Crítica | Era uma Vez um Sonho fica longe de emoções mais sinceras

Por Sihan Felix | 26 de Novembro de 2020 às 10h11
Netflix

Deixe nas mãos de Ron Howard um elenco competente e ele o guiará a um resultado muito acima da média. Ou permita que um elenco já acima da média — como o de Era uma Vez um Sonho — seja dirigido por ele para que se possa assistir a uma grandeza praticamente hipnótica das atuações.

Howard é um dos diretores que conseguem resultados mais incontestáveis quando se diz sobre essa dinâmica das atrizes e dos atores. Ele, que, entre indicações e prêmios, extraiu atuações extremamente significativas de Chris Hemsworth (em Rush: No Limite da Emoção e No Coração do Mar — de 2013 e 2015 respectivamente), talvez tivesse o caminho facilitado aqui pela presença de Glenn Close e Amy Adams.

Glenn Close e Amy Adams em cena de Era uma Vez um Sonho. (Imagem: Divulgação/Netflix)

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Emoções necessárias

Acontece que, nem sempre, o óbvio (ou quase isso) dá as caras. Era uma Vez um Sonho surge como isca de Oscar. Nesse sentido, Close e Adams despontam, sim, como candidatas na temporada de premiações, mas o filme parece perder a chance de ser algo mais, como se faltasse algum elemento mais sincero em sua forma, na condução da direção.

Howard, que faz parte da, digamos, aristocracia hollywoodiana, tem em mãos justamente um trabalho que parece dialogar e criticar negativamente favoritismos. Seu protagonista, J.D. Vance (Gabriel Basso), é alguém que está em uma espécie de mobilidade de classes. Mas J.D. não é atraído por se livrar de suas raízes; o que ele procura é seguir adiante, procurando orgulho próprio, com o caráter e a força que parece ter herdado da avó, Mamaw (Close).

A direção de Howard pode dar a impressão de não estar convencida de si mesma e, com isso, extrai qualquer autenticidade da experiência vivida pela personagem de Basso. Há, assim, um paralelo que talvez resulte em um mais do mesmo quase desconfortável: o diretor investe demais na estética, cria todo uma aparência séria e realística e, ao mesmo tempo, distancia-se das emoções mais genuínas.

Adams e Gabriel Basso distantes de emoções genuínas. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Essa falta de peso emocional, inclusive, distancia-se dos melhores filmes de Howard, fazendo com que algumas opções suas soem como pequenas experiências para, justamente, sair de sua zona de conforto. É arriscado, por exemplo, como os closes em Era uma Vez um Sonho não dizem respeito aos personagens exposto por eles (pelos closes), mas sim a quem eles observam. Retira-se a emoção do sujeito para colocá-la no observador — o que acaba por afogar, em parte, as sensações mais necessárias para que o filme consiga cativar de maneira mais eficiente.

O principal em segundo plano

Ainda, o universo das raízes de J.D. é exposto praticamente com fetiche, com as laterais das imagens emoldurando as cenas com caos e sujeira. Por essa perspectiva, a direção de arte de Shawn D. Bronson (de The Umbrella Man) não acrescenta camadas às pessoas e ao mundo dos quais o protagonista se identifica e se orgulha, mas parece julgar aquilo tudo, como se a possibilidade de viver em um ambiente desorganizado e sujo fosse a única possível para uma família pobre.

Claro que tudo isso é guiado com muita classe pela direção e, por mais que Howard se esforce para experenciar nos detalhes, ele continua dirigindo classicamente. Não é algo ruim, mas o ar de aristocrata hollywoodiano fica nas entrelinhas. Assistir a Era uma Vez um Sonho, despretensiosamente, é quase como sentar à mesa e ter que saber utilizar todos os talheres dispostos organizadamente.

Por onde começar? O que fazer? (Imagem: Reprodução/Netflix)

Não por ser um filme de difícil entendimento, mas porque nem mesmo as situações mais humanas — como quase tudo — tem uma vibração verdadeira. Felizmente, o texto, baseado na autobiografia de J.D., é da roteirista Vanessa Taylor (de A Forma da Água), que costuma tratar tudo com muita delicadeza. Dessa forma, as ações de cada personagem — especialmente suas falas — traduzem muito bem quem eles são, o que pode deixar até mesmo o trabalho do diretor em segundo plano.

Chega com facilidade, falta proximidade

Desse modo, gostar de Era uma Vez um Sonho pode ser até fácil, mesmo com seus problemas. O texto de Taylor aliado às atuações de Close e Adams dão, na prática, o corpo necessário para o filme chegar com facilidade. Os ápices da infância e da juventude de J.D. — em paralelo por meio da montagem de James Wilcox (de Behind the Smile) — também podem chegar fortes para o espectador e, no fim de tudo, as imagens reais amarram a estrutura toda com esperteza.

Os verdadeiros J.D. Vance e Mamaw. (Imagem: Reprodução/Netflix)

No final das contas, a história é interessante e o debate — pouco aprofundado por Howard — sobre as diferenças de classe e sobre a dificuldade de transição entre elas são pontos que podem aproximar a maioria de nós das quase duas horas de filme. É uma pena, portanto, que exista algum tipo de resistência, como se a forma não ajudasse o que se quer contar a ter mais proximidade com o todo.

Era uma Vez um Sonho está disponível no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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