O novo Chromecast parece pronto para enfrentar a Mi Box?

Por Rubens Eishima | 04 de Outubro de 2020 às 12h00
Rubens Eishima/Canaltech

Em um mercado cada vez mais competitivo, o Google reformulou totalmente seu sucesso de mercado Chromecast, com uma nova geração equipada com o sistema Android TV. A mudança coloca o aparelho em rota de colisão com outro sucesso de vendas, a Xiaomi Mi Box, mas será que o Google está pronto para encarar o aparelho de streaming da marca queridinha? É o que será analisado a seguir.

Lançado globalmente em 2016 — após ser anunciado em maio daquele ano no evento Google I/O —, a Mi Box se tornou um sucesso imediato de vendas, transformando qualquer TV com entrada HDMI em um aparelho smart. Àquela altura, o Chromecast já tinha cerca de três anos de mercado e continuou fazendo sucesso graças à combinação de simplicidade e preço acessível.

Para boa parte das pessoas, ambos os aparelhos têm a mesma utilidade: poder assistir vídeos do YouTube ou Netflix na televisão. Mas a Mi Box sempre ofereceu muito mais recursos graças ao uso de um sistema operacional com a qual o usuário pode interagir, instalar apps e muito mais.

Mi Box conquistou salas de estar ao redor do mundo (Imagem: divulgação/Xiaomi)

Um novo desafiante

A Mi Box teve sua cota de rivais no mercado, com destaque para o poderoso Nvidia Shield (que, verdade seja dita, ocupa outro segmento), o Amazon Fire TV e o recém-chegado Roku Express — sem contar soluções “nacionais”, como as da Intelbras e Elsys —, todos com uma gama de aplicativos de streaming, jogos e outros conteúdos nem sempre compatíveis com o Chromecast.

Neste cenário, o Google reposiciona seu aparelho de streaming para adotar o Android TV, oferecendo os mesmos recursos encontrados na Mi Box — como controle remoto com suporte ao Google Assistente, controle de dispositivos conectados na casa e ampla variedade de apps.

Além disso, o novo Chromecast deixa para trás uma das limitações do Chromecast básico: a resolução máxima Full HD, permitindo exibir conteúdos em resolução 4K (que só estava disponível no descontinuado Chromecast Ultra), além do modo HDR para mais definição de cores e brilho. Aqui, o novo Chromecast se equipara à Mi Box, deixando para trás não apenas o seu antecessor como também as versões básicas do Fire TV Stick e Mi Stick, limitadas a Full HD.

Novo Chromecast usa sistema operacional Android TV, com navegação via controle remoto (Imagem: divulgação/Google)

Apesar da maioria dos televisores 4K contarem com sistemas smart próprios, alguns usuários podem se interessar em um aparelho Android TV devido à variedade de aplicativos ou mesmo porque o sistema nativo da TV deixou de ser atualizado.

Novidade no ringue

Entre as vantagens do novo Chromecast está o fato de se tratar de um aparelho do Google e que teoricamente deve receber as atualizações importantes do sistema Android TV. Como acontece com a linha Pixel entre os celulares, os novos recursos do sistema operacional devem estrear no novo aparelho.

Por outro lado, o histórico do Google no segmento não ajuda a prever como será o suporte ao dispositivo. Para referência, o aparelho Nexus Player foi lançado em 2014 com o sistema Android 5 (Lollipop) e, mesmo contando com status oficial da marca, teve o suporte encerrado pouco mais de três anos depois, com atualização até o Android 8 (Oreo). O Nexus Q, por sua vez, foi abandonado sem cerimônia e esquecido, apesar do sucesso de vendas no lançamento.

Neste ponto, a Xiaomi e a Nvidia são as empresas que apresentam o melhor histórico de atualizações com o Android TV. A Mi Box original, lançada em 2016 com Android 6 (Marshmallow), recebeu recentemente a atualização para o Android 9 (Pie), mesma versão disponível para a Mi Box S e a Mi Stick. Apesar do lançamento do Android TV 11, o novo Chromecast sai de fábrica com a décima versão do sistema.

Mi Box S utiliza o Android TV "puro" (Imagem: divulgação/Xiaomi)

Recursos da casa

Uma das principais diferenças entre o novo Chromecast e a Mi Box é a interface Google TV, que para alguns pode ser vantajoso, mas para outros pode ser um ponto negativo. O aplicativo reorganiza a tela principal do sistema, destacando sugestões de conteúdo para o usuário, sem a separação em apps adotada pelo Android TV original.

A mudança pode ser positiva para quem assina diversos serviços de streaming de vídeo e costuma consumir vídeos e séries de todos eles. Já para quem assina apenas um serviço, ou utiliza o aparelho para acessar outros tipos de apps, a novidade talvez não traga tanto impacto.

