Crítica | Constantine é um clássico que merece ser lembrado com mais carinho

Por Douglas Ciriaco | 30 de Junho de 2020 às 08h49
Divulgação/Warner Bros.

Quem acompanha o universo Vertigo, antigo selo da DC Comics dedicado a publicações de produções adultas como V de Vingança, Watchmen, Monstro do Pântano, Sandman e Preacher, provavelmente deve saber que o filme Constantine (disponível na Netflix)mudou muita coisa em relação ao protagonista de Hellblazer, outro título famoso do selo encerrado em 2020.

Eu, como um grande fã de John Constantine, preciso dizer logo que nem todos os fãs do mestre das artes ocultas mais famoso dos quadrinhos torcem o nariz para o filme protagonizado por Keanu Reeves.

A obra dirigida por Francis Lawrence foi lançada em 2005 e esta história já é bastante conhecida: no gibi, John Constantine é um mestre das artes ocultas britânico nascido em Liverpool, loiro e que anda por aí trajando um capote bege, características bem diferentes do personagem de Reeves, que é estadunidense, vive em Nova York e tem cabelo e capote na cor preta.

No filme, John auxilia a policial Angela (Rachel Weisz) na investigação do misterioso suicídio de sua irmã gêmea. Além disso, ele precisa lidar com alguns demônios (literalmente) a fim de garantir um lugar no paraíso enquanto enfrenta um câncer de pulmão, situações que, combinadas, geram muita treta.

No rebote de Matrix

A escolha pelo astro de Matrix, bastante em alta naquele período exatamente pelo sucesso da trilogia das irmãs Wachowski, se mostrou acertada no fim das contas. A atuação de Reeves é impecável porque capta a essência canastrona, porém adorável, de John, mesmo que tenha gerado algo como um exorcista porradeiro que não faz bem o tipo do anti-herói nos gibis.

Se a ideia era aproveitar o hype de Neo (inclusive na caracterização), porém, o tiro saiu pela culatra, porque o filme não foi exatamente um sucesso de crítica nem de bilheteria na época do lançamento. No longo prazo, digamos assim, a coisa foi melhor e hoje Constantine tem um ar meio cult, podendo tranquilamente figurar entre as grandes adaptações de quadrinho já realizadas por Hollywood.

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Numa ponta tínhamos Reeves dando conta do recado, mas e na outra? Também! Um elenco estrelado foi capaz de ampliar ainda mais a capacidade narrativa de Constantine. Isso porque Tilda Swinton (Precisamos Falar sobre Kevin) como o anjo Gabriel, Djimon Hounsou (Amistad) como Papa Meia-Noite e Peter Stormare (Fargo) como Lúcifer complementam a ótima atuação do protagonista com adições únicas a cada um de seus personagens.

Reeves e Weisz dividem a tela em uma cena de Constantine (Imagem: Divulgação/Warner Bros.)

Swinton e Hounsou criam versões cinematográficas perfeitas de suas contrapartes nos quadrinhos, e vê-los na tela deixa a impressão de que estamos olhando para uma versão perfeitamente animada do gibi. As boas atuações deles, assim como de Stormare, dão mais substância aos conflitos vividos com Constantine.

A “mocinha” da história é Rachel Weisz (O Lagosta). Ela dá vida às gêmeas Angela e Isabel Dodson e é a responsável por trazer o bruxo à tona com uma atuação ao nível das demais e que reforça o trabalho excepcional de montagem de elenco.

A parte não tão positiva da escalação é o jovem Shia LaBeouf (Ninfomaníaca), que dá vida ao sempre presente Chas Kramer, uma espécie de faz-tudo sempre disposto a socorrer o amigo. Ele destoa um pouco dos demais não tanto pela atuação, mas pela forma como seu personagem é traduzido para o cinema.

Se no gibi Chas é um amigo presente e atuante para ajudar a livrar Constantine de algumas confusões, no filme ele tem um ar meio amador, iniciante e excessivamente juvenil. Felizmente, isso não compromete a química entre os dois.

Apenas um exorcista?

O recorte feito para Constantine no cinema é bem claro: ele é mostrado na telona como um exorcista, que de fato é apenas uma das várias facetas do mago. A escolha do roteiro escrito a quatro mãos por Kevin Brodbin e Frank Cappello, porém, não erra ao deixar a história mais enxuta, mais direta ao ponto.

Se proposital ou não, isso permitiu transpor de maneira bem fiel uma das principais sagas de John nos quadrinhos — Hábitos Perigosos, escrita por Garth Ennis. Ir além disso poderia deixar a história confusa, muitas pontas soltas e também estender demais a produção. O resultado dessas escolhas garantiu que o filme ficasse mais “redondinho”.

E é fato que, se a composição do Constantine de Keanu Reeves não cria uma cópia fiel e completa de todas as facetas do personagem no gibi, ao menos elas resultam em uma história coerente e em um personagem que carrega traços marcantes da personalidade do bruxo criado por Alan Moore em A Saga do Monstro do Pântano.

Apesar do fracasso na bilheteria, Constantine acabou se tornando um clássico (Imagem: Divulgação/Warner Bros.)

Passando pelo crivo do tempo

Entendo que as mudanças significativas descaracterizam o Constantine do cinema, especialmente porque elas parecem ter sido utilizadas para tornar a obra mais palatável ao público dos Estados Unidos e para pegar rebote no sucesso de Matrix. Não me parece, porém, que isso diminui o peso e o valor da obra, infelizmente subvalorizada e nem sempre vista como uma bem-sucedida adaptação dos quadrinhos em uma época anterior ao sucesso do Universo Cinematográfico Marvel e da Trilogia do Batman de Christopher Nolan (Batman Begins também é de 2005).

Apesar do fracasso de crítica e bilheteria, as altas médias de notas do público obtidas em plataformas como Rotten Tomatoes, Metacritic e IMDb mostram como Constantine envelheceu bem e como a história foi generosa com este ótimo filme. E é legal ver que ele continua em alta em 2020 e imaginar que, de um jeito ou de outro, inspirou muita gente a ir atrás dos quadrinhos e continuar desbravando esse universo incrível de John Constantine, Monstro do Pântano, Liga da Justiça Sombria e tanto outros personagens e histórias sensacionais que a DC reuniu no selo Vertigo.

Enfim, Constantine funciona tanto como uma adaptação de quadrinhos quanto como um filme independente porque é bom de ver, reúne boas doses de humor, ação e suspense e cria uma trama intrigante; tem uma história bem contada, com reviravolta e sarcasmo na medida, e é carregada por ótimas atuações. Toda vez que revejo, termino com a sensação de que se esta não foi a melhor, foi no mínimo uma excelente forma de contar no cinema tudo aquilo que faz de Hellblazer: Hábitos Perigosos um clássico dos quadrinhos.

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