Publicidade

Crítica | Constantine é um clássico que merece ser lembrado com mais carinho

Por  | 

Compartilhe:
Divulgação/Warner Bros.
Divulgação/Warner Bros.

Quem acompanha o universo Vertigo, antigo selo da DC Comics dedicado a publicações de produções adultas como V de Vingança, Watchmen, Monstro do Pântano, Sandman e Preacher, provavelmente deve saber que o filme Constantine (disponível na Netflix)mudou muita coisa em relação ao protagonista de Hellblazer, outro título famoso do selo encerrado em 2020.

Continua após a publicidade

Eu, como um grande fã de John Constantine, preciso dizer logo que nem todos os fãs do mestre das artes ocultas mais famoso dos quadrinhos torcem o nariz para o filme protagonizado por Keanu Reeves.

A obra dirigida por Francis Lawrence foi lançada em 2005 e esta história já é bastante conhecida: no gibi, John Constantine é um mestre das artes ocultas britânico nascido em Liverpool, loiro e que anda por aí trajando um capote bege, características bem diferentes do personagem de Reeves, que é estadunidense, vive em Nova York e tem cabelo e capote na cor preta.

Canaltech
O Canaltech está no WhatsApp!Entre no canal e acompanhe notícias e dicas de tecnologia
Continua após a publicidade

No filme, John auxilia a policial Angela (Rachel Weisz) na investigação do misterioso suicídio de sua irmã gêmea. Além disso, ele precisa lidar com alguns demônios (literalmente) a fim de garantir um lugar no paraíso enquanto enfrenta um câncer de pulmão, situações que, combinadas, geram muita treta.

No rebote de Matrix

A escolha pelo astro de Matrix, bastante em alta naquele período exatamente pelo sucesso da trilogia das irmãs Wachowski, se mostrou acertada no fim das contas. A atuação de Reeves é impecável porque capta a essência canastrona, porém adorável, de John, mesmo que tenha gerado algo como um exorcista porradeiro que não faz bem o tipo do anti-herói nos gibis.

Se a ideia era aproveitar o hype de Neo (inclusive na caracterização), porém, o tiro saiu pela culatra, porque o filme não foi exatamente um sucesso de crítica nem de bilheteria na época do lançamento. No longo prazo, digamos assim, a coisa foi melhor e hoje Constantine tem um ar meio cult, podendo tranquilamente figurar entre as grandes adaptações de quadrinho já realizadas por Hollywood.

Numa ponta tínhamos Reeves dando conta do recado, mas e na outra? Também! Um elenco estrelado foi capaz de ampliar ainda mais a capacidade narrativa de Constantine. Isso porque Tilda Swinton (Precisamos Falar sobre Kevin) como o anjo Gabriel, Djimon Hounsou (Amistad) como Papa Meia-Noite e Peter Stormare (Fargo) como Lúcifer complementam a ótima atuação do protagonista com adições únicas a cada um de seus personagens.

Continua após a publicidade

Swinton e Hounsou criam versões cinematográficas perfeitas de suas contrapartes nos quadrinhos, e vê-los na tela deixa a impressão de que estamos olhando para uma versão perfeitamente animada do gibi. As boas atuações deles, assim como de Stormare, dão mais substância aos conflitos vividos com Constantine.

A “mocinha” da história é Rachel Weisz (O Lagosta). Ela dá vida às gêmeas Angela e Isabel Dodson e é a responsável por trazer o bruxo à tona com uma atuação ao nível das demais e que reforça o trabalho excepcional de montagem de elenco.

A parte não tão positiva da escalação é o jovem Shia LaBeouf (Ninfomaníaca), que dá vida ao sempre presente Chas Kramer, uma espécie de faz-tudo sempre disposto a socorrer o amigo. Ele destoa um pouco dos demais não tanto pela atuação, mas pela forma como seu personagem é traduzido para o cinema.

Se no gibi Chas é um amigo presente e atuante para ajudar a livrar Constantine de algumas confusões, no filme ele tem um ar meio amador, iniciante e excessivamente juvenil. Felizmente, isso não compromete a química entre os dois.

Continua após a publicidade

Apenas um exorcista?

O recorte feito para Constantine no cinema é bem claro: ele é mostrado na telona como um exorcista, que de fato é apenas uma das várias facetas do mago. A escolha do roteiro escrito a quatro mãos por Kevin Brodbin e Frank Cappello, porém, não erra ao deixar a história mais enxuta, mais direta ao ponto.

Se proposital ou não, isso permitiu transpor de maneira bem fiel uma das principais sagas de John nos quadrinhos — Hábitos Perigosos, escrita por Garth Ennis. Ir além disso poderia deixar a história confusa, muitas pontas soltas e também estender demais a produção. O resultado dessas escolhas garantiu que o filme ficasse mais “redondinho”.

Continua após a publicidade

E é fato que, se a composição do Constantine de Keanu Reeves não cria uma cópia fiel e completa de todas as facetas do personagem no gibi, ao menos elas resultam em uma história coerente e em um personagem que carrega traços marcantes da personalidade do bruxo criado por Alan Moore em A Saga do Monstro do Pântano.

Passando pelo crivo do tempo

Entendo que as mudanças significativas descaracterizam o Constantine do cinema, especialmente porque elas parecem ter sido utilizadas para tornar a obra mais palatável ao público dos Estados Unidos e para pegar rebote no sucesso de Matrix. Não me parece, porém, que isso diminui o peso e o valor da obra, infelizmente subvalorizada e nem sempre vista como uma bem-sucedida adaptação dos quadrinhos em uma época anterior ao sucesso do Universo Cinematográfico Marvel e da Trilogia do Batman de Christopher Nolan (Batman Begins também é de 2005).

Continua após a publicidade

Apesar do fracasso de crítica e bilheteria, as altas médias de notas do público obtidas em plataformas como Rotten Tomatoes, Metacritic e IMDb mostram como Constantine envelheceu bem e como a história foi generosa com este ótimo filme. E é legal ver que ele continua em alta em 2020 e imaginar que, de um jeito ou de outro, inspirou muita gente a ir atrás dos quadrinhos e continuar desbravando esse universo incrível de John Constantine, Monstro do Pântano, Liga da Justiça Sombria e tanto outros personagens e histórias sensacionais que a DC reuniu no selo Vertigo.

Enfim, Constantine funciona tanto como uma adaptação de quadrinhos quanto como um filme independente porque é bom de ver, reúne boas doses de humor, ação e suspense e cria uma trama intrigante; tem uma história bem contada, com reviravolta e sarcasmo na medida, e é carregada por ótimas atuações. Toda vez que revejo, termino com a sensação de que se esta não foi a melhor, foi no mínimo uma excelente forma de contar no cinema tudo aquilo que faz de Hellblazer: Hábitos Perigosos um clássico dos quadrinhos.