Crítica | Caixa preta e a originalidade de um novo legado do terror

Por Laísa Trojaike | 09 de Outubro de 2020 às 20h00
Blumhouse

Caixa Preta, como um dos oito filmes da série temática Welcome to the Blumhouse, chegou Amazon Prime Video para quem acompanha as produções Blumhouse como um presente que é incrível por fora e anuncia a expectativa de que, dentro da embalagem, o conteúdo é ainda melhor do que o esperado. Como fã de terror, conter a hype foi difícil, sobretudo porque a crítica exige toda imparcialidade que o autor conseguir alcançar.

Estamos diante de um momento histórico para o cinema, especialmente o cinema de horror. Embora alguns dos maiores diretores do gênero (Ari Aster e Robert Eggers) tenham criado uma nova corrente cinematográfica do terror através da A24, seus filmes não atingem um público muito amplo, de modo que a verdadeira revolução veio através da Blumhouse e, mais especificamente, com Jordan Peele. Não se fala muito do terror pós-Aster ou pós-Eggers, mas já se fala de um terror pós-Peele, reconhecimento que não parte apenas do público e da crítica especializada, mas que já pode ser encontrado na forma de referência pop, como em A Babá - Rainha da Morte, em que John (Andrew Bachelor) diz “Eu deveria estar animado por não morrer primeiro. É uma era de filmes de terror pós-Jordan Peele, tá?”

Não é sempre que vemos o curso da história ter uma guinada diante dos nossos olhos e é comum que, frente à repetição de padrões, a crítica se acostume também apenas a entender esses padrões como códigos e usar isso para definir algo como bom ou ruim. É responsabilidade da crítica, porém, também ser capaz de notar nuances, mudanças e servir de guia para os demais espectadores não na panfletagem de dizer se um filme vale ou não a pena, mas de compartilhar com todos essas percepções que ligam uma obra de arte à vida cotidiana.

Imagem: Reprodução/Blumhouse-Amazon Prime Video

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Legado

Não são poucas as referências de Caixa Preta. Precisamos, porém, definir tipos de referências. Existem as referências do tipo que filmes como A Babá - Rainha da Morte ou o clássico Pânico fazem, que consiste em entender esses códigos estabelecidos ao longo dos anos e prestar uma homenagem a eles. As referências de Caixa Preta são de um segundo tipo: é o reconhecimento de uma obra revolucionária que, neste caso, é o cinema de Jordan Peele, diretor de Corra! e Nós. É esse tipo de código que, reproduzido, no futuro irá gerar o primeiro tipo de referência.

Em Corra!, o tema racial é escrachado e isso acabou se tornando o foco de muitas análises, especializadas ou não. Quando Peele lança seu segundo terror de sucesso, diversas análises foram falhas ao aplicar o mesmo método de abordagem aos dois filmes, o que frustrou muitas pessoas e gerou um incômodo maior: Nós não foi compreendido pelo público que pensou que racismo era o tema central do filme. Jordan Peele envia uma mensagem com isso: a luta antirracista implica também no reconhecimento de que a comunidade negra não deve ser vista somente com vistas à cor. Jordan Peele não fez um terror negro (embora haja possibilidade de se falar sobre isso). Peele é um excelente diretor e ponto.

Imagem: Reprodução/Blumhouse-Amazon Prime Video

Caixa Preta rejeita a discussão racial no roteiro e segue o legado de Corra! pelo tema do transplante mental e o legado da representatividade de Nós: A direção de Emmanuel Osei-Kuffour, estreante em longas-metragens, não restringe, no sentido de que não apenas reproduz uma fórmula. O efeito de Caixa Preta é o oposto, é o sintoma de mudanças sociais que força Hollywood e o mundo a entenderem que cor não define qualidade e não define tema.

Parece que a Blumhouse entende muito bem isso ao abrir espaço para um especial que leva seu nome e traz oito novos diretores, nomes desconhecidos, com elencos que passam longe das grandes estrelas, porque a mudança é necessária e não acontece naturalmente: é necessário abrir espaço. Com isso, Caixa Preta não só reflete o legado da direção de Peele, mas ajuda a criar o legado da Blumhouse como um nome que mudou o terror e provou que, sim, é possível fazer uma obra politicamente correta de qualidade. É o fim de uma era em que não havia protagonismo negro, em que as assombrações eram uma metáfora da histeria feminina, em que os grupos sub-representados eram sempre isso, sub-representados. É o fim de uma era em que o crítico defensor dos padrões tem o direito de definir a qualidade de um filme a partir da reprodução ad infinitum dos seus preconceitos.

Provando que não se trata apenas de falar sobre assuntos polêmicos, Caixa Preta coloca no centro da sua trama, incorporado no seu protagonista, o legado da ficção-científica que não se dissocia a ciência da emoção humana, o cinema de Christopher Nolan. Ao contrário do diretor de A Origem, Osei-Kuffour é muito mais habilidoso ao lidar com a parte psicológica e emocional dos personagens. O que Osei-Kuffour faz é pegar o que há de melhor no cinema contemporâneo de terror e ficção científica e reunir isso em uma obra absolutamente autoral. E excelente.

