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Crítica Bob Marley - One Love | Apesar de emocionante, biografia é superficial

Por| Editado por Durval Ramos | 09 de Fevereiro de 2024 às 19h00

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Paramount Pictures
Paramount Pictures

Depois de entregar ao público a bela biografia de Richard Williams — pai das tenistas Serena e Venus —, o diretor Reinaldo Marcus Green resolveu apostar em outra figura de sucesso e levou aos cinemas a história de Bob Marley, o cantor de reggae mais famoso da atualidade. O problema é que Bob Marley: One Love apesar de ser emocionante e bonito, pecou na montagem, o que culminou em uma biografia morna que não se aprofunda em questões relevantes da vida do cantor.

Para começar, o longa já arranca deixando para trás a infância de Nesta (nome de batismo de Bob) e mostrando o cantor consagrado se dividindo entre o peso do sucesso e a dor de ver a sua Jamaica dividida e retalhada por uma guerra civil que faz vítimas todos os dias. Casado com Rita, ele tem uma prole extensa, embora não seja possível identificar quantos são seus filhos e nem se todos são frutos do relacionamento com a cantora. Essa é apenas uma das histórias que ficam pelo caminho.

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Outros problemas surgem quando a biografia passeia brevemente pela infância do astro e não esmiúça a relação com sua mãe. Seu pai a abandonou, mas onde está a mulher que o colocou no mundo? Qual a importância dela na sua vida? Indo além, como Bob conseguiu conviver com o câncer que lhe tirou do mundo? Essas questões são tão fundamentais quanto rasas, e por isso fazem a biografia deixar no público aquela sensação de estar nadando na borda enquanto um oceano de possibilidades o espera.

Já a relação do cantor com a maconha é bem representada. Sem precisar de um discurso em prol da erva, Bob aparece fumando em quase todas as cenas e está sempre sob efeito dela. Aqui vale destacar o trabalho primoroso de Kingsley Ben-Adir, que vive o protagonista. Sem exagerar ou entregar uma atuação caricata, o ator conseguiu incorporar os trejeitos de Bob sem dificuldades, e isso fica ainda mais nítido quando ele está em cima de um palco.

Seja no sorriso de canto de boca, no olhar arrastado ou na fala carregada de sotaque — alguns estadunidenses chegaram a pedir que o filme tivesse legenda — Kingsley mostrou que fez o dever de casa e estudou bem o jeito do cantor. 

O pano de fundo da guerra também foi bem construído e serviu para mostrar aos espectadores como foi para o homem que só pregou a paz e a união dos povos ver o seu país ser devastado por tiros e mortes. A escolha do show na Jamaica foi mais um acerto, já que no concerto simbólico ele conseguiu reunir os dois rivais políticos mais importantes do país. Apesar disso, os momentos no palco são poucos e deixam um gosto de quero mais.

A criação de Exodus e a relação frágil com Rita

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Ainda falando em acertos, porque eles realmente não são poucos, One Love gasta tempo para mostrar o processo criativo de Bob e como ele transformava suas angústias em canções. É a partir daí, que vê-se o surgimento de Exodus, a obra prima da sua carreira e que mais tarde, em 1999, viria a ser eleito o álbum do século pela revista Time.

Toda essa narrativa é, além de interessante, prazerosa de ver e faz o público se aproximar do artista, mas não demora muito para que o filme volte a pecar no mesmo ponto: a superficialidade. Se de um lado Bob está escrevendo suas canções, de outro tem mais coisas acontecendo em sua vida, mas elas ficam sempre encobertas sem motivo aparente.

A relação com Rita é algo que incomoda. Embora ela seja descrita como sua esposa, o que se vê em cena não é nada mais do que carinho de irmãos de fé. Além disso, a talentosa Lashana Lynch até se dedica, mas ganha um enredo unidimensional que não permite que ela derrame todo o seu talento em cena.

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Isso fortalece a ideia de que o filme tem um texto mal trabalhado, no qual os coadjuvantes ficam sempre orbitando ao redor de um protagonista de uma história só.

Por fim, One Love é uma carta de amor aos fãs, a Bob, ao reggae e à filosofia rastafari. Uma carta bonita, mas curta, com uma mensagem mal trabalhada.