Engenheiro do Google polemiza ao defender redução de mulheres no Vale do Silício

Por Patrícia Gnipper | 07.08.2017 às 14:02

A semana começou com uma “bomba” saindo dos comunicados internos do Google e explodindo na internet: um manifesto publicado em uma rede interna da gigante, assinado por um engenheiro da companhia, defendia o baixo número de mulheres na indústria da tecnologia com justificativas biológicas — e infundadas. Segundo o funcionário, homens teriam aptidões naturais para se tornar programadores, enquanto mulheres estariam mais inclinadas à estética do que às ideias intelectuais.

Na carta, que tem mais de 3 mil palavras, o engenheiro afirma que “as opções e as capacidades de homens e mulheres divergem, em grande parte, devido a causas biológicas, e essas diferenças podem explicar por que não existe uma representação igual de mulheres na liderança”. Para ele, mulheres devem escolher carreiras nas áreas “social e artística”, deixando a tecnologia para pessoas do gênero masculino.

O autor do texto, contudo, alega “acreditar firmemente na diversidade racial e de gênero”, mesmo deixando claro que não enxerga homens e mulheres ocupando um mesmo patamar no setor — o que, por sinal, vai contra as políticas de representatividade e diversidade do Google. E o engenheiro decidiu “abrir a boca” justamente por acreditar que a gigante estaria criando “uma série de práticas discriminatórias” ao abrir programas educativos voltados para pessoas de determinada raça ou gênero.

O Google não concorda

Danielle Brown, vice-presidente para diversidade, integridade e governança do Google, publicou, logo após o início da polêmica, um comunicado extenso em resposta ao manifesto do tal engenheiro. Brown fez questão de dizer que a visão do funcionário “não é um ponto de vista endossado, promovido ou encorajado” pela empresa.

De acordo com sua resposta, “a diversidade e a inclusão são partes fundamentais de nossos valores e da cultura que continuamos a cultivar” e “não temos qualquer dúvida de que elas são essenciais ao nosso sucesso como companhia, e continuaremos a lutar por isso, comprometidos no longo prazo”.

Ainda assim, a executiva defende a liberdade de os funcionários da empresa se expressarem, mesmo que de maneira polêmica. Para ela, é importante haver “uma cultura na qual aqueles que têm pontos de vista diferentes, inclusive políticos, sintam-se seguros para poder expressá-los”.

As mulheres na programação

Recentemente, um estudo sugeriu que códigos escritos por mulheres têm mais chance de serem aprovados do que aqueles desenvolvidos por homens, desde que seu gênero seja omitido. Os pesquisadores analisaram milhares de submissões ao GitHub e descobriram que a taxa de aprovação de criações femininas era de 78,6%, enquanto o percentual para códigos criados por homens ficou em 74,6%.

E, mesmo que muita gente não saiba, foram as mulheres que deram os primeiros passos no universo da programação. Você já ouviu falar nas “computadoras”? Essas mulheres, pioneiras, realizavam cálculos extremamente complexos na época entre as duas grandes Guerras Mundiais, e algumas delas foram as primeiras a trabalhar no ENIAC (o primeiro computador eletrônico de larga escala), desenvolvendo códigos para seu funcionamento.

Nessa época, o trabalho mais valorizado era o referente ao hardware, executado por homens, enquanto a parte de softwares, considerada inferior, era deixada para as mulheres. Foi por aí que Grace Hopper começou a estudar uma forma mais fácil de programar computadores, usando palavras em inglês para tal, e foi aí que surgiu o COBOL — linguagem de programação usada até os dias de hoje.

A partir dessa época revolucionária, a programação começou a ser vista com outros olhos pela indústria da tecnologia, e foi quando o “clube do bolinha” tecnológico começou a surgir. Com o aumento do interesse masculino pela criação de códigos e linguagens, as mulheres começaram a ser deixadas de lado também nessa atividade, e argumentos biologizantes foram, cada vez mais, utilizados para justificar por que elas, que antes dominavam o setor, agora não podiam mais fazer parte dele.

Com informações de Motherboard e Gizmodo