Crítica | Animatrix é o melhor complemento possível ao universo de Matrix

Por Douglas Ciriaco | 27 de Setembro de 2020 às 18h30

Matrix é um filme único não apenas pela história sensacional que apresentou ao mundo em 1999, mas também por ter ampliado seu universo para além das telonas. Além de jogos canônicos que contam fatos não exibidos na tela, como Enter the Matrix e Matrix Online, a franquia estrelada por Keanu Reeves deu mais elementos para os seus fãs também com um belíssimo conjunto de curtas animados.

Animatrix chegou direto em versão de vídeo doméstico em 2003 e é uma antologia de nove episódios que ampliam de forma sensacional muitos eventos dos filmes. Misturando episódios genéricos, que apenas ambientam histórias dentro do universo de Matrix, com capítulos que explicam temas abordados na telona e são tão importantes para franquia quanto os filmes em si, Animatrix é uma obra essencial para quem é fã da saga do Escolhido.

Expansão e qualidade

Assistir aos capítulos de Animatrix deixa uma sensação muito boa porque é um mergulho ainda mais profundo no cenário apresentado pelos filmes. Os episódios reúnem informações distintas, com abordagens únicas, e entregam um produto final diferente dos filmes, mas que o tempo todo se relaciona de alguma forma com as tramas cinematográficas.

Dois episódios têm um valor especial nesse sentido porque são os melhores prólogos que o filme de 99 poderia ter. As partes 1 e 2 de Segundo Renascer contam em detalhes a história pincelada por Morpheus em sua primeira conversa com Neo após a sua libertação. É ali que entendemos as minúcias da evolução das máquinas, seu embate com os seres humanos e a insistência dos robôs em tentar selar a paz. No fim das contas, é descobrimos quem esteve por trás da derrocada da humanidade (spoiler: nós mesmos).

Em O Voo Final de Osíris, episódio que abre a antologia, descobrimos como foi que Zion foi alertada sobre o avanço das máquinas. O sacrifício de toda uma tripulação para salvar o que restava da humanidade é contado em um episódio de computação gráfica que por vezes até lembra cenas de Matrix Reloaded e Matrix Revolutions. Ele começa de um jeito bem despretensioso, mas tem um final trágico.

Segundo Renascer é o melhor prólogo que Matrix poderia ter (Imagem: Reprodução/Warner Bros.)

Outro destaque nesse sentido é o episódio Era Uma Vez um Garoto, que conta a história do garoto que "persegue" Neo toda vez o Escolhido retorna à Zion. Na trama, vemos um pouco da vida do jovem antes de sua libertação e entendemos qual o papel do personagem de Keanu Reeves ao mostrá-lo que, sim, ele não estava sozinho e havia muitos problemas naquilo que ele entendia como realidade.

Dos capítulos sem ligação direta com eventos da trama, dá para destacar especialmente o Recorde Mundial, no qual conhecemos a história de um velocista que rompe a barreira da realidade graças às suas capacidades físicas. Basicamente, uma “anomalia” entre os humanos normais que é capaz de desplugar a si mesmo da Matrix.

A ideia de que “abrir os olhos” pode ocorrer quase que de forma espontânea em algumas mentes pode até servir de ensinamento positivo: muitas vezes, a força que precisamos está dentro de nós mesmos — perdão pelo momento coach.

Era Uma Vez um Garoto explica fatos que não ficam claros em Reloaded e Revolutions (Imagem: Reprodução/Warner Bros.)

Diversidade até no traço

Matrix é uma obra conhecida por um roteiro sensacional que mistura filosofia, computadores e artes marciais, mas não apenas por isso. A trilogia é composta por diversidade de elenco e de abordagens, com diferentes etnias e sexualidades ali representadas (esta última mesmo que de maneira sutil).

Animatrix segue uma linha semelhante ao oferecer diferentes traços em suas animações. As escolhas das irmãs Wachowski sobre quem daria vida a algumas de suas ideias (nem todos os roteiros foram escritos por elas) deixam isso bem claro. Animadores e roteiristas japoneses comandam quase todas as animações e assinam alguns roteiros, reforçando mais uma vez a clara influência de obras audiovisuais japonesas na criação.

Na tela, vemos traços mais ou menos definidos, mais ou menos realistas. A antologia, portanto, se mostra um deleite também para quem aprecia animações de qualidade do ponto de vista técnico, de desenho e de animação. O trabalho realizado pela produção de cada capítulo é impecável e tudo parece combinar perfeitamente bem com o tema abordado no episódio. O deleite aqui é também visual e estético.

Animatrix é incrível em cada detalhe (Imagem: Reprodução/Warner Bros.)

Mergulho necessário

Assim como o jovem de Era Uma Vez um Garoto mergulha do alto de um prédio porque acredita que Neo irá salvá-lo da falsa realidade da Matrix, o mergulho em Animatrix é altamente necessário para quem se encantou com a trilogia (ou ao menos com o primeiro filme) e deseja se aprofundar mais nos temas correlacionados à trama.

Todos os nove episódios são de altíssimo nível em termos técnicos e de narrativa, servindo como pequenas peças de um imenso quebra-cabeças maravilhosos que faz sucesso há mais de 20 anos e está prestes a ganhar uma continuação.

A abordagem filosófica está ali em diversos episódios, há também cenas de lutas incríveis e também estão presentes abordagens mais existenciais do universo da Matrix. A trilha sonora é, mais uma vez, um elemento marcante da imersão no que se vê diante dos olhos, deixando tudo um primor. Para mim, Animatrix é melhor que as duas sequências de Matrix e eu acredito que poderíamos discutir, inclusive, se ela não se equivale ao primeiro capítulo da trilogia.

Cada detalhe da antologia parecer ter sido minuciosamente pensado para intrigar e até mesmo incomodar o espectador. Por trás de lutas e efeitos especiais, a coleção de curtas animados nos lembra que Matrix é uma história triste, de como a humanidade é ao mesmo tempo capaz de destruir e de salvar a si mesma — e aí cabe a nós tomarmos algumas posições nessa reflexão.

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