Crítica | Tudo Bem No Natal Que Vem é o retrato do fim de ano brasileiro

Crítica | Tudo Bem No Natal Que Vem é o retrato do fim de ano brasileiro

Por Beatriz Vaccari | 08 de Dezembro de 2020 às 10h11
Divulgação / Netflix

Filmes de Natal costumam ser um sucesso certo para o público brasileiro por diversos motivos. Seja com uma trama infantil, cuja moral da história gira em torno da gratidão e da magia do feriado; ou de uma comédia romântica, que, embora recheada de clichês, carrega uma legião fiel de fãs pelos suspiros que serão arrancados deles em aproximadamente 95 minutos.

O que atrai o fã brasileiro para essas produções sazonais são justamente todos os elementos fora da realidade do país, que, para alguns, dão um certo glamour para o Natal: o cenário coberto de neve acompanhado do rigoroso frio e elegantes roupas de inverno, a exagerada decoração temática, os corais que cantam de porta em porta ou as sobremesas típicas da data. Nenhuma trama chega perto do que de fato é celebrar o Natal no Brasil, e embora em Missão Presente de Natal a Netflix tenha apresentado uma história sem um floco de neve sequer, o filme ainda estava longe da familiaridade.

2020 foi um ano de sucesso para as produções brasileiras originais da Netflix. Em março, foi divulgado que Modo Avião, comédia romântica protagonizada por Larissa Manoela, foi reproduzido por 28 milhões de assinantes pagos ao redor do mundo, tornando-se o filme em língua não-inglesa mais visto da plataforma de streaming. Agora, Tudo Bem No Natal Que Vem chega para dar o pontapé inicial nas produções de Natal brasileiras do catálogo, sendo um forte candidato para bater outro recorde global da empresa.

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Conheça Jorge, o brasileiro que teve a sorte (ou o azar) de nascer no mesmo dia que Jesus Cristo (Imagem: Divulgação / Netflix)

O filme une novamente Leandro Hassum e o diretor Roberto Santucci, cuja parceria já resultou a franquia Até Que a Sorte Nos Separe e O Candidato Honesto, e embora isso possa deixar a impressão de que a comédia natalina será um enorme déjà vu, Tudo Bem No Natal Que Vem surpreende e cativa pelo mais simples: a leveza do roteiro, o humor fácil e, acima de tudo, a identificação por parte do público.

Atenção! A partir daqui esta crítica contém spoilers do filme. Leia por sua conta e risco.

Verão escaldante, filas quilométricas e as tradicionais caixinhas de fim de ano: a lista de clichês natalinos brasileiros é infinita (Imagem: Divulgação / Netflix)

O filme começa com uma historinha acompanhada de fotografias apresentando Jorge, o personagem de Hassum. Nascido no dia 25 de dezembro, o protagonista é uma espécie de Grinch, que ao longo dos anos desistiu de celebrar o aniversário na data mais popular do ano, o que o fez naturalmente odiar o Natal. Mas o jogo muda quando ele se casa com Laura (Elisa Pinheiro), entusiasta do feriado que arrasta o restante da família para a tradicional ceia de fim de ano.

Com a trama iniciando na véspera de Natal de 2010, o roteiro de Paulo Cursino acaba trazendo para a tela uma série de eventos que quem não mora no Brasil pode achar exagerado, mas que são facilmente identificáveis: o trânsito da época, as enormes filas no supermercado, o calor infernal, a uva-passa no arroz e, é claro, os familiares que se reúnem anualmente para celebrar a data. Construídos de uma forma tão verdadeira que se torna quase caricata, o filme não hesita em mostrar as mais marcantes figuras da ceia de Natal, como o tiozão do pavê, os familiares com as mesmas promessas de ano novo, as crianças ansiosas para abrirem os presentes e o cunhado inconveniente sempre pedindo por dinheiro.

Acompanhados de inevitáveis expressões e reações de Jorge, torna-se quase impossível não se enxergar no filme em qualquer uma dessas situações. O humor acaba sendo espontâneo e leve, fácil de acompanhar e destinado para qualquer idade — mas essa noite é apenas o começo para a aventura que Jorge está prestes a viver.

Desde o tiozão do pavê à avó que não vai cumprir as promessas de ano novo, o filme é um fiel retrato da família brasileira (Imagem: Divulgação / Netflix)

Logo Jorge, que odeia a data comemorativa, passa a viver uma espécie de Dia da Marmota, só que no Natal. Após sofrer um acidente no dia 24 de dezembro de 2010, o protagonista acaba acordando exatamente um ano depois, prestes a comemorar mais uma véspera do nascimento de Jesus. O enredo consiste no mistério que ele não lembra absolutamente nada do que viveu nos últimos 365 dias, com a memória limitando-se a apenas o Natal passado.

Por conta dessa viagem no tempo, Jorge deve lidar com as consequências de todas as suas ações do ano, trama que pode acabar soando familiar para quem já assistiu Click, de Adam Sandler, ou a clássica comédia romântica De Repente 30. Com apenas sua esposa sabendo de sua nova condição mental, Jorge acaba dependendo das revelações de Laura para saber como está a sua situação financeira, profissional, familiar e até afetiva, tendo apenas 24 horas para consertá-las.

A dinâmica funciona bem e boa parte do sucesso é responsabilidade de Hassum, cuja entrega pelo personagem é nítida na tela. O ator vive Jorge à flor da pele, e em algumas cenas é difícil de dizer se a emoção vem da boa atuação e do humor afiado ou do coração do comediante se abrindo ali mesmo. Criando "dois Jorges" totalmente distintos (um que inclusive é infiel à esposa e aos filhos), Hassum brilha na frente das câmeras e ganha facilmente o carisma e a torcida do público.

Um Natal atrás do outro: Jorge vive seu feriado "favorito" como dias subsequentes (Imagem: Divulgação / Netflix)

Seguindo o conceito de narratologia da Jornada do Herói, como estudado pelo antropólogo Joseph Campbell, Jorge se vê totalmente perdido após acordar em uma das vésperas de Natal e notar que seu caso extraconjugal com Marcia (Danielle Winits, que sofre um typecasting vivendo mais uma vez uma espalhafatosa antagonista) tornou-se seu atual relacionamento, afastando seus filhos e principalmente sua esposa. O feito, mesmo que infeliz, dá margem para o filme entregar momentos de romance para os fãs do gênero, sem se distrair da premissa.

Além do tradicional humor de Hassum e dos filmes de Santucci, Tudo Bem no Natal Que Vem dispõe-se a arrancar lágrimas dos desavisados, entregando uma mensagem que, embora pareça clichê, se encaixe totalmente no espírito natalino brasileiro, com gostinho de final feliz. Com duração na medida certa, o bom, velho e genuíno deboche, o filme não só merece como deve ser incluído nas maratonas pelos fãs de produções de Natal — e que não surpreenderá se quebrar outro recorde para o Brasil na Netflix.

Tudo Bem no Natal Que Vem é uma produção de Camisa Listrada e conta com a direção de Roberto Santucci e roteiro de Paulo Cursino. No elenco, estão Leandro Hassum, Elisa Pinheiro, Miguel Rômulo, Arianne Botelho, Louise Cardoso e Danielle Winits. O longa já está disponível na Netflix.

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