A tecnologia ajuda a preservar a saúde mental dos idosos no isolamento social?

Por Nathan Vieira | 29 de Junho de 2020 às 23h00

De acordo com o IBGE, mais de 4 milhões de idosos vivem sozinhos no Brasil. E, com o atual cenário de isolamento social em função da pandemia do coronavírus, a solidão é um aspecto que passa a fazer parte das principais discussões sobre saúde mental durante a quarentena, tanto em relação a este público quanto às pessoas que mudaram completamente suas rotinas para estar em casa.

Por sua vez, segundo dados levantados pelo Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE), a cidade de São Paulo tem mais de 1,8 milhão de moradores idosos, e dentre eles, 290.771 (cerca de 16%) moram sozinhos. 22.680 deles possuem 90 anos ou mais e 8 mil dessas pessoas não tem a quem pedir ajuda caso seja necessário.

Se o distanciamento social representa um desafio à saúde mental do ser humano, quando se é idoso e faz parte do grupo de risco, a situação é ainda mais delicada. Na internet, inúmeros vídeos de pessoas idosas tentando fugir de casa para ir às ruas chegaram a viralizar. Muitos fatores podem fazer com que o público idoso seja o mais afetado não apenas física, mas também psicologicamente durante a pandemia. Como será que a tecnologia está cumprindo o seu papel de companheira dessas indivíduos?

Visando entender o impacto do isolamento no psicológico dos idosos, o Canaltech conversou com alguns especialistas da área da saúde, como é o caso da psicóloga Bia Sant’Anna, especialista em Neuropsicologia e proficiente em Terapia Cognitivo-Comportamental. Para a profissional, o isolamento devido à pandemia do cororavirus traz preocupações enormes do ponto de vista de saúde física, mas também psicológicas — e a população idosa é a mais afetada. Primeiro porque existe um medo real de que o contágio leve ao óbito nesta faixa etária.

“A população idosa sabe que, segundo as estatísticas, é a mais vulnerável, e isso pode aumentar muito a ansiedade e o medo de que coisas ruins aconteçam. Somado a isso, os idosos provavelmente poderão sair do isolamento apenas quando houver uma vacina ou um tratamento eficaz. Portanto, para eles não é apenas uma questão de achatamento da curva de contágio ou colapso do sistema de saúde: muitos sofrem com um isolamento por tempo indeterminado expandido. E nesse momento o que mais faz falta é a troca de afeto direta (abraço, beijo, contato físico, rotina de encontros com familiares e amigos)”, apresenta a psicóloga.

Bia ainda acrescenta que muitos idosos também vivem a dor da perda da independência relacionada à rotina diária, porque agora necessitam de alguém que vá ao mercado, à farmácia, etc. Ou seja, se tornam muito dependentes de uma hora para outra. Outra questão importante diz respeito à preocupação com os demais entes da família e uma impotência em relação a elas (como com o filho que está desempregado e não tem como pagar as contas ou a continuar a ajudar em casa).

“A população idosa já trava uma guerra com os fatores normais do envelhecimento que trazem o cerceamento de várias coisas, isso faz com que a ameaça à autonomia que já é muito real para o idoso fique exacerbada nesse momento”, levanta a especialista, ressaltando ainda que saber que faz parte do grupo de risco traz sentimentos de vulnerabilidade por causa da incerteza que este vírus traz. O retorno à vida normal e a sobrevivência à pandemia são questões que estão presentes para todos, mas as pessoas do grupo de risco as vivem de forma muito mais intensa. “Existe também um inegável luto pela vida que se tinha antes e uma incerteza enorme da vida que se seguirá depois”, explica.

Isolamento social e saúde mental

O isolamento total proporcionado pelo coronavírus pode impactar negativamente o psicológico, e um profissional traz esse assunto é o psicólogo Roberto Debski. Ele aponta que o isolamento causa um impacto em todos nós, e cada um irá responder de acordo com a maneira como se sente e lida com os momentos de crise. “Alguns fazem o seu melhor e aguardam o momento da crise terminar, mas outros, principalmente quando mais frágeis emocionalmente, acabam por sofrer e desenvolver quadros de ansiedade, pânico, depressão ou outros sintomas emocionais que podem comprometer ainda mais a saúde e a qualidade de vida”, conta.

O profissional ressalta a importância de mostrar para o idoso, em um momento como esse, que ele não está sozinho. “Quando percebemos que nossos idosos estão frágeis, devemos nos manter ‘próximos’ mesmo à distância, através do uso da tecnologia, como ligações por vídeo, ensinando-os a utilizar aplicativos para aproveitar melhor o tempo, se distrair, aprender e se conectar aos amigos”, expõe Roberto.

Elainne Ourives, pesquisadora no campo da Física Quântica, tem focado ultimamente nos efeitos negativos dessa pandemia. A profissional conta que diante do isolamento, a pessoa pode manter um estado de tristeza ou melancolia e deixa de produzir, essencialmente, endorfina, melatonina e ocitocina. “Estes hormônios são conhecidos como hormônios da alegria e da felicidade. Sem eles, até mesmo o sistema imunológico baixa, a frequência da pessoa diminui e ela fica mais propensa e suscetível a contrair doenças, vírus, bactérias, gripes e todo o tipo de enfermidades, sem falar em problemas de outra natureza”.

