Crítica | Terremoto é um entretenimento que beira o sadismo

Por Sihan Felix | 14 de Março de 2020 às 08h40
California Filmes

Quando A Onda foi lançado em 2015, pouco se comentava sobre o cinema norueguês no mundo mainstream. O filme de Roar Uthaug, que viria a dirigir Tomb Raider: A Origem (2018), colocou a Noruega no mapa do cinema comercial. Com orçamento de US$ 6 milhões, o tsunami no fiorde de Geiranger mais do que dobrou o seu custo, chegando perto dos US$ 13 milhões nas bilheterias. Pode ser pouco se comparado a um blockbuster de Hollywood, mas é um montante considerável em se tratando de um país escandinavo.

As cifras, por outro lado, poderiam dizer muito menos se esse filme-catástrofe seguisse as regras americanas para entretenimentos menos compromissados com a realidade, como, por exemplo, Terremoto: A Falha de San Andreas (de Brad Peyton, 2015). O que A Onda faz é humanizar a experiência, retirar o foco do desastre e do heroísmo de um Dwayne Johnson e imergir na experiência individual dos seus personagens. O desespero não é o gigantismo da catástrofe, não é o medo de ser engolido e morto pela água, é a sensação de perder um ente querido, é o sofrimento de ver alguém ter a vida suprimida.

Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

Michael Bay com Woody Allen

Terremoto, que já nos primeiros segundos se assume como uma sequência, parte de uma premissa semelhante a do seu antecessor: não ser somente uma ficção, mas impor-se como uma previsão. O sentimento premonitório do protagonista (o geólogo Kristian Eikjord – interpretado por Kristoffer Joner), dessa forma, funde-se ao imaginário como um aviso desde o princípio. Esse tom de ameaça real acaba por distanciar o filme de uma obra como O Impossível (de J.A. Bayona, 2012), que comenta algo passado, e, por si só, cede um temor real. Nesse sentido, é imaginável que os residentes da capital norueguesa Oslo assistam ao filme com uma afetação legítima de pânico.

"O sentimento premonitório do protagonista funde-se ao imaginário como um aviso desde o princípio." (Imagem: Califórnia Filmes)

Ainda assim, enquanto o temor local é potencializado pelo fator premonitório – que é reforçado cruelmente (ou com preocupação) em letreiros no início dos créditos finais –, o diretor John Andreas Andersen (substituto de Uthaug) demonstra uma entrega muito maior à comercialização. Existe uma tentativa dos roteiristas John Kåre Raake e Harald Rosenløw-Eeg (a mesma dupla que escreveu A Onda) de reavivar as emoções causadas pelo precursor, mas Andersen parece não conseguir traduzir questões mais íntimas. Em exagero, é como dar para Michael Bay (de Esquadrão 6) um roteiro de Woody Allen (de Um Dia de Chuva em Nova York). Sem qualquer julgamento qualitativo, a questão é que, a uma primeira vista, parece incompatível.

Em razão disso, a primeira metade de Terremoto é extensa a ponto de cansar. Toda a intromissão na vida do protagonista parece sem ritmo, como se a direção estivesse procurando a intimidade de Kristian e ela não existisse em ações no roteiro. Falta, por essa perspectiva, uma construção imagética mais reveladora e um desprendimento do texto; uma criatividade estética para transformar menos em mais. O que acontece é justamente o contrário: a longa apresentação até o início da catástrofe é uma busca por fazer menos com mais – algo contraditório tendo como base o universo de A Onda.

Titanic com Jurassic Park

É possível que, em meio a essa exploração equivocada de Andersen, personagens que aparecem muito menos durante a primeira hora de filme acabem por ter uma importância muito mais significativa para o público. Aqui, vale ressaltar a expressividade da pequena Edith Haagenrud-Sande (que interpreta a Julia), que transmite o que sente quase sem necessitar dos músculos do rosto. Essa força no olhar da personagem, felizmente bem explorada pelo diretor, parece não combinar com a sensação over oferecida pelas reações de Kristian e Marit (Kathrine Thorborg Johansen), mas encontra par na mãe, Idun (Ane Dahl Torp), que transforma a dor física em uma expressão carrancuda crível e condizente com a esperança de reencontrar a filha.

É verdade, também, que Terremoto garante cenas catastróficas extras com relação ao A Onda. Enquanto o tsunami vem, destrói quase tudo e o que sobra é a tentativa de sobrevivência, o terremoto abala estruturas gigantes que podem cair ou não à espera dos abalos posteriores de menor intensidade. Sobra espaço, então, para Andersen, claramente atento aos blockbusters hoolywoodianos, fazer referências pontuais (sempre espelhadas): seja a Titanic (de James Cameron, 1997) quando ao inclinar um prédio e copiar o plano exato em que uma mulher não consegue se segurar e desliza para um fim trágico, seja a O Mundo Perdido: Jurassic Park (de Steven Spielberg, também de 1997), quando Julia – ruiva como Sarah (Juliane Moore) – está prestes a cair para a morte e o que a segura inicialmente é somente um vidro que vai rachando aos poucos, tudo é realizado com conhecimento de causa.

Juliane Moore em O Mundo Perdido: Jurassic Park. (Imagem: Universal Studios) 
Edith Haagenrud-Sande em Terremoto. (Imagem: Califórnia Filmes)

Stig van Eijk com Backstreet Boys

As causas, aliás, que são mastigadas em excesso na introdução sem ritmo do filme, são o forte desses momentos de ação e tensão da segunda metade. Se o início mais parece alguém fazendo uma batida de reggae lenta e sem contratempos, os desastres dão vida ao trabalho de Andersen: todos os efeitos partem exatamente de uma causa e tudo se encaixa com fluidez. Da falta de ritmo, nasce uma composição norueguesa descolada e interessante, talvez sem uma identidade muito forte (por ser totalmente e descaradamente influenciada por Cameron, Spielberg e até Peyton). Na música, seria algo como Stig van Eijk cantando um pop tipicamente americano.

Se Terremoto é a desconstrução da humanização construída por A Onda, ele é, também, uma tentativa válida de entretenimento mais puro. Não sei se existe alguma compatibilidade com a diversão em algo que prevê uma possível destruição da capital de um país. Pode funcionar como um alerta, claro, mas fico em dúvida quanto às suas intenções. É verdade que um filme não pode ser traduzido por aquilo que tenta fazer ou ser e sim pelo que é de fato. A questão, porém, é que não existe uma unidade, uma consciência estética ou estilística que refute a impressão de que tudo não passa de uma junção de fatores conflitantes. Ou seja: pode divertir, mas não diverte; pode fazer pensar, mas não faz; pode ser tenso, mas não é. Pode tudo, mas é nada. Complicado. Ou não. Talvez.

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