Entregas por drones da Amazon podem estar mais distantes do que pensávamos

Entregas por drones da Amazon podem estar mais distantes do que pensávamos

Por Felipe Gugelmin | Editado por Claudio Yuge | 03 de Agosto de 2021 às 21h30
Divulgação/Amazon

Posicionada como um dos pilares da Amazon para o futuro próximo, o serviço de entrega por drones da companhia pode estar em risco — ao menos em suas operações no Reino Unido. Uma reportagem publicada pela Wired mostra que a divisão britânica da empresa está marcada pela desordem e pela má gestão, que aos poucos estão destruindo os planos que envolvem os dispositivos voadores.

Segundo a reportagem, ao menos 100 funcionários da Amazon Prime Air perderam seus trabalhos e dezenas estão sendo realocados em outros projetos dentro da companhia. Lançada em 2016 como iniciativa pioneira na entrega por drones, a operação estabelecida no país tem seu futuro incerto, afirmam fontes ouvidas pelo site.

Ouvidos pela Wired sob anonimato, funcionários envolvidos com o projeto afirmam que ele estava sendo “destruído por dentro” e era gerenciado por administradores “desconectados da realidade”. Entre os problemas apontados estavam gerentes que mal sabiam responder questões básicas sobre a iniciativa, funcionários que bebiam cerveja em suas mesas durante a manhã e o fato de que parte da equipe teve que viajar à Costa Rica para treinar seus substitutos.

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Um porta-voz da companhia afirmou que o Prime Air continuará presente no Reino Unido após as demissões, mas não detalhou como isso vai acontecer. A empresa também não confirmou se vai realizar novos voos de teste, tampouco como vai competir com nomes como a Wing e a UPS, que ganharam espaço na corrida por entregas, especialmente no que diz respeito a receber aprovações regulatórias para voar nos Estados Unidos.

Problemas datam de 2019

Segundo a reportagem, as primeiras rachaduras nas operações do Prime Air começaram a aparecer no fim de 2019. A época foi marcada pela realocação de equipes e gerentes, que afetaram o funcionamento e a moral das equipes dedicadas principalmente à análise de possíveis obstáculos que poderiam influenciar no voo dos drones: pessoas, animais, objetos e animais.

Imagem: Divulgação/Amazon

A equipe local também trabalhava em sistemas de mapeamento 3D que ajudam os dispositivos a navegar pelo ambiente e distinguir entre gramados, piscinas e outros objetos e superfícies. “Houve um ponto em que eles trouxeram quatro ou cinco gerentes novos todos de uma vez”, afirmou um ex-funcionário. “E muitos dos gerentes estavam saindo rapidamente, muitas vezes somente um ano após se juntar ao Prime Air”.

As mudanças na equipe eram acompanhadas por alterações constantes nas diretrizes. Em um dos casos exemplificados, a equipe de engenheiros foi instruída a não identificar objetos que ficavam atrás de janelas — pouco depois, eles foram instruídos a fazer justamente o contrário. Também dificultava o trabalho da equipe o fato de o único contato dos funcionários com a central nos Estados Unidos era um executivo que só estava presente no local uma ou duas vezes por ano.

Confusão reinante

Em 2020, toda a divisão de análise de dados de animais e humanos foi fechada no Reino Unido, resultando na demissão e realocação de dezenas de funcionários. Três meses depois, ela foi reaberta e se passaram três meses adicionais antes que ela fosse totalmente restaurada, em um movimento considerado por muitos como confuso.

“Havia muitas decisões tomadas no momento sem muito pensamento a longo prazo por trás. Era como atirar merda na parede e esperar que algo colasse”, afirmou um ex-funcionário. Para muitos da equipe, a sensação era a de que a Prime Air operava em um ambiente constante de “caos organizado”.

Imagem: Divulgação/Amazon

A moral da equipe sofreu outro golpe quando a gerência admitiu que não poderia cumprir as promessas de empregos fixos aos analistas de dados contratados de forma temporária. Isso fez com que alguns funcionários passassem a beber em horário de trabalho, enquanto outros passaram a aprovar automaticamente todas as imagens analisadas, fossem elas de objetos perigosos ou não.

“Tudo começou a colapsar por dentro porque eles empilharam coisas demais, colocaram no comando pessoas que não sabiam nada sobre o projeto e venderam promessas demais. Era tudo uma promessa exagerada gigantesca — promessas demais que não podem ser cumpridas”, afirmou outro entrevistado.

Promessas exageradas

Segundo Andreas Raptopoulos, CEO da companhia de drones Matternet, as promessas da Amazon de que a entrega por dispositivos voadores é questão de meses são falsas. “Podemos cruzar a próxima ponte para a entrega massiva do e-commerce? Eu vejo isso acontecendo na segunda metade da década — 2027 ou 2028”, afirmou à Wired. “Quando as pessoas falam cinco anos ou algo assim, isso tende a significar ‘não tenho certeza, mas não agora’”.

A reportagem afirma que durante 2020 e 2021, muitos dos funcionários da Amazon Prime Air no Reino Unido tiveram seus contratos temporários encerrados ou foram tornados redundantes pela companhia. Embora a organização ainda afirme estar dedicada a tornar a entrega por drones realidade — o que envolve a obtenção recente de uma licença para testes nos Estados Unidos —, muitos começam a duvidar que ela conseguirá fazer isso.

A opinião é compartilhada por muitos dos ex-funcionários consultados pela reportagem, que afirmam que o serviço ainda estava anos longe de se tornar algo quando foram demitidos. Com as demissões recentes e a reestruturação anunciada pela empresa, a sensação que fica é a de que a iniciativa pode acabar nunca saindo do chão, por maior que tenha sido o entusiasmo inicial em relação a ela.

Fonte: Wired

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