Bia Sant’Anna torna a afirmar que quando se trata da população idosa nesta pandemia, estamos falando de idosos a partir dos 60 anos, mas uma pessoa de 60 anos é muito diferente de uma de 90 anos. São perfis e dores muito diferentes, mas há algo em comum que deve ser feito: se blindar do volume intenso de péssimas notícias. “Sim, temos toneladas delas, mas também muitas coisas boas estão acontecendo e ter contato com boas notícias eleva o estado de ânimo geral e atenua a dor do isolamento. Além disso, os idosos tendem a ter o chamado 'viés confirmatório' muito intenso, que é a tendência a selecionar apenas informações que confirmem as hipóteses pré-existentes, e uma enxurrada de informações muitas vezes de fontes não confiáveis pode abatê-los ainda mais”.

A psicóloga enfatiza que este isolamento é físico e não emocional. Pode-se estar próximo de quem se ama de outras formas que não as tradicionais. “É uma adaptação que todos teremos que fazer. Claro que a população idosa está mais vulnerável a tudo isso, por esta razão precisa de atenção redobrada, sobretudo na forma de receber afeto. O afeto pode ser manifestado de diversas formas. Um canal real de comunicação amorosa pode ser estabelecido ou intensificado neste momento”, reflete. É aí que entra uma possível aliada muito importante nessa quarentena: a tecnologia.

A tecnologia ajuda mesmo?

Bia indica que a tecnologia tem servido especialmente para as pessoas idosas que muitas vezes se sentem mais sozinhas e inseguras. Mesmo que de uma forma muito diferente do que a habitual, a tecnologia tem possibilitado este contato humano tão necessário. “A tecnologia tem não apenas mitigado a solidão, mantendo o idoso conectado a quem se ama, como também tem sido um canal de comunicação para se falar das aflições e perspectivas que atemorizam”.

A TeleHelp, um serviço de teleassistência com foco no público idoso, fez um levantamento recentemente sobre os aplicativos que estão sendo mais utilizados por essas pessoas. A pesquisa foi feita com a base de clientes entre 50 e 90 anos de idade da TeleHelp, e dentre os 6.419 clientes que participaram, 2.930 disseram usar o WhatsApp, 1.113 pessoas usam o Facebook e outras 631 pessoas revelaram usar o Instagram. Para completar o top 5 de apps mais usados, o YouTube foi apontado por 431 dos entrevistados e o quinto lugar foi para a Netflix, com 257 usuários. Aplicativos de delivery e locomoção como iFood, UberEats, Rappi, Uber e 99 também integram os mais utilizados.

Bruno Mouco, CEO da TeleHelp, conta que tem observado que a solidão costuma ser um dos sentimentos mais presentes no emocional dessas pessoas e, sabendo que elas fazem parte do grupo de risco, elas se sentem ainda mais excluídas porque isso tem refletido diretamente nos atendimentos da central da TeleHelp ou durante as ligações semanais de bem-estar que fazem para acompanhar os nossos clientes. Acontece que o número de acionamentos da TeleHelp aumentou em 30% nesse período. O momento também reforça alguns outros medos e aflições que já estão presentes na vida das pessoas com mais de 60 anos, como o medo de cair e se machucar estando sozinhos em casa, de não ser capaz de realizar as tarefas do dia a dia como ir ao supermercado, ir até a farmácia comprar seus remédios ou de se ver obrigado a sair de casa para morar com os filhos, por exemplo.

“A tecnologia permite ajuda imediata e orientação médica 24 horas para tirar dúvidas sobre medicamentos, mal-estar, sintomas, entre outros questionamentos mais simples sem sair de casa e sem exposição dos hospitais quando não há necessidade”, afirma Bruno.

O CEO aproveita para sugerir: “Se você conhece algum idoso que esteja sozinho neste momento, ainda que não faça parte do seu círculo familiar, por que não entrar em contato com ele, por telefone ou via tantos canais de conexão que temos, para prestar apoio? Essa pessoa pode estar se sentindo aflita, desamparada ou até desinformada, e você poderia estar ajudando. Quem estiver fora do grupo de risco também pode ajudá-los em outras necessidades do dia a dia para evitar ao máximo de que eles saiam de casa, como fazer compras, ir até a farmácia, entre outros deslocamentos que amigos e familiares possam fazer por eles”.

Quanto à população idosa que reside sozinha [em São Paulo], mais de 80 mil (28,1%) não tem celular ou habilidade para manusear o aparelho, por exemplo. "Isso os obriga a sair à rua e descumprir a quarentena, não por teimosia, mas por necessidade. Esses idosos sempre existiram, porém as políticas públicas não deram conta de olhar para eles. Neste momento, a própria pandemia os coloca em evidência”, afirma a pesquisadora Yeda Duarte, ao Governo de São Paulo.

Fonte: Com informações do Governo de São Paulo

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