Mulher relata casos de discriminação enquanto trabalhava na Google

Por Redação | 18 de Agosto de 2017 às 10h19

A demissão de James Damore, ex-engenheiro da Google que publicou uma carta aberta cheia de comentários misóginos, colocou a empresa sob intenso escrutínio. E, na medida em que trabalha para garantir que seu ambiente continue, como alega, aberto e inclusivo, surgem mais e mais notícias de que a realidade não é tão sólida quanto as políticas da empresa fazem parecer. Qichen Zhang, uma especialista técnica que também trabalhou para a Google, é um dos principais nomes a se pronunciarem a esse respeito.

Em entrevista ao Guardian, ela falou sobre episódios de discriminação racial e de gênero. A piada de um de seus colegas de trabalho, de que ela só foi contratada pois seria boa em matemática – ela é de origem asiática –, é apenas o primeiro caso do tipo de que se lembra, ainda em seus primeiros dias de Google. Com o passar do tempo, ela disse que não era encorajada a crescer, e, muito pelo contrário, sentia que não ia a lugar nenhum dentro da empresa, o que acabou levando à sua demissão voluntária. Hoje, ela trabalha para o Spotify.

O relato de Zhang é mais um entre dezenas de outros que vem surgindo a partir não somente de mulheres, mas também de negros, imigrantes e membros da comunidade LGBT. Todos concordam em uma coisa: a diversidade até existe nos rincões inferiores da companhia, mas praticamente não existe nos setores executivos, o que passa a imagem de que tais funcionários podem não estar sendo considerados para posições superiores, com uma ausência de oportunidade de subida na carreira.

Políticas de diversidade da Google estão sob escrutínio desde a última semana.

Confirmando o óbvio, a especialista afirma que, apesar das políticas de inclusão, a força de trabalho da Google ainda é predominantemente branca e do gênero masculino. Isso fazia com que Zhang sentisse como se não pertencesse àquele lugar, enquanto comentários internos, feitos somente entre os funcionários e nunca levados à gerência, levantavam suspeitas de diferenças no pagamento entre homens e mulheres, além da já citada falta de oportunidades para promoção.

É justamente o que afirma Damore, mas pelos motivos contrários. Em sua carta, ele afirma que diferenças biológicas fazem com que homens tenham mais habilidade do que mulheres para cargos de gerência e engenharia, e que a Google, por conta de sua política interna, teria baixado o nível de suas contratações. A demissão do engenheiro foi anunciada na última semana e detonou uma controvérsia que colocou a companhia na mira de grupos favoráveis e contrários às causas da diversidade.

“Cara de Google”

Essa sensação de ser “invisível” também foi compartilhada por uma mulher negra, que, em entrevista, não quis se identificar. Ela conta ser a única não-branca de seu grupo de trabalho e de ter uma sensação constante de que não pertencia àquele lugar. De acordo com ela, seus colegas nem mesmo a queriam ali, excluindo-a de eventos sociais e até e-mails de trabalho. Ela ainda trabalha na empresa, e, por temer retaliação, preferiu não revelar seu nome à imprensa europeia.

Vista de um dos escritórios da empresa no Vale do Silício

Os relatos trazem ainda o que responsáveis por contratação se referem como “Googliness”, ou seja, um alinhamento pessoal de candidatos com os princípios da empresa. Durante seu tempo trabalhando em um comitê de recursos humanos voltado para a entrada de mão-de-obra nova na companhia, a mulher conta da tentativa dos gerentes de chamarem pessoas “que se parecessem com eles”, levando isso em conta antes da competência em si.

Segundo a funcionária, sempre que ela tentava levantar a bandeira da diversidade, era barrada, virava piada ou acabava impactada negativamente. Ela relata que o conceito vendido para fora das paredes da empresa, de que o racismo não existe na Google, é falso, e que lá dentro o ambiente não é nada inclusivo.

É uma declaração embasada por Zhang, que é categórica: “[A Google] se importa com a imprensa, mas não querem se dar ao trabalho de entender o racismo e o sexismo”. Ela ecoa as declarações da colega de que as situações não são explícitas – não existem ofensas ou discriminação clara –, mas sim uma campanha de deixar de lado quem é diferente em prol da mão-de-obra branca e do gênero masculino. Faltam gerentes, mentores e diretores que não se encaixem em tais padrões.

Yolanda Mangolini é diretora de diversidade global da Google

Em resposta, a diretora de diversidade global da Google, Yolanda Mangolini, se disse desapontada com os relatos. Ela admite que os trabalhos em tornar a empresa um local mais inclusivo ainda estão em seus passos iniciais, mas afirma que as iniciativas já em andamento podem ter grande efeito em trazer minorias para dentro da companhia, além de auxiliar a acabar com essa sensação de isolamento entre os que já estão lá.

A executiva, entretanto, não comentou sobre as afirmações de que existiriam diferenças no pagamento entre homens e mulheres. Além disso, não fez declarações sobre o recente cancelamento de um fórum, que seria conduzido pelo CEO Sundar Pichai para discutir o impacto da carta de Damore nas estruturas internas da companhia.

O encontro foi cancelado devido a temores dos próprios funcionários, que poderiam se tornar alvos diretos de partidários do ex-engenheiro caso expusessem suas opiniões publicamente. Pelo menos uma dezena de funcionários da Google, que demonstraram sua visão em redes sociais, estariam sofrendo ataques diretos desde a última semana, e o temor é de que tais atitudes poderiam se intensificar após a realização de um fórum aberto.

Fonte: The Guardian