Saiba por que o Chrome para Android não adotou a nova interface testada em 2017

Saiba por que o Chrome para Android não adotou a nova interface testada em 2017

Por Igor Almenara | Editado por Douglas Ciriaco | 26 de Julho de 2021 às 11h55
Divulgação/Google

Um botão novo, um atalho em posição diferente, opções realocadas para menus e por aí vai: o Chrome passa por modificações de interface frequentemente — e o Canaltech sempre fala delas por aqui. Em 2017, uma alteração que levava a barra de endereços (Omnibox) para a parte inferior da tela foi implementada como recurso experimental, no menu chrome://flags, mas nunca saiu desse estado até sumir completamente.

Quebrando o silêncio pela primeira vez, o ex-designer do Google Chrome Chris Lee descreveu o processo de desenvolvimento do Chrome Home (como era conhecido na época) em seu blog pessoal. O profissional começou a construir a esquecida interface lá em 2016, para só no ano seguinte ela ser lançada ao público como um experimento.

Segundo ele, “celulares estavam ficando cada vez maiores" e a companhia viu a oportunidade de inovar com uma "interface gestual e espacial" para otimizar o uso com uma mão. O navegador também estava crescendo em recursos, mas para preservar o visual minimalista, todas as adições estavam sendo escondidas no menu de três pontos do canto superior direito. Lá, o uso delas estava sendo bem menor do que o esperado.

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Para driblar essas questões, então, Lee pensou no Chrome Home. Ela seria uma bandeja inserida na parte inferior da tela, que poderia ser puxada para cima para revelar botões de navegação, favoritos, recomendações, histórico e outros recursos. Nela também estariam a barra de endereço da página web e o gerenciamento de guias.

Quem conhece navegadores um pouco além do básico vai bater o olho e lembrar: o Microsoft Edge para mobile é igual ao Chrome Home. De fato, eles compartilham de muitas semelhanças. O concorrente do app do Google preserva a barra de endereços na parte superior, mas é na parte inferior que ficam os controles de paginação, acesso às ferramentas e gerenciamento de guias.

Interface do Edge (à esquerda) toma mais espaço útil da tela para apresentar as ferramentas, enquanto o Chrome (à direita) dá mais espaço para o conteúdo do site visitado (Imagem: Igor Almenara/Canaltech)

É curioso o fato de o Google ter desistido da ideia de uma vez, mesmo que as previsões de Lee estivessem corretas. Os smartphones ficaram cada vez maiores, e o Chrome recebeu vários outros recursos ao longo do tempo. Para comparação, aquele ano foi marcado por lançamentos como o Galaxy S8 Plus, com 6,2 polegadas de tela, hoje, o topo de linha mais recente da companhia, o Galaxy S21 Ultra, tem display de 6,8’’.

A ideia engrenou, mas não saiu do ponto de partida

Assim que foi idealizado, o conceito ganhou tração dentro do Google. O Chrome Home se tornou uma prioridade para as equipes de desenvolvimento — e Lee esteve na liderança. O navegador teria toda a sua interface repensada, mas tinha o grande desafio de preservar a experiência e os recursos já existentes.

Não durou muito e o impulso foi frustrado com uma recepção mista da base de usuários. Os mais antigos eram contrários à ideia. Levar a Omnibox para a parte inferior da tela feriu a familiaridade que eles tinham com o app — confundia e os desorientava na hora de navegar pela internet. Enquanto, do outro lado, havia defensores da mudança, que preferiam a novidade graças ao melhor uso do espaço de tela.

A disposição em lista do Chrome é mais familiar para quem vem do PC, mas não é tão prática para uso do celular com uma única mão; Microsoft Edge à esquerda, Google Chrome à direita (Captura: Igor Almenara/Canaltech)

No Google, o cenário foi cheio de debates. O próprio Lee mudou de opinião e entendeu que o Chrome não pode passar por reformulações tão fortes sem atritos com a base de utilizadores. “Fiquei cada vez mais convencido de que lançar o Chrome Home não atenderia bem a todos os nossos usuários”, comentou. “Então, da mesma forma que apresentei com veemência o conceito original, defendi a suspensão do lançamento.”

A interface nunca sairia da fase experimental, entretanto, graças ao feedback misto, seu propósito de teste foi alcançado, de certa forma. “O Chrome Home continua sendo uma lição para mim e para toda a equipe do Chrome sobre a intencionalidade necessária para inovar em um produto em grande escala”, pontuou Lee.

O problema ainda existe

Os smartphones estão maiores, as ferramentas também estão mais variadas. O Chrome consegue, sim, ser extremamente fiel à experiência original e até casa bem com sua distribuição para desktop, mas ele não é ideal para uso com uma mão só.

Usuários mais antigos podem ficar insatisfeitos com a decisão, mas nada impede que a companhia implemente a novidade bem como fez no período de experimento: de forma totalmente opcional. Quem quiser pode usar utilizar a interface com a bandeja inferior, quem preferir pode voltar ao padrão. Além de ser uma interessante adição para melhorar a usabilidade geral no dia a dia, também pode ser uma aliada para acessibilidade.

Se o Chrome Home será tirado da gaveta mais uma vez, só o tempo dirá, mas a experiência de Lee mostra que a desenvolvedora é menos ousada quanto às mudanças implementadas no navegador. Se você é um dos fãs da interface experimental, resta apenas torcer para que ela seja reaproveitada de alguma forma.

Fonte: Chris Lee

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