O que é parsec e por que Han Solo estava errado no primeiro Star Wars?

Por Rafael Rodrigues da Silva | 19 de Novembro de 2019 às 22h30
Divulgação

Em 1977, o filme Star Wars: Uma Nova Esperança mudou a trajetória do cinema e sacramentou o início da “era dos blockbusters”, que já havia sido inaugurada em 1975 com o Tubarão de Steven Spielberg. O filme nos leva a uma galáxia muito distante, onde somos apresentados a diversos personagens que marcaram para sempre a cultura pop, como Luke Skywalker, Leia Organa e Darth Vader. Mas certamente quem primeiro caiu nas graças dos fãs foi Han Solo.

Interpretado por um jovem Harrison Ford, Han é o típico “bad boy” dos cinemas: bonitão, jeito de malandro, criminoso, mas com um coração de ouro. E, logo em uma das primeiras cenas dele, o personagem se gaba da sua nave, a icônica Millenium Falcon, falando que, apesar de ela parecer uma nave ultrapassada, possui o recorde histórico do Percurso de Kessel, que atravessou em apenas 12 parsecs.

Na cena, Han fala isso como um colegial se gabando de seu Camaro caindo aos pedaços, mas que vai de 0 a 100 km/h em cerca de 4 segundos, na tentativa de conquistar a atenção das garotas. Mas há um enorme erro nessa fala, que mostra que o roteirista do filme (olá George Lucas!) não fazia a menor ideia do que realmente é um parsec.

Longe, não rápido

Para entender o que exatamente é um parsec, é preciso primeiro saber como astrônomos fazem para calcular distância entre um ponto e outro do universo. Como não existe régua, fita métrica ou trena com tamanho suficiente para se medir a distância entre um planeta e uma estrela, por exemplo, os cientistas utilizam um fenômeno conhecido como paralaxe e as regras da trigonometria para conseguir calcular essa distância.

A paralaxe é um fenômeno físico de ilusão de ótica, no qual um objeto parece se mover quando se muda o ponto de observação, mesmo que, na verdade, ele continue no mesmo local. Você pode testar esse fenômeno rapidinho na sua própria casa: tudo o que você precisa é esticar um de seus braços pra frente e colocar um dedo em riste de forma a deixá-lo bem na frente do seu rosto. Agora, com a mão que está livre, você cobre um de seus olhos (enxergando com apenas um olho) e foca sua visão em qualquer objeto que não seja o dedo parado bem à sua frente. Sem mudar o foco da visão ou mexer o dedo, você então tira a mão do olho coberto e faz o mesmo com o outro olho, fazendo com que você passe a enxergar o objeto apenas com o olho que até então estava tampado. Você vai perceber que, mesmo que não tenha mexido o seu dedo, ele parece que “dançar” na sua frente, ficando mais longe ou mais perto do objeto para onde você estava olhando. É esse movimento que recebe o nome de paralaxe.

Agora, se você imaginar um triângulo no qual seus três vértices são a ponta do seu nariz e as duas posições que o seu dedo ocupou durante o fenômeno de paralaxe, e medir o ângulo formado pelas arestas que saem desses dois pontos ao encontro do vértice de seu nariz, é possível então usar a trigonometria para calcular a distância rel entre o seu rosto e o seu dedo — e é exatamente essa técnica que os cientistas usam para se calcular a distância entre corpos celestes.

A partir de dois pontos de observação diferentes em relação a um ponto fixo, é possível calcular a distância entre dois objetos usando o fenômeno da paralaxe e as regras da trigonometria (Imagem: Wikipédia)

A diferença é que, ao invés de fechar os olhos, o que os astrônomos fazem é utilizar o movimento da Terra ao redor do Sol para criar os diferentes vértices usados para se encontrar o ângulo necessário e, então, calcular a distância. Por exemplo, ao observar uma estrela em janeiro, os pesquisadores marcam a posição dela naquele momento e, seis meses depois (quando a Terra já completou metade da sua trajetória ao redor do Sol), marcam a nova posição do mesmo astro. A partir desses dois pontos relativos ao terceiro vértice, que é a estrela observada, é possível então traçar um triângulo e, conhecendo o ângulo formado pelas duas “arestas” que saem dos dois dois vértices relativos ao posicionamento da Terra em direção à estrela. é possível então calcular a distância de nosso planeta até ela.

