Crítica | Corra! para ver ou ver de novo

Por Laísa Trojaike | 07 de Agosto de 2019 às 21h50
Universal Pictures

Lançado em 2017, Corra!, de Jordan Peele, chegou com um orçamento modesto (quase 5 milhões de dólares) e viralizou a tal ponto que existem teorias da conspiração que o colocam no mesmo universo de Quero ser John Malkovich (de Spike Jonze, 1999), o que pode até não ter sido a ideia inicial do filme, mas caiu no gosto de ambos os realizadores. Na edição de 2018 do Oscar, Jordan Peele levou a estatueta na categoria de Melhor Roteiro Original, além de ter o filme indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Diretor. Oscar é atestado de obra-prima? Não. No entanto, ter um filme que é essencial e assumidamente terror em tantas categorias importantes de uma premiação popular como o Oscar é um sintoma significativo desse filme.

A grande repercussão da obra se deve também à bandeira política levantada por Jordan Peele a cada entrevista e a cada discurso quando ganhava um prêmio. O problema é real e o filme segue fresco para quem ainda não viu. Para quem já viu, vale a pena rever e tentar encontrar todas as camadas possíveis. Para quem já viu muitas vezes, ainda há muito sobre o que refletir. Para os assinantes do Telecine Playo título está disponível no catálogo.

A partir daqui, o texto pode conter spoilers.

Mentira

Acredito que, como espectadores, devemos sempre tentar ver um filme com nossos próprios olhos e não com o olhar de outra pessoa, mesmo que esse olhar seja de um crítico, do próprio diretor ou a interpretação de alguém que admiramos. Nossa experiência é tão valiosa quanto a de qualquer outra pessoa e é importante que ela seja realmente nossa para que possamos colocá-la frente a outras experiências. Assisti Corra! tão logo foi lançado nos cinemas e revi algumas outras vezes em casa, geralmente recomendando o filme para familiares e amigos. Se Corra! voltasse hoje mesmo aos cinemas, ele continuaria tão fresco quanto era há dois anos e o motivo disso é simples: as coisas não mudaram muito nesses dois anos.

Mesmo que um dia sua temática se torne datada, o filme é executado de tal forma que muito provavelmente permanecerá como um lembrete, uma experiência necessariamente desagradável. Jordan Peele, estreante como diretor após mais de uma década atuando como ator e comediante, faz o que milhões de dólares investidos em tecnologia de imersão não conseguem fazer: colocar o espectador (ainda que minimamente) na pele do personagem. O sentimento de estranheza é praticamente imperativo e é constante a sensação de que algo está errado. Ao contrário da maioria dos filmes de terror, não temos um personagem que simplesmente permanece no ambiente que lhe é hostil contrariando todas as possibilidades lógicas e não é difícil entender que Chris Washington (Daniel Kaluuya) está aturando aquele final de semana como um esforço pelo seu relacionamento.

A sensação de estranheza é real e constante (Imagem: Universal Pictures)

A questão racial é óbvia e inúmeras vezes Jordan Peele levou às entrevistas a ideia de que o filme trata diretamente da mentira que é a noção de que, após a eleição de Obama, os americanos estariam vivendo uma época “pós-racial”, discussão que não foi muito notada para os espectadores brasileiros, mas que muito provavelmente foi sentida: embora os diálogos insinuem o tempo todo que está tudo bem Chris ser negro, a atmosfera criada pela direção grita o contrário. É justamente por sabermos que as questões raciais (e de preconceitos de modo geral) não foram superadas que o terror de Corra! é ainda mais aterrorizante: até onde sabemos, toda a parte da intervenção cirúrgica é completa ficção, mas a sensação de estar constantemente isolado, em posição defensiva ou até mesmo ameaçado é uma realidade ainda comum.

Escolhas

Fazer funcionar a empatia é uma das maiores habilidades de Jordan Peele. Há, no entanto, uma tremenda responsabilidade envolvida na provocação que convida o espectador a ser parte da trama. Corra! possui dois finais bastante distintos: o pessimista, que foi o primeiro pensado por Peele, e o otimista, utilizado na versão final exibida nos cinemas.

Ao comentar o final alternativo (o pessimista) no canal Fear: The Home Of Horror, Peele descreve esse primeiro Chris como um mártir, enquanto o do final otimista seria um herói. Voltando à responsabilidade que tem uma produção sobre a experiência que proporciona, é interessante perceber como o final otimista, apesar de soar improvável mesmo dentro do próprio universo do filme, é muito mais capaz de mobilizar pessoas do que a outra opção: é preferível lutar pela causa do que morrer por ela.

Resignado na prisão, Chris ainda representa as pessoas que são injustamente presas (Imagem: Universal Pictures)

Camadas

Da mesma forma que Heráclito disse não ser possível mergulhar duas vezes no mesmo rio, nunca vemos um mesmo filme duas vezes: ainda que, ao contrário do rio, o filme possa ser o mesmo (e não será caso as condições de exibição sejam distintas), nós jamais somos os mesmos. Um espectador é feito de suas próprias experiências e rever um filme nunca é de fato apenas rever, mas sim ver o que não havia visto antes. Alguns filmes nos oferecem um espectro mais limitado de informações, mas, de modo geral, um bom filme é praticamente inesgotável.

Jordan Peele constrói um roteiro que engana o espectador de uma forma positiva: a primeira vez que assistimos, somos tão alheios às intenções dos personagens quanto o próprio Chris. Assistir novamente nos fornece a experiência de ressignificar todos os primeiros momentos do filme, sobretudo no que diz respeito a Rose Armitage (Allison Williams). Quase todas as atitudes dela têm um duplo sentido: se em um momento ela parecia estar defendendo o namorado do racismo do policial, em um segundo momento podemos notar que talvez o policial realmente estivesse apenas fazendo o trabalho de registrar todos os envolvidos no incidente, enquanto Rose estava evitando qualquer espécie de registro que a colocasse ao lado de uma pessoa que em breve seria considerada desaparecida.

Ver para se surpreender. Rever para resignificar. (Imagem: Universal Pictures)

Essa e outras tantas interpretações revelam o quanto o filme é rico em detalhes, o que significa que não somente o roteiro foi muito bem pensado, mas também a sua decoupagem. Jordan Peele é um diretor extremamente consciente em cada escolha, mesmo nos mínimos detalhes. Em diversas entrevistas ele confirma que o material encontrado por Chris no interior da poltrona é algodão, material emblemático da história negra nos EUA, e chega a comentar que poderia ser outro material, mas, se ele tem em mãos o poder de escolha, por que não fazer uma escolha significativa? E é justamente esse tipo de pensamento que separa os grandes realizadores daqueles que não são memoráveis.

Corra! pode ser assistido pelos assinantes do Telecine Play.

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