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Luzio | Habitante mais antigo de São Paulo era ameríndio

Por| Editado por Luciana Zaramela | 31 de Julho de 2023 às 20h06

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André Strauss/MAE-USP
André Strauss/MAE-USP

Uma pesquisa feita por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) com apoio da FAPESP mostrou que Luzio — o esqueleto humano mais antigo encontrado no estado de São Paulo — era um ameríndio, assim como as populações indígenas atuais do nosso país, ambos descendentes de ancestrais que povoaram a América há 16 mil anos.

Para isso, foi compilado o maior conjunto de dados genômicos do Brasil, atividade que também ajuda a explicar como os construtores dos sambaquis da costa desapareceram, há cerca de 2 mil anos.

De acordo com André Menezes Strauss, autor do estudo que trata do tema e arqueólogo do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, os sambaquis costeiros são o fenômeno humano com maior densidade demográfica na América do Sul pré-colonial depois das civilizações andinas.

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Para revelar mais sobre esses povos e sobre Luzio, os pesquisadores brasileiros se juntaram à Universidade de Tübingen, da Alemanha, na extração e análise de genoma de 34 amostras humanas de 4 regiões da costa do Brasil. Tendo até 10 mil anos de idade, os sambaquis e outros tipos de fósseis estavam nos sítios de Cabeçuda, Capelinha, Cubatão, Limão, Jabuticabeira II, Palmeiras Xingu, Pedra do Alexandre e Vau Una.

Luzio e suas origens

As análises genéticas mostraram que Luzio é, sem dúvidas, um ameríndio — ou seja, tem as mesmas origens nativo-americanas que os povos tupi, quéchua ou mesmo cherokee. Eles não são, segundo Strauss, iguais, mas em uma perspectiva mais global, esses povos de vários lugares das Américas descendem da mesma grande migração, quando humanos atravessaram o estreito de Bering e habitaram o continente, há cerca de 16 mil anos.

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O paulista mais antigo foi encontrado no vale do rio Ribeira de Iguape, em um sambaqui ribeirinho conhecido como Capelinha. Como seu crânio se assemelha ao de Luzia, o fóssil mais antigo da América do Sul, com 13 mil anos, se acreditava que ele seria biologicamente diferente dos indígenas ameríndios atuais — o que não foi o caso. Se houve outra leva migratória, há, digamos, 30 mil anos, não deixou descendentes.

Luzio, além disso, foi encontrado em um sambaqui fluvial, diferente dos exemplares costeiros. Sendo assim, o sítio arqueológico não pode ser considerado ancestral direto dos sambaquis clássicos que surgiram mais tarde — em outras palavras, descobrimos que houve duas migrações diferentes, com um grupo de ameríndios indo pelo interior do país enquanto construía sambaquis e outro fazendo a mesma atividade na costa brasileira.

O destino dos sambaquieiros

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Embora tenha sido determinado que Luzio fazia parte dos povos ancestrais dos indígenas, o genoma estudado pelos cientistas mostra que havia comunidades diferentes, com semelhanças culturais, mas uma biologia levemente diferente. As diferenças maiores aparecem entre os povos da costa sul e da costa sudeste. Nos anos 2000, alguns estudos sobre morfologia craniana já mostravam diferenças sutis em tais comunidades, o que foi agora confirmado pela genética, segundo Strauss.

De acordo com o cientista, uma das causas para essa diferença reside no fato de que os povos costeiros não ficavam isolados, mas sim trocavam genes ao se misturar com as populações do interior, diferenciando as regiões sambaquieiras ao longo dos milhares de anos de atividade.

Como, então, “desapareceram” os povos que faziam sambaquis? Essa civilização costeira foi a primeira caçadora-coletora do Holoceno, e seu DNA mostra um processo diferente do Neolítico europeu, que teve uma substituição completa em suas populações. No Brasil, o que aconteceu foi uma mudança de prática, na verdade. Os sambaquis deixaram de ser construídos com conchas, e os mesmos povos passaram a fazer cerâmica, e é por isso que terminam os registros de tais atividades.

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O sítio mais emblemático da época, por exemplo, é o de Galheta IV, em Santa Catarina, com datação estimada em cerca de 3.000 anos. Nele, já podemos ver que não há conchas, mas sim cerâmica, diferente dos clássicos sambaquis costeiros.

Ainda em 2014, um estudo havia analisado as cerâmicas dos sambaquis e concluído que não eram usadas para cozinhar vegetais domesticados, mas sim peixe. Isso quer dizer que uma tecnologia interiorana foi apropriada no processamento de alimentos locais, mostrando trocas culturais e tecnológicas.

Fonte: Agência FAPESP, Nature