Crítica | Magnatas do Crime reúne o que há de melhor no cinema de Guy Ritchie

Por Sihan Felix | 12 de Maio de 2020 às 18h00
Paris Filmes

Dificilmente há reclamações sobre o quanto um diretor repete sua própria fórmula. Se, por exemplo, Lars von Trier é autocêntrico o bastante para exaltar e não só construir referências sobre a própria obra – o que é muito claro em A Casa que Jack Construiu –, quando essa relação com si mesmo passa para o roteiro, a percepção muda. Isso porque, quando assistimos a um filme, estamos muito mais ligados à história do que se vê do que como ela é contada. Guy Ritchie é, nesse sentido, um combo: sua assinatura autoral envolve tanto o roteiro quanto a forma. E Magnatas do Crime deixa isso muito claro.

Por outro lado, existe uma intimidade com a própria assinatura que, de tempos em tempos, pode gerar uma reciclagem ou uma espécie de evolução. Neste caso, não se trata do texto e nem exatamente da forma, mas como se lida com essa forma. Então, ao mesmo tempo em que mantém todos os seus elementos no filme em questão, Ritchie parece dosar uma quantidade menor ou menos deslumbrada de si.

Assim, se o diretor já contava uma história até certo ponto parecida em acontecimentos e forma em Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (de 1998) e quando chegou a O Agente da U.N.C.L.E. (de 2015) já trabalhava com tudo o que é a sua assinatura estilística, aqui ele parece respirar: os slow motion tornaram-se pontuais, os rápidos planos-detalhes passaram a ser muito mais específicos, a agilidade do texto é só uma cortina de fumaça para o que é visto e, não menos importante, os personagens estilosos ganham espaço até mesmo no título original: The Gentlemen (Os Cavalheiros em tradução livre).

Fletcher (Hugh Grant) dando agilidade ao texto. (Imagem: Paris Filmes)

Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

Um farsa bem orquestrada

O ritmo que Ritchie geralmente dá aos seus filmes – especialmente aos que ele teve participação como roteirista (como Magnatas do Crime) – é, simultaneamente, dependente e independente do roteiro. The Gentlemen é tal qual Snatch: Porcos e Diamantes (de 2000) por essa perspectiva. Por mais que seja incluída uma situação metalinguística, com Fletcher (Hugh Grant) contando um roteiro seu para Ray (Charlie Hunnam) – e isso tenha ares, inclusive, didáticos para o espectador –, o grau de confusão do primeiro ato é tanto que pode não ser muito fácil manter a concentração.

Mas é uma confusão organizada, orquestrada passo a passo pela consciência de um diretor que tem tudo planejado. Tanto que a metalinguagem do roteiro de Fletcher vai, aos poucos, misturando-se com a realidade, até o ponto em que são indissociáveis – o que acontece no segundo ato, quando o próprio Ray passa a ser um personagem.

Ray (à direita) como personagem central. (Imagem: Paris Filmes)

Essa estrutura, que devido à quantidade de falas e de acontecimentos, pode acabar por deixar a própria direção em segundo plano e esconder outra realidade: a de que Magnatas do Crime (assim como os demais filme de Ritchie) é quase uma farsa teatral (o gênero cômico por meio do qual o figurino, os cenários, o gestual e as atitudes físicas prevalecem sobre os diálogos).

Esse ponto de vista sobre Magnatas do Crime pode ficar claro exatamente em como cada personagem é trabalhado pelo figurino: dos acessórios estilosos (como os óculos de Fletcher e Ray) ao conjunto que dá vida ao Treinador (Colin Farrell), a aparência constrói aqueles personagens muito mais do que suas palavras. As ações conduzem muito mais a história do que toda a falação de Fletcher. Assim, a complexidade de Michael Pearson (Matthew McConaughey) está quase que inteiramente na calmaria interna que precede suas explosões – sempre expostas pelo olhar. E até mesmo Rosalind Pearson (Michelle Dockery) é apresentada a partir dos seus sofisticados saltos stiletto e da ação postural do seu domínio sobre uma oficina para, aparentemente, carros de luxo e esportivos.

Estilo da cabeça aos pés. (Imagem: Paris Filmes)
A calmaria de Michael interna contrastando com a explosão do olhar. (Imagem: Paris Filmes)
Rosalind: quem manda na casa Pearson. (Imagem: Paris Filmes)

Um passo à frente

Se a agilidade do texto é uma cortina de fumaça é porque as imagens têm muito mais força do que poderiam ter caso fossem reféns do roteiro. Ritchie inverte a lógica e faz com que sua direção, seu ritmo e seu estilo prevaleçam. Enquanto isso, o diretor permite que um personagem (Fletcher), que pressupõe estar no domínio da situação, verborragicamente infle a história – talvez até em um bom excesso –, o que só enriquece o resultado da metalinguagem.

No final das contas – e com plot twists típicos de uma farsa –, Fletcher é quase apenas um falador e a relação dele com uma churrasqueira estilosa diz muito mais do que a soma de todas as suas palavras. E é justamente a relação de Ritchie com o roteiro que faz dele um diretor único. E, aqui, ele não somente se recicla: a impressão pode ser a de que existiu uma evolução, um passo à frente.

Michael antes de demonstrar para Dry Eye que as ações valem mais. (Imagem: Paris Filmes)

Mais comedido e driblando suas próprias armadilhas – como os excessos de slow motion de outros filmes e o exagero na utilização de planos detalhes hitchcockianos –, Ritchie deu vida a uma comédia inglesa cheia de vida e acidez. Seu olhar consciente para tudo o que já dirigiu – com direito a cartaz do citado O Agente da U.N.C.L.E. em uma cena que, de fato, condiz com essa exposição – é o que faz de Magnatas do Crime um dos melhores filmes lançados no Brasil (ou planejados para isso) em 2020. E deve acabar o ano assim.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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