Mas, como estamos falando de distâncias espaciais e, no contexto geral do universo, a distância percorrida na trajetória da Terra ao redor do Sol é praticamente insignificante, o ângulo formado pelas observações deste movimento também vai ser minúsculo. Esses ângulos da paralaxe do planeta são normalmente medidos em segundos de arco. Essa medida é calculada ao dividir 1 grau em 3.600 partes iguais, e cada uma dessas partes acaba sendo o equivalente a um segundo de arco. Para efeitos de comparação, cada segundo de arco, se fôssemos tentar trazê-lo para o mundo físico humano, seria o equivalente à largura de um fio de cabelo visto a uma distância de vinte metros.

Aqui, vemos como a movimentação da Terra ao redor do Sol pode ser usada para calcular a distância de uma estrela (Imagem: Mistérios do Universo)

A partir deste tipo de medição, surgiu o termo “parsec”, abreviação de “paralaxis by arcosecond”, que é o termo em inglês para paralaxes por arco de segundo. E aí vemos qual é o erro de Han Solo em Uma Nova Esperança: o parsec é uma medida de distância, e não de velocidade. Assim, não faz sentido o personagem querer contar vantagem de como sua nave é rápida usando essa medida — seria como se gabar que você conseguiu correr uma maratona em apenas 42 km, o que não faz o menor sentido.

Revisionismo “histórico”

Felizmente, os roteiristas seguintes da franquia Star Wars perceberam o erro cometido por Lucas e trataram de corrigi-lo em Solo: Uma História Star Wars, filme sobre o personagem eternizado por Harrison Ford e que foi lançado em 2018.

No filme, Alden Ehrenreich vive um Han Solo ainda mais jovem do que o que conhecemos em Uma Nova Esperança, e conta as origens de algumas das facetas mais marcantes do personagem, como os eventos que o levaram a conhecer o wookie Chewbacca e como ele acabou se tornando o piloto da MIllenium Falcon. E, claro, o filme mostrou os eventos do famoso Percurso de Kessel.

Mas, ao invés de ignorar o erro do primeiro filme da série, o longa achou uma maneira de explicar que, na verdade, Han Solo sempre esteve correto e nós que estávamos errados em criticá-lo. Isso porque o filme nos mostra que faz sentido Han ter falado em parsecs para se gabar da Millenium Falcon, já que ele não estava exatamente falando da velocidade da nave, mas sim da capacidade de navegação dela.

Na cena sobre o Percurso de Kessel, é revelado que a Millenium Falcon possui uma inteligência artificial que permite o processamento de diferentes rotas e mapas em uma velocidade impossível para qualquer outra nave do sistema, e que, por isso, ela conseguiu encontrar um “atalho”, o que possibilitou a navegação a uma distância de apenas 12 parsecs, escapando das naves imperiais que a estavam perseguindo.

Então, Han não estaria se gabando exatamente de ter a nave mais rápida da galáxia, mas sim de ter encontrado um atalho que permitiu percorrer uma distância bem menor do que a necessária — que, para a maioria das naves, é de vinte parsecs. Sim, é uma explicação meio mal-contada e que transforma o Han Solo do primeiro filme de “bad boy” para “nerd de veículos”, pois apenas alguém muito nerd acha que falar sobre encontrar atalhos e encurtar a distância que leva para chegar entre um ponto e outro, e não a velocidade com a qual faz isso, é algo a se gabar. Mas não fale isso perto do personagem, porque corre o risco de você levar um tiro de blaster no meio da "fuça"!

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