Imagem: Reprodução/Blumhouse-Amazon Prime Video

Pertinência

Os melhores filmes de terror não nos fazem apenas sentir medo ou ter sustos. Isso quem faz é o cinema comercial de terror, que entende o público apenas como números de bilheteria. Bons filmes vão além e nos fazem refletir sobre a nossa realidade através de histórias fictícias. Caixa Preta leva ao extremo as discussões contemporâneas sobre imortalidade e o protagonista Nolan se torna o Frankenstein dos nossos tempos.

A ciência de hoje não está interessada em ressuscitar os corpos mortos, mas em trazer de volta a consciência, esse algo que temos em nós que sequer conseguimos definir (vide as discussões contemporâneas de filosofia da mente), mas que muitos cientistas tratam como se fosse apenas mais uma peça da engrenagem corpo humano. Aqui, o legado negativo da filosofia: a ideia cartesiana de que o corpo é uma máquina e de que a mente, seja o que for, é algo completamente dissociado desse corpo.

Caixa Preta atenta para a não simplicidade do assunto. A mente humana e todos esses elementos não-físicos, metafísicos, ligados a ela não são apenas dados computáveis, que podem ser transformados em zeros e uns dentro de um software. Há de se pensar na complexidade humana e, mais do que isso, a ética científica precisa estar em alta estima. Quais as consequências de pesquisas como as dos pesquisadores da Universidade Yale, que reativaram partes dos cérebros de porcos mortos há quatro horas? Embora o objetivo seja um bem, no caso a cura do Alzheimer, as consequências podem ser outras, como nos mostra Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw (sim, Velozes e Furiosos também tem filosofia) e como prova o recente documentário O Dilema das Redes.

Reconhecimento

Falamos muito de drama, pertinência social e ficção científica, mas onde está o terror de Caixa Preta? Além do terror real das consequências inesperadas da evolução tecnológica e científica (que parece ainda não nos atingir com a seriedade devida, porque insistimos em ver os avanços como algo necessariamente benéfico), o terror raiz de Caixa Preta está nessa entidade que aparece quando o protagonista entra em estado de hipnose e que ele alega ter visto em sonho.

Imagem: Reprodução/Blumhouse-Amazon Prime Video

Mamoudou Athie, que interpreta Nolan, é um ator excepcional ao transitar por todas as nuances do seu personagem, adquirindo, inclusive, personalidades diferentes ao longo da trama. Ao final, descobrimos que a criatura, a tal entidade que assombra as memórias, é o próprio Nolan tentando recobrar o controle da sua mente hackeada, mas esse horror especificamente não é fruto do trabalho deste ator (o que não diminui de forma alguma a qualidade incrível do seu trabalho). A questão, aqui, é o reconhecimento daqueles que ficam anônimos para o público. Assim como é comum o trabalho de toda uma equipe ser creditado como genialidade de uma única pessoa, o diretor ou o produtor, também acontece de os atores levarem todos os louros pelo desempenho dos seus personagens quando, na verdade, muitas vezes eles também não trabalham sozinhos.

Ao terminar de ver Caixa Preta, uma pesquisa pelo intérprete da criatura na ficha técnica do IMDb me surpreendeu por eu não conseguir encontrar o nome do profissional na lista de dublês, as pessoas que atuam no lugar dos atores quando as habilidades dos personagens estão além das habilidades deles. Se a entidade é Nolan, em uma produção sem dublês, essa performance precisaria ser feita pelo próprio Athie. O que acontece, no entanto, é que todos aqueles momentos aterrorizantes (e que flertam muito com o body horror) foram interpretados por Troy James, que mais do que justamente foi creditado pela produção não como dublê, mas como ator. A representatividade pela qual se luta no cinema contemporâneo atinge também essa esfera que não é visível na tela: se todo o horror do filme nos é dada pela performance de James (que também faz o Jangly Man de Histórias Assustadoras para Contar no Escuro), onde está o reconhecimento desses profissionais diante do grande público?

Welcome to the Blumhouse

Assim, Caixa Preta torna-se muito mais que um presente para os fãs de terror, mas ajuda a criar toda uma fase histórica. Falaremos da importância dos seus filmes e de como eles retratam as mudanças e aflições de nossa época, da mesma forma como falamos hoje, repletos de saudosismo, do terror dos anos 1980, dos monstros da Universal e dos filmes da Hammer. Ao final do lançamento dos oito filmes, é provável que isso fique ainda mais claro, mas já podemos notar que, com os primeiros quatro filmes, a Blumhouse deixou claro que quer marcar seu nome na história do cinema e no imaginário do público.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Agradeço a Jeff Augusto pela atenção especial ao trabalho de Troy James e pelo diálogo que viabilizou a reflexão apresentada aqui.

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