque os problemas que isso causou para a série acabaram por abalar demais a confiança que o público tinha em seu trabalho. Durante as seis primeiras temporadas, a dupla conseguiu sair do status de “apenas mais dois roteiristas de Hollywood” para “dois dos maiores produtores de audiovisual da atualidade”, e o nome deles foi louvado quando a Disney anunciou no ano passado que eles ficariam responsáveis por uma nova trilogia de Star Wars.

Mas, com o fim de Game of Thrones do jeito que foi, a credibilidade do público para com o trabalho da dupla caiu muito, e há uma preocupação verdadeira sobre se eles não vão acabar estragando Star Wars assim como fizeram com a série da HBO. Ainda que seja fácil de entender o lado humano que os levou a diminuir o número de episódios da série — e terminar Game of Thrones era o único jeito de conseguirem avançar em suas carreiras —, o modo como o fizeram acabou colocando essa carreira em xeque e, se o filme que eles produzirem de Star Wars não for um enorme sucesso de público e crítica e todo mundo concordar que é um dos melhores já lançados da franquia, eles dificilmente receberão tão cedo outras oportunidades de conduzir uma franquia de grande reconhecimento pelo público.

Lidando com a decepção

Assim, é normal que o público se sinta decepcionado com a forma como a série terminou — afinal, diversas das decisões feitas para a última temporada da série levaram mais em conta os sentimentos pessoais de quem a produzia do que a expectativa do público em si. Mas, ao mesmo tempo, é possível argumentar também que, qualquer que fosse o fim escolhido para a série, o sentimento de decepção de quem a assiste seria o mesmo.

Isso acontece com praticamente qualquer série que se torna um fenômeno cultural no sentido de não apenas ter grandes audiências, mas de também se tornar o assunto mais discutido em praticamente qualquer local. Arquivo X teve um final considerado decepcionante, Friends também, assim como Lost e How I Met Your Mother. Independente da real qualidade ou não do final dessas séries, no momento da transmissão eles foram recebidos pelo público com duras críticas e considerados decepcionantes.

Isso acontece com praticamente todo fenômeno cultural em que há um envolvimento maior do público além de simplesmente sentar na frente da TV e assistir ao produto. Quando esse produto (a série de TV) se torna um assunto estudado, discutido, que ultrapassa a ideia de apenas algo para passar o tempo e se divertir e se torna um elemento importante na própria vida dos fãs, as expectativas para essa obra nunca poderão ser alcançadas, simplesmente porque temos muitas pessoas que a enxergam de muitas maneiras diferente e, para elas, apenas a conclusão existente em suas cabeças faz sentido.

Apesar de não parecer, obras audiovisuais também possuem um grande componente subjetivo na forma como são consumidas. Isso faz com que diversas pessoas assistam a exatamente a mesma cena, mas retirem dela significados diferentes — e nem sempre é a mensagem que o diretor ou os atores que participaram da cena queriam passar. Assim, mesmo que o final de um produto desses até faça sentido em sua própria lógica, ele pode ser visto como uma “afronta” para diversos de seus fãs pois não satisfaz a lógica de significados existentes na narrativa subjetiva deles.

Essa é uma relação que nunca irá mudar, pois a própria relação de “autor versus fã”, no que concerne a obra, é uma relação de disputa: o autor cria a obra para satisfazer os seus próprios desejos, e espera encontrar fãs que possuem desejos parecidos que possam se interessar por essa obra; enquanto isso, muitas vezes o fã não se considera um admirador, mas um cliente que está pagando pela obra e precisa ser satisfeito por ela, e passa a culpar o ator por não ter satisfeito (ou satisfeito apenas parcialmente) esses desejos — mesmo que essa nunca tenha sido a intenção dele.

Isso não quer dizer que aquilo que o autor faz é sempre bom e os fãs que não conseguem enxergar a genialidade dele; em muitos momentos, os fãs estão certos: o trabalho entregue é extremamente ruim e não faz jus aos próprios trabalhos anteriores do mesmo autor. Mas, ao mesmo tempo, fazer petições exigindo a “regravação” de uma obra é o máximo sinal de desrespeito que se pode ter a ela, pois coloca a sua percepção subjetiva como fã de uma obra como algo muito mais importante do que o pensamento do autor sobre sua própria obra, mostrando que não há uma vontade em se respeitar o artista, mas sim em tratá-lo como um provedor de serviços que deve satisfazer os seus desejos artísticos. Uma relação não de fã — pois ser fã de algo acarreta respeitar a obra e a pessoa que a criou —, mas de prostituição, onde o cliente se sente no direito de exigir o prazer imediato e a satisfação de suas fantasias mais íntimas porque está pagando.

O final de Game of Thrones foi ruim? Claro. A última temporada da série foi muito diferente das anteriores? Com certeza. Mas isso não quer dizer que temos que sair gritando por aí pedindo para que ela seja refeita, ou argumentando que estragou toda a obra. O fato de você ter comido uma coxinha estragada e passado a madrugada no banheiro não diminui a felicidade que sentiu quando passou o dia inteiro na praia curtindo com a sua família. Nem sempre o final é aquilo que esperamos, e por isso mesmo tantos livros de auto-ajuda pregam que devemos nos focar menos nos objetivos e mais em aproveitar a jornada que nos levou até eles.

E, se depois de oito anos, nós chegamos ao episódio final de Game of Thrones com força para gritar aos quatro ventos como estamos decepcionados com a forma como a série terminou, é porque a jornada certamente foi fantástica.

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