Crítica | Arkansas tem temperatura morna que pode nos fazer dormir em paz

Por Sihan Felix | 18 de Maio de 2020 às 09h38
Lionsgate

Talvez seja complicado perceber quando um filme pode estar sendo autoindulgente, construindo um excesso de tolerância consigo mesmo. Alguns diretores podem até iniciar pelo caminho da complacência e, aos poucos, conquistarem a confiança e respeito. O recente Magnatas do Crime (de Guy Ritchie, 2019), por exemplo, começa se amarrando todo e, aos poucos, vai soltando as cordas, revelando as marcas deixadas por estas.

Arkansas, por outro lado, não tem um diretor já na fase de se revisitar. Se Ritchie tem competência e, principalmente, experiência para desamarrar todos os nós que ele mesmo planejou, Clark Duke é debutante em longas-metragens. Não que isso o exima de culpa, mas pelo menos lhe dá cobertura para alguns exageros que, infelizmente, fazem o filme não passar de uma temperatura morna.

Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

Pulverizando

Duke, que também é um dos protagonistas e corroteirizou o filme (junto ao igualmente estreante Andrew Boonkrong), além de ter dirigido, constantemente dá a impressão de estar apaixonado pelo tema. Se por um lado isso é bom e rende filmes cheios de energia, por outro pode acabar por ceder a uma espécie de devaneio narcisista. Assim, cada situação exposta é impulsionada por uma mesma escolha estética, igualando pequenos acontecimentos a tudo que poderia ter a força de um bom plot twist.

Utilizando o zoom in de maneira constante – e quase sempre com a intenção de ressaltar algum embate dentro da cabeça dos personagens –, Duke pulveriza a dramaticidade de Arkansas. Por mais que seja algo aparentemente inocente e objetivamente pouco perceptível, essa repetição pode tornar o filme cansativo mesmo que não se saiba de onde vem o cansaço. É como a repetição constante de jump scares em um filme de terror ou, de repente, como se M. Night Shyamalan inserisse de 10 em 10 minutos revelações tão fortes quanto aquelas que caracterizam os finais dos seus filmes.

Ainda, há o possível fator da identificação quase nula com os protagonistas (Kyle e Swin – interpretados por Liam Hemsworth e Duke): homens relativamente jovens, traficantes assumidos – com pouco ou nenhum espaço para o que os levou para essa vida – que sentem pena de si mesmos e são construídos como se fossem mais inteligentes e mais nobres do que todo um mundo mitologizado do interior – um universo, ofensivo aliás, de caipiras. É verdade que o roteiro é adaptado de um romance homônimo escrito por John Brandon, mas podem ser difíceis de digerir, na linguagem do cinema pelo menos, os porquês de tudo ser caprichosamente pintado como mais complicado do que se imagina.

Liam Hemsworth e Clark Duke em cena do filme. (Imagem: Lions Gate Entertainment)

Tolerância

Arkansas de vez em quando tem chance de parecer mais um spin-off da série Breaking Bad (depois de Better Caul Saul), mas sem a mesma força – longe disso. Aqui, o maior problema é, na prática, a edificação da tristeza de ser um homem branco no mundo das drogas, a manutenção da claustrofobia de estar no meio de seres supostamente inferiores. Nesse sentido, as escolhas medíocres de Duke só não transparecem mais porque existe alguma agilidade na ideia de dividir os casos em capítulos e quebrar, assim, o básico de três atos. Por essa perspectiva, a montagem de Patrick J. Don Vito (de Green Book: O Guia) é boa o suficiente para maquiar um bom pedaço da inexperiência do diretor, passeando entre os anos de uma forma fácil de entender e que consegue impulsionar a experiência de assistir ao filme.

As atuações, no entanto, tendem a engessar a tensão. Isso porque não há qualquer linha crescente. Todos são praticamente os mesmos do início ao fim, sobrando para o coadjuvante Vince Vaughn (que interpreta o misterioso Frog) a personalidade mais cheia de dimensões – e, no caso, tão multidimensional quanto um par de dedos de Walter White ou de Saul Goodman.

Vince Vaughn, o misterioso Frog. (Imagem: Lions Gate Entertainment)

Nessa mesma linha, a trilha sonora de Devendra Banhart (de Stretch) pouco consegue dar liga ao conjunto da obra, parecendo mais uma jukebox que toca músicas aleatórias em sua inserção de canções e, quando parte para a música original, fica longe de parecer orgânica. Essa falta de organicidade da composição de Banhart, na verdade, tem duas esferas em Arkansas: A primeira diz respeito ao todo do filme e à competência inexistente de sugerir qualquer unidade – tudo soa genérico, como se fosse possível pegar qualquer música de elevador que tenha um banjo e inserir junto às imagens. A segunda diz respeito à vida orgânica mesmo, porque os trechos orquestrais são, de longe, os mais amadores de um filme que pude assistir nos últimos anos, dando a impressão de que tudo aquilo que se escuta não são instrumentos de orquestra, mas um teclado simulando-os. Por mais que existam trilhas musicais dessa forma, gravadas por controladores e instrumentos virtuais, aqui a experiência é, em comparação a essas, sofrível. E se foi proposital, o caso pode ser mais grave.

No final das contas, não acho que o filme é bom ou ruim, nem se vai ser bom ou ruim. Pode ser todo ruim. Mas, mesmo assim, a questão é a tolerância: o quanto podemos aguentar uma direção que sabe das suas fraquezas e se dá por vencida – partindo para melhorar em um próximo trabalho – ou que se acha inteligente demais a ponto de sermos os tais caipiras vislumbrando tanta inteligência na contação de uma história. Se for a primeira opção, pelo menos podemos entender os excessos e aproveitar a temperatura morna para, no mínimo, pegar no sono em paz.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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