Já quem se preocupa com a quantidade de informações que o Google armazena sobre seus clientes não deve gostar do novo sistema, que se abastece do histórico de filmes e séries assistidos pelo usuário. Ao menos a empresa oferece um modo apenas com os aplicativos instalados, mas que perde recursos de busca de mídia e os comandos de voz.

Além disso, o próprio Google anunciou que a nova “experiência de uso” será oferecida para outros aparelhos com o sistema Android TV — no novo Chromecast, a interface é distribuída e atualizada pela Play Store, como um aplicativo qualquer.

Google TV oferece melhor integração com a lista "O que assistir" (Imagem: divulgação/Google)

Desempenho extra

Um ponto em que o Chromecast ganha da concorrência, exceto do Nvidia Shield, é no uso de um processador mais moderno. Apesar dos nomes semelhantes, o chip AmLogic S905D3 do Chromecast é mais rápido do que o processador S905X usado no Mi Box (ou o S805Y do Mi Stick).

Além de contar com núcleos mais avançados de CPU (ARM Cortex-A55 contra A53) e GPU (ARM Mali-G31 contra o Mali-450), em ambos os casos a velocidade de processamento é mais alta no novo Chromecast. Para quem apenas usa o aparelho para YouTube ou Netflix a diferença pode até ser imperceptível, mas o uso de recursos como automação da casa e principalmente jogos pode revelar a superioridade do Chromecast.

No papel, especificações do novo Chromecast são superiores às do Mi Box (Imagem: Rubens Eishima/Canaltech)

As demais especificações dos dois aparelhos mostram um empate técnico, com a mesma quantidade de memória (2 GB), suporte ao mesmo padrão de rede sem fio (Wi-Fi 5) e compatibilidade com Bluetooth.

Uma vantagem do Mi Box é a porta USB-A livre, que pode ser usada para expandir o armazenamento interno ou com acessórios, enquanto o Chromecast requer o uso de um hub USB-C. Neste ponto, apesar de não ser uma característica importante para a maioria dos usuários, a caixinha da Xiaomi oferece meios mais simples para ligar um controle de videogame, adaptador de rede com fio ou um pen drive com vídeos da família.

Detalhes importam

Apesar de parecer algo pequeno, os dois botões adicionais na parte inferior do Chromecast podem se tornar um recurso poderoso para muitos usuários. Aproveitando o protocolo HDMI-CEC ou a comunicação por infravermelho, os botões podem ser usados não apenas para ligar o televisor — algo que em tese a Mi Box oferece, mas cujo suporte não é dos mais completos — como também para alternar entre as entradas da TV.

O botão do canto inferior direito, Input, pode ser útil para quem usa no mesmo televisor um aparelho de TV por assinatura, videogame, computador e outras fontes de vídeo, até mesmo um Apple TV. Na prática, o recurso abre a chance de dispensar o controle da televisão, diminuindo a bagunça na sala.

Além disso, o novo Chromecast é compatível com vídeos no formato HDR Dolby Vision, utilizado por alguns serviços de streaming e que não é suportado pela Mi Box. O mesmo acontece com o padrão de som tridimensional Dolby Atmos. Em ambos os casos, para aproveitar o formato é preciso que o aparelho de TV e som sejam compatíveis.

Lançamento indefinido

Para nós brasileiros há um pequeno porém: o Google informou ao Canaltech que não tem previsão de lançamento do novo Chromecast no Brasil. Ao menos por enquanto, o novo modelo está disponível apenas nos Estados Unidos, na Austrália e em alguns países da Europa.

Ausência do Stadia no Chromecast decepcionou os (poucos) fãs da plataforma (Imagem: divulgação/Google)

Mas, tendo em vista o sucesso da terceira geração do aparelho no Brasil e levando em conta a quantidade de pessoas com TVs sem recursos smart no país, não seria inesperado ver o aparelho lançado por aqui no ano que vem.

Tudo para dar certo

Pelo menos no papel, o Chromecast traz os principais recursos para encarar os rivais, incorporando os pontos fortes da Mi Box à linha Chromecast, sem nenhuma desvantagem evidente.

O suporte oficial do novo Chromecast deve ser o grande atrativo do aparelho, que terá exclusividade durante alguns meses da nova interface Google TV. Outra vantagem é que o novo aparelho de streaming do Google chega como o mais potente do sistema — exceto o poderoso Nvidia Shield.

Porém, a Mi Box S já se aproxima de dois anos de lançamento — “idade” na qual a Mi Box 3 foi sucedida pelo modelo atual — e a Xiaomi não deve ficar parada frente à nova concorrente, sem contar na existência do Mi TV Stick, que pode indicar um novo rumo para os produtos de TV da marca chinesa.

O mais importante porém, é saber qual o preço oficial do Chromecast quando ele eventualmente chegar ao Brasil. Caso seja vendido por um valor equivalente ao cobrado pela Mi Box, o novo aparelho do Google tem tudo para tomar mercado dos rivais.

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