Adaptar – a tarefa ingrata (ou não) de agradar

Por Sihan Felix | 26 de Fevereiro de 2018 às 18h00
photo_camera Reprodução/Sabotage Times

Adaptações sempre geram polêmicas e embates intermináveis sobre a obra original e sua transposição para a tela do cinema. Não é fácil, claro, agradar a incontáveis fãs, uma vez que cada um de nós tem uma história de vida diferente e, portanto, construímos memórias e mundos próprios ao primeiro contato com uma obra de gênese. Seja livro, quadrinho, videogame, desenho animado ou até linha de brinquedos, a mente de um fã é quase sempre levada a acreditar que a narrativa e o visual que ele construiu em seu mundo particular seria o melhor resultado possível para a construção audiovisual. É verdade que muito do que é produzido por fãs alcança níveis que vão além do que é feito pelas grandes produtoras. Por outro lado, não é isso que chega às salas de cinema ou aos streamings oficiais... e são esses a matéria-prima deste artigo despretensioso.

Junção de cartazes oficias
Junção de cartazes oficias (Imagem: The Odyssey Online)

Fazer uma boa adaptação ou um bom filme?

Para ser transposta em um bom filme, uma obra inicial precisa ter algo para contar. Esse é o ponto fundamental. Se há um mínimo de possibilidade de extrair algo válido da linguagem que será adaptada, há também chances de se construir um filme que valha a pena. Se você tem, por exemplo, uma boa história adaptável na linguagem literária, transformá-la em um roteiro passa a ser difícil por questões pessoais e morais que transcendem as linguagens e entram no âmbito das comparações. Pode não ser justo, especialmente para o cinema, escolher um fã de determinado livro para comentar a adaptação cinematográfica desse. Quem lê, constrói cada detalhe mentalmente, enquanto o filme será construído com a visão de outras pessoas. Nesse caso, nós, quase sempre, somos possessivos. Se já lemos o livro, gostaríamos de ver o que imaginamos concretizado pela criatividade de outra pessoa, às vezes de outra cultura, de outro meio social e com pensamentos amadurecidos por outro caminho.

É aí que entram as questões pessoais e morais dos criadores de um filme: como é impossível satisfazer plenamente a todos os leitores de uma obra literária com a adaptação, é necessário que o filme funcione por si, que chame a atenção do público por suas qualidades enquanto cinema. A pergunta que todo(a) cineasta prestes a trabalhar em uma obra desse porte precisa fazer é: “Será que vou conseguir fazer um bom filme?”. Porque se ele(a) cair na armadilha de se perguntar se conseguirá fazer uma boa adaptação, além de falhar por não saber olhar para si, falhará moralmente por esperar que atingir um resultado que satisfaça um público sem unidade é um caminho possível.

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A essência psicológica, moral e ética – e o pacote de macarrão instantâneo

Ainda, há de se reconhecer que se o filme for realmente bom através de critérios da própria linguagem do cinema – todos que podem ser utilizados para assistir a um filme e escrever uma crítica com argumentos válidos –, não irá importar exatamente se é uma boa adaptação ou se nem é fiel. O que tenho percebido (e fico feliz com isso!) é que, quando o filme é realmente bom, a maior parte do público é inteligente e consegue separar o que leu do que assistiu, sendo ambas as formas satisfatórias, cada uma ao seu modo. Para isso, precisa-se construir um filme captando a essência psicológica, moral (novamente) e ética de cada personagem, trabalhando isso com o elenco, fazendo com que a história seja contada muito mais visualmente do que com palavras – algumas narrações são completamente descartáveis em um bom filme – e deixando o diretor guiar o roteiro por um caminho que seja seguro para ele e não para o lucro bilheteiro. É necessário se sentir confortável.

Dito isso, não há uma fórmula. Há quem consegue fazer uma macarronada fantástica com um pacote de macarrão instantâneo e há quem não consegue entender como isso é possível (eu). Transformar uma obra existente em outro formato em um filme é, muitas vezes, mais complicado do que partir do zero, justamente porque, partindo do nada, é você quem manda. Já escolher o que é interessante ou não em algo existente para expor em um filme custa muitas e muitas horas de estudo de personagens, imaginar como o que se leu ficará na tela grande... é como o macarrão instantâneo mesmo: está escrito “3 minutos” na embalagem, mas isso é um tempo aproximado, porque meu fogão é diferente do seu, a pressão do meu gás também, minha panela é velha e a sua é nova. Acertar qualquer ponto predeterminado por preconcepções suas ou de terceiros (o que é ainda mais difícil) é bem complicado (mesmo que não pareça – aí voltamos para o nosso macarrão instantâneo e suas instruções de preparo).

O processo e a recepção de adaptações de livros para filmes
O processo e a recepção de adaptações de livros para filmes (Animação: Delicious Reads)

Boas adaptações

Assim sendo, existem adaptações para o cinema que são incríveis e que, de alguma forma, superam a sua origem. O Poderoso Chefão (1972) é, por exemplo, um dos filmes que permanecem entre os melhores da história e, apesar de abrir mão de bons trechos do livro de Mario Puzo, não demonstra que mais nada possa ser acrescentado ali, sendo fechado por si, como filme. Cada personagem é tratado de forma complexa por toda a equipe. O próprio figurino conta uma história, a trilha sonora é eficiente ao ponto de se reinventar em diversos ritmos e jamais soar repetitiva. Há imagens que não constam no livro que são fantásticas, como o peixe que aparece desenhado em um vitral antes da morte de um personagem (remetendo à expressão “dormindo com os peixes”)... São obras (livro e filme) que se completam e que, ao mesmo tempo, funcionam sozinhas lindamente, o que é excepcional.

E são tantas outras! Clube da Luta (1999), a trilogia O Senhor dos Anéis (2001, 2002, 2003), O Iluminado (1980), O Auto da Compadecida (2000 – que, na verdade, foi criado como minissérie para TV e acabou sendo lapidado para o cinema, ou seja, é uma adaptação de uma adaptação), O Silêncio dos Inocentes (1991), Os Bons Companheiros (1990), Entrevista com o Vampiro (1994), Psicose (1960), O Falcão Maltês (1941), Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 (2010)...

Péssimas adaptações e a fobia de broca

Do outro lado, as péssimas adaptações não são nada raras. Mas não acredito que exista uma adaptação pior do que A Reconquista (2000). Bizarro do início ao fim, desde a maquilagem que afoga o John Travolta ao roteiro incompreensível, tudo nesse filme é uma vergonha. Não funciona como filme e assusta quem gostaria de comprar o bom livro escrito por L. Ron Hubbard. É aquele filme que todo dentista poderia exibir para seus pacientes com fobia de broca. A resposta seria imediata: “Eu prefiro a broca, doutor! Eu prefiro a broca!”. E acho que sei o quanto essa piada foi ruim. Mas não pior do que esse filme!

Outros não ficam muito atrás: Atlas Shrugged é um desses. Lançaram a Parte I e Parte II em 2011 e 2012 e mesmo com o fracasso total ainda tiveram a coragem de lançar a Parte III em 2014. Em livro, trata-se de um romance monumental com mais de mil páginas escrito pela judaica-russa Ayn Rand. Como filmes, são obras produzidas às pressas, com um elenco que parece não ter recebido qualquer noção de quem são suas personagens e com diretores que ou não têm tato e personalidade ou são apenas nomes que assinam a pedido da produção de péssimo gosto.

E para você? São muitos e muitos que podem aumentar a lista das melhores e das piores adaptações. Entre todos os que você puder lembrar, qual é a melhor adaptação já produzida? E a pior? Por quê?

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