Os serviços móveis no mundo da COVID-19

Por José Otero | 19 de Novembro de 2020 às 10h00
Canaltech

Os serviços de telecomunicações têm cobrado uma importância maior em nível global com a chegada da presente pandemia de COVID-19. Trabalhos rotineiros que costumavam requerer interação presencial têm migrado paulatinamente para comunicações por meio de distintas plataformas de telecomunicações, sendo aquelas de maior protagonismo as que suportam os serviços móveis.

A localização do uso do celular se torna um canal preferido pelas autoridades de governo e empresas privadas para tentar comunicar ao maior número de pessoas possíveis as novidades relacionadas à COVID-19. A lista é longa e inclui desde simples informação horária dos locais onde estão realizando testes para detectar doenças, até serviços mais complexos de telemedicina, finanças, teleducação e governo eletrônico.

Claro que, para muitos, isto não representa uma surpresa, pois as redes que oferecem serviços móveis vêm, há anos, desempenhando um papel de protagonismo na massificação destes serviços básicos, ao aumentar sua adoção pela população. A chegada da COVID-19 tem incentivado sua massificação no lançamento de um número maior de aplicações que buscam solucionar problemas dos usuários, mantendo o distanciamento social.

O papel que o celular cumpre para promover o bem estar da população é bastante amplo. Não obstante, sua realidade está distante de ser perfeita, pois, enquanto em outros mercados os governos buscam formas para potencializar a cobertura populacional das redes móveis, existem países em que o interesse governamental é focado em fazer caixa com as concessões de espectro para serviços móveis, ou seja, arrecadar dinheiro para equilibrar o orçamento.

Por sua vez, na Colômbia a oposição ao modelo arrecadatório de impostos foi um dos elementos que justificou a modificação da lei das telecomunicações deste país. Em paradoxo, como resultado, no primeiro leilão de espectro radioelétrico ocorrido após a aprovação desta lei,  a cobrança foi apontada como elemento essencial do processo ao determinar um preço mínimo por MHz / POP superior ao observado em processos semelhantes na América Latina. Por exemplo, o preço por MHz pago pela banda de 700 MHz, U$ 0,34 é o mais alto registrado na América Latina em processos de leilão.

De toda forma, é preciso realizar a dedução de  60% do valor a ser pago pelo espectro radioelétrico: 60% é deduzido de investimentos em infraestrutura e o restante 40% em pagamentos por 17 anos. Obviamente, este dispositivo não foi suficiente para encorajar nenhuma operadora móvel do mercado a participar do leilão, com a alegação de que as áreas de cobertura impostas não oferecem um retorno de investimento em um prazo razoável.

O modelo arrecadatório que aparentemente se manteve imóvel durante pouco mais de duas décadas parece ter caducado. As operadoras móveis já não apresentam disposição para pagar grandes porcentagens de seus investimentos por porções de espectro, preferindo, em alguns casos, devolver as frequências para os  governos. Medidas como as adotadas na Colômbia mostram que alguns reguladores de telecomunicações da região estão entendendo como o mercado tem se transformado nos últimos anos. Infelizmente, muitas das pessoas que tomam as decisões sobre o mercado de telecomunicações não compreendem o impacto que este setor tem na economia, e como atua como espinha dorsal de muitas iniciativas de desenvolvimento.

Contudo, é preciso lembrar que outros serviços dependem diretamente da massificação dos serviços móveis. Começando com saúde, existe um estudo realizado pela Organização Mundial da Saúde e pelo Banco Mundial no qual se identificam os serviços de saúde móvel como a forma mais barata de digitalizar e massificar o acesso a serviços de saúde em mercados emergentes. Por isso, diversos países estão integrando serviços móveis a esta indústria, já que é a forma mais rápida para que a população tenha acesso a esses serviços. Esta informação se complementa com um estudo recente realizado por especialistas em medicina do Instituto Wyss da Universidade de Harvard, no qual identificam os serviços de saúde móvel como essenciais para ajudar a mitigar, e no futuro, eliminar o impacto da COVID-19 ou de outras doenças contagiosas na sociedade.

Durante os últimos meses, observou-se um crescimento expressivo da teleducação como método de ensino. Neste sentido, um estudo publicado pelo Centro de Inovação Tecnológica do Instituto Bookings, dos Estados Unidos, considera os serviços móveis como um catalisador para melhorar a educação por sua grande adoção pela população. Assim, durante a pandemia, a Unicef publicou um relatório no qual os serviços móveis cumprem um papel de protagonista na implementação de projetos de teleducação em países emergentes.

As redes móveis, tal qual mencionado anteriormente, permitem que os governos se comuniquem com a população de maneira mais rápida e massiva. Vários estudos publicados pela UIT, pelo Banco Mundial, pelo Parlamento Europeu, pelo OCDE e outras entidades ressaltam a importância dos dispositivos celulares como plataformas de acesso às plataformas de governo eletrônico por parte da população. A importância dos dispositivos celulares como plataforma de acesso às plataformas de governo eletrônico aumenta em mercados emergentes.

Finalmente, em um mundo no qual é necessária a limitação de exposição aos elementos que possam trocar de mãos de forma frequente, o Fundo Monetário Internacional identificou os serviços bancários por meio do celular como essenciais para aumentar o bem estar da população durante a pandemia de COVID-19, pois, entre outras coisas, permite reforçar orientações de distanciamento social. O G20 também identificou o banco móvel como um componente essencial para a inclusão financeira da população.

A importância dos serviços móveis em tempos de COVID-19 não tem paralelo na indústria de telecomunicações. Nenhuma outra plataforma tecnológica (versus fibra óptica, satélites, cobre etc) alcança de forma direta um maior número de cidadãos. É por isso que deve se considerar as operadoras móveis como atores fundamentais para o desenvolvimento e bem estar da população, reconhecendo que as outras plataformas tecnológicas servem de apoio, cobrindo os escassos nichos populacionais que, atualmente, não têm acesso à cobertura de redes móveis.

 

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