Crítica | A Conversação é uma obra-prima em apenas três minutos

Por Sihan Felix | 20 de Janeiro de 2021 às 18h15
Paramount Pictures

Um paranoico e reservado especialista em vigilância tem uma crise de consciência quando suspeita que o casal que está espionando será assassinado. Essa é a história central de A Conversação, filme lançado por Francis Ford Coppola em 1974. Acontece que essa obra-prima, talvez um pouco eclipsada por outras realizadas pelo diretor que são da mesma década, como O Poderoso Chefão (1972), O Poderoso Chefão II (também de 1974) e Apocalypse Now (1979), é fundamentada nos primeiros três minutos a partir de um jogo de causa e efeito.

Na linguagem do cinema, há muitas técnicas a serem empregadas na construção de causa e efeito, ou seja: aquilo que é pensado pela direção para alcançar uma determinada sensação no espectador. Claro que a causa é idealizada com um intuito e o efeito pode ou não acontecer — visto que somos plurais e como lidamos com uma arte é algo subjetivo, apesar de conceituado.

A partir disso, pode ser interessante perceber o quanto, em A Conversação, a direção de Coppola busca uma ligação quase hipnótica desde o seu princípio. É justamente o início do filme, seus créditos iniciais, que demonstram a habilidade do diretor como um cartão de visita, preparando o espectador para o desenvolvimento.

Não há cortes nessa cena que dura três minutos. Tudo começa lentamente, desde o surgimento da imagem em um fade in (quando o que se vê aparece aos poucos). O plano inicial é geral e de cima, como que guiada pelos olhos de Deus (God’s Eye View). Uma praça, frequentada por muita gente é vista de maneira divisória: de um lado sombras e do outro a claridade.

De um lado sombras e do outro a claridade. (Imagem: Reprodução/Paramount Pictures)

Nesse ponto, Coppola já demonstra sua habilidade a favor do efeito pretendido: ao sombrear o lado normalmente mais forte da imagem (o direito), ele encaminha nosso olhar para o esquerdo (o mais fraco). Essa concepção, que é adotada inclusive pela publicidade, já foi objeto de estudo científico, definindo que as pessoas respondem mais favoravelmente às propagandas que refletem o modo com o qual o tempo é visualizado: da esquerda para a direita.

A esquerda, simbolizando o passado, é o que fica para trás, é o que os nossos olhos enxergam rapidamente — ou nem enxergam com precisão. A direita, simbolizando o presente e o futuro, é o agora e o amanhã, é onde nossos olhos param e observam. Tanto que a maioria dos easter eggs são posicionados ao lado esquerdo das cenas, precisamente no canto inferior, que é ainda mais fraco — isso tudo, claro, enraizado em questões culturais, de modo que culturas que escrevem da direita para a esquerda, por exemplo, têm um entendimento sensorialmente diferente.

Enquanto a câmera lentamente se aproxima, um personagem ganha destaque: um mímico. O plano vai se fechando, dando cada vez mais atenção a ele, que segue pessoas aleatórias, copiando-as, fazendo seu trabalho. Ao mesmo tempo, a música vai ganhando volume de um modo que empurra o espectador para o que se passa, transformando a passividade de quem assiste em um olhar ativo.

Um mímico ganha destaque. (Imagem: Reprodução/Paramount Pictures)

Quando já o espectador já está intimamente ligado aos movimentos do mímico, observando-o de perto (sem nunca sair do God’s Eye View), aquele homem chega próximo ao canto inferior esquerdo da ação, encontrando o personagem central do filme (Harry Caul — interpretado por Gene Hackman) e passando a copiá-lo.

Encontrando Harry. (Imagem: Reprodução/Paramount Pictures)

A personagem de Hackman inicia uma caminhada que vai do canto inferior esquerdo ao canto superior direito. O mímico o acompanha, imitando-o. Harry, incomodado com a presença do sujeito, acelera seus passos. A câmera proposta por Coppola continua seguindo o mímico até que, finalmente, o protagonista do filme toma o lado direito da imagem para si e deixa o imitador para o lado esquerdo. Perdendo seu posto de força, o mímico se despede com um salto, finalizando seu trabalho e permitindo que, finalmente, os créditos iniciais terminem com o protagonista exposto como tal.

O mímico se despede com um salto. (Imagem: Reprodução/Paramount Pictures)

A cena inteira (de apenas três minutos) pode ser vista abaixo:

Por mais que o mímico não tenha participação no restante do filme, sua presença nesses três minutos iniciais é um símbolo que só acrescenta valor à obra. O mais óbvio é temático, visto que o trabalho de vigilância de Harry exige silêncio. Mas há o sensorial: Coppola, ao fechar lentamente o plano, aproxima esteticamente o mímico de Harry. Essa aproximação faz crescer a relação de causa e efeito entre os dois, porque, quanto mais próximo dois elementos estão, maior é a percepção do espectador sobre os dois juntos.

Nesse sentido, voltando à publicidade para utilizar um exemplo claro, se uma modelo é exibida ao lado de um creme para a pele, a associação da “pele de pêssego” dela como resultado do uso do produto é instantânea em nosso cérebro — fato que não aconteceria se a mesma modelo fosse posicionada distante do produto, em lados opostos. Neste caso, cria-se uma rivalidade.

O mímico liga-se a Harry e Coppola aprisiona-os em um plano cada vez mais fechado. Ele (o mímico), então, sai de cena como se passasse o bastão de uma corrida de revezamento para o colega. Mas, claro, é um bastão metafórico, simbólico, que causa, enfim, o efeito inconsciente da apresentação do protagonista para com o público.

De repente, sabe-se, pelo menos um pouco, quem é o homem que a câmera segue sem que, para isso, ele precise ser mostrado em close. Basta que ele seja, finalmente, o centro das atenções, caminhe sozinho, na contramão do fluxo de pessoas — ilustrando seu desconforto interno. Diferente do mímico, ele não trabalha com a ausência da voz. Ele é um profissional do oposto. Se o artista de rua se despediu pelo lado esquerdo inferior, Harry segue em direção ao lado superior da imagem. Finalmente, eles se opõem: o silêncio que os ligava termina quando, enfim, passa-se a ouvir as vozes (como interferências) que fazem parte da investigação do protagonista.

Ambos estão naquela praça trabalhando, mas é o ofício do especialista em vigilância que, enfim, importa para A Conversação. E isso é exposto em uma abertura que é das mais geniais da história do cinema. Um começo que, em outra interpretação (ou adicionando a tudo), ainda faz uma ligação histórica entre o cinema mudo (o mímico, de preto e branco) e o cinema falado (Harry e o foco do seu trabalho).

A Conversação é uma obra-prima já em seus três primeiros minutos. E Coppola não deixa essa impressão cair durante as quase duas horas do filme. O título está disponível no catálogo do Amazon Prime Video e do streaming do Telecine.

Análise dedicada aos participantes das duas primeiras turmas do curso Desafiando o Espectador.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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