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Crítica John Wick 4: Baba Yaga | Tão exagerado quanto medíocre

Por| Editado por Jones Oliveira | 22 de Março de 2023 às 20h00

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Reprodução/Lionsgate
Reprodução/Lionsgate

Fazia muito tempo que eu não passava tanta raiva no cinema como passei com John Wick 4: Baba Yaga. Raiva por perder três horas da minha vida com um filme que claramente tenta enganar o espectador com cenas de ação mirabolantes e grandiosas em um exagero interminável feito apenas para esconder o fato de ele ser vazio e sem alma da primeira à última cena.

Na verdade, não me surpreenderia em nada caso a gente descobrisse que esse roteiro foi feito por uma inteligência artificial. Aliás, é bem possível que, se eu usar o ChatGPT para reunir todos os clichês dos filmes de ação, o resultado seja bem próximo do que aquilo que Keanu Reeves levou para as telas.

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Isso porque o quarto capítulo da franquia nada mais é do uma enorme junção de cenas de tiroteio e pancadaria que, embora muito bem coreografadas, não trazem nada de novo. Pior: são tão longas que se tornam repetitivas e cansativas. É uma pirotecnia enorme feita apenas para desviar a atenção do público e fazê-lo esquecer que, por trás desse exagero todo, mal há uma história para contar.

Ação sem propósito

Uma sequência de ação funciona como um truque de mágica. É aquele momento em que o filme cria uma situação para elevar a adrenalina do público e, assim, desviar a atenção de um ou outro ponto. É por isso que a gente releva muita coisa em histórias de heróis ou compra a jornada de vingança de um homem que perdeu seu cachorro.

Só que esse ilusionismo cinematográfico tem seu limite — e John Wick 4: Baba Yaga claramente o ultrapassa. Das quase três horas de duração, metade disso é preenchido com longas cenas de tiroteio e perseguição que não levam a nada, sendo apenas uma pirotecnia vazia que mais atrapalha do que impressiona.

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Isso porque, quando se estica uma única sequência por intermináveis 26 minutos e meio — sim, eu cronometrei —, a ideia de desviar a atenção do público se perde e ele passa a prestar atenção naquilo que não deveria. É quando você repara em detalhes e percebe o quanto o longa é frágil e até mesmo sem propósito.

Os fãs de John Wick podem defender que a franquia nunca quis se levar a sério e que nem dá para esperar isso de um universo em que as pessoas usam ternos blindados. Só que, quando você se vê preso em um tiroteio longuíssimo no meio de um dos pontos turísticos mais famosos do mundo, passa a se incomodar com o fato de ninguém dar a mínima para isso ou mesmo pelo jeito burro com que todo mundo maneja uma arma.

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Essa ação exagerada faz, inclusive, com que não haja senso de perigo algum. O personagem de Reeves está sempre tão no limite que, mesmo com toda a grandiosidade que o diretor tenta construir em cada cena, nada parece ter impacto e a sensação que fica é que o filme está apenas enrolando.

A maior prova disso é que ele passa a se repetir. Há um momento muito legal em que a câmera adota uma perspectiva isométrica à la Hotline Miami que funciona muito bem, mas que é repetida duas vezes sem qualquer propósito. Também não há razão para Wick ser arremessado três vezes de uma escadaria.

Mas o maior pecado de Baba Yaga é armar todo esse circo a troco de nada. A ação não serve à narrativa, o que faz com que o longa pare por meia hora para termos o espetáculo de tiro e pirueta e, depois disso, a trama voltar a andar. Isso faz com que literalmente metade do filme não sirva para nada além de consumir tempo, queimar milhões de dólares de orçamento e fingir uma grandiosidade que não existe. No fim, está apenas fazendo o público de trouxa.

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Um fiapo de história

O problema é que, depois dessas cenas sem fim de luta e tiroteio, você não encontra muita coisa além de um fiapo de roteiro. Como dito, o texto de John Wick 4: Baba Yaga parece ter sido escrito por uma inteligência artificial que agrupou todos os clichês possíveis tanto em termos de situação como também de diálogos.

A história em si nada mais é do que uma reciclagem do que os filmes anteriores já apresentaram, com Wick sendo caçado pelo mundo enquanto tenta resgatar sua liberdade. A novidade da vez é a entrada de um novo vilão, vivido por Bill Skarsgård, que também quer a cabeça do herói.

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E é claro que ninguém vai ao cinema ver John Wick pelo seu roteiro. A série nasceu sendo esse espetáculo visual e, nesse sentido, o novo filme segue bem fiel à sua essência. O problema é que, enquanto seus antecessores ainda tinham o mínimo de história para contar, o novo capítulo nem sequer tenta disfarçar.

A começar pelos próprios personagens, que são tão caricaturais que chegam a ser repetitivos. Donnie Yen faz mais um lutador de artes marciais cego, reprisando o papel que teve em Rogue One: Uma História Star Wars, assim como Hiroyuki Sanada é o samurai moderno que discursa sobre honra e família. No meio disso tudo, todos os clichês possíveis sobre o Japão — isso só para citar um exemplo.

Além disso, Baba Yaga não se dá ao trabalho de fazer com que esses personagens tenham motivações. O mais próximo disso é o antagonista de Yen, mas o roteiro faz questão de colocar isso de forma tão solta que perde a oportunidade de amarrar isso à história do próprio John Wick.

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Havia uma oportunidade incrível de fazer um paralelo entre esses dois personagens e questionar por que o protagonista luta tanto se já não tem mais pelo que viver, mas o filme não se interessa em aprofundar nada. Assim, fica o clichê pelo clichê da forma mais pobre superficial possível.

Adicione a essa equação uma escrita terrível com atuações bastante medianas. Todas as falas são frases de efeito e não há nenhum ator que não esteja falando de um jeito empolado, tentando criar uma aura de mistério e imponência até mesmo em conversas triviais. Não só é cansativo como também é terrível.

Tiro de misericórdia

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O primeiro John Wick surgiu como um respiro em um gênero desgastado pela repetição. Com sequências muito boas aliadas a um roteiro simples, mas que funcionava muito bem, ele mostrou que o cinema de ação ainda poderia render algumas surpresas. E é muito triste ver que Baba Yaga joga tudo isso fora ao repetir os mesmos erros que condenaram esse tipo de filme ao fundo da locadora.

Há uma ânsia tão grande por criar cenas monumentais que não há cuidado ou mesmo interesse de fazer com que elas façam sentido ou sirvam à narrativa. Na verdade, fica claro que a lógica está invertida e que o fiapo de história existe apenas para amarrar esses momentos.

Isso é terrível não só por fazer de John Wick 4: Baba Yaga um filme vazio, mas por estar claramente enganado o público com uma falsa sensação de grandeza. Ele tenta criar uma imponência que não existe e que serve apenas para maquiar que não há nada para contar. Ele recicla uma trama que a própria série já contou e não acrescenta nada de novo ou interessante a essa mitologia. Com muito tiro e explosão, chama o público de trouxa — e isso é ultrajante.

John Wick 4: Baba Yaga estreia nos cinemas do Brasil no dia 23 de março; garanta seu ingresso na Ingresso.com.