Crítica | Cabras da Peste é o filme que o brasileiro precisa neste momento

Por Beatriz Vaccari | 24 de Março de 2021 às 10h20
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Popularmente chamado de buddy cop, o gênero cinematográfico e televisivo consiste em uma fórmula básica que, se bem utilizada, pode render um sucesso garantido pelo mais simples. A trama geralmente envolve duas pessoas de personalidades muito diferentes e conflitantes, que são forçadas a trabalhar juntas para solucionar um crime ou derrotar criminosos, o que, é claro, leva a diversos aprendizados durante o processo.

Séries policiais costumam dar certo pela dinâmica da dupla protagonista nas telas, e mesmo já existindo uma grande quantidade delas que flutuam entre o drama e o suspense (Castle, The X-Files e até a comédia Brooklyn Nine-Nine, por exemplo), o gênero ainda é promissor. No cinema, já rendeu muito sucesso seguindo uma fórmula simples, bem "sessão da tarde", como Anjos da Lei, Bad Boys e até Zootopia. Em Cabras da Peste, a mais nova produção brasileira da Netflix que segue firme e forte no topo do ranking de títulos mais assistidos da plataforma no Brasil, Matheus Nachtergaele e Edmilson Filho dão um novo tom ao gênero e trazem algo que, embora pareça simples, ainda não havia de fato sido arriscado pelo cinema nacional: a brasilidade na trama.

Atenção! A partir daqui o texto pode conter spoilers do filme. Leia por sua conta e risco.

Matheus Nachtergaele e Edmilson Filho entregam talento e carisma no novo longa nacional do streaming (Imagem: Divulgação / Netflix)

Em entrevistas para divulgar o filme, os atores chegaram a destacar que o principal fator que diferencia Cabras da Peste de outros filmes de comédia policial no restante do mundo é justamente a "fuleragem". O humor nacional, principalmente o nordestino, é o elemento-chave de todo o filme que faz a trama funcionar de forma leve, divertida e próxima da realidade de quem assiste no sofá — do mesmo jeito que Leandro Hassum conseguiu chegar na familiaridade brasileira em Tudo Bem no Natal que Vem.

Cabras da Peste, diferente de outros filmes do cinema nacional, não é pensado no global e isso é nítido desde sua primeira cena. O filme se importa muito pouco em trazer elementos de sucessos hollywoodianos focando o público estrangeiro, tanto no enredo quanto na própria fala dos personagens. Na realidade, o longa de Vitor Brandt bebe tanto da água local que essa redatora paulistana arrisca admitir que pode não ter pego todas as piadas, já que claramente possuem um sentimento regional envolvido. No entanto, isso não é necessariamente ruim: de forma acessível e divertida, é inevitável resistir ao sotaque e gírias das tiradas de comédia acessíveis, mas longe de serem chulas.

Em Cabras da Peste, o cinema nacional mostra que não é só Hollywood que sabe fazer filmes de comédia policial (Imagem: Divulgação / Netflix)

O grande destaque de todo o longa é o personagem de Edmilson Filho, Bruceuílis, que traz sátiras para as comédias norte-americanas do gênero em seu nome, origem e personalidade. O policial, apesar de ter crescido no Ceará assistindo sucessos do cinema de Hollywood como Duro de Matar (no qual seu pai lhe tirou seu nome), traz a ação de dentro dos filmes para sua realidade local, protagonizando grandes cenas de combate corpo a corpo de forma humorista e quase caricata às de alto orçamento estrangeiro.

Além disso, Filho ainda entrega em seu personagem um lado carinhoso e dedicado aos amigos e familiares, sobretudo com Celestina (e mais tarde com Trindade, seu parceiro na missão), uma cabra considerada um patrimônio de uma cidadezinha do Ceará que dá início aos acontecimentos da história e traz em suas ações ainda mais absurdos que prometem arrancar gargalhadas dos espectadores: desde alimentar-se de rapadura a comunicar-se por telepatia com Bruceuílis.

O humor nacional dá um novo tom ao gênero em novo longa da Netflix  (Imagem: Divulgação / Netflix)

O policial Trindade, de Matheus Nachtergaele, a outra metade da dupla, pode não brilhar tanto em Cabras da Peste como o Grilo em O Auto da Compadecida, mas traz tantas cenas cômicas quanto. Um zero à esquerda no trabalho por conta do seu medo e insegurança diante da realidade violenta de São Paulo, o personagem é determinado a impressionar sua rigorosa chefe (Letícia Lima) e mostrar-se um bom profissional, mesmo que as coisas não saiam como ele planeja.

Apesar de beirar o absurdo com situações cômicas surreais, Cabra da Peste é exatamente o escapismo que todo brasileiro precisa (e merece) nesse momento incerto, caminhando para um segundo ano inteiro de isolamento social em casa. O longa cumpre bem seu papel de divertir numa duração que tem a medida certa, fazendo piadas que fogem do humor intelectualizado, mas são capazes de divertir tanto quanto, ou até mais: variando da motorista do Uber batendo papo sobre Shrek 2 a cena da batalha final, que pode se assemelhar (e satirizar) qualquer uma das brigas de garagem em Velozes e Furiosos.

Piadas, perseguições e flagrantes feitos em território nacional (Imagem: Divulgação / Netflix)

O trabalho funciona principalmente pela entrega de Edmilson Filho e Matheus Nachtergaele aos seus papéis. A dupla, que já havia trabalhado junta na minissérie Cine Holliúdy, de Halder Gomes, rouba a cena pelo talento, carisma e química certa de ambos personagens, por mais que sejam tão diferentes um do outro, provando que buddy cop está longe de ser um gênero exclusivo dos estúdios de Hollywood — e mostrando o quão merecido é estar no topo dos conteúdos mais assistidos de um streaming brasileiro.

Cabras da Peste está disponível na Netflix.

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