Construindo o diálogo na 5G

Construindo o diálogo na 5G

Por José Otero | 18 de Janeiro de 2022 às 15h00
Pixabay

O setor das telecomunicações se diferencia por exigir grandes investimentos em períodos de tempo que seriam muito curtos em outros setores da economia. É por isso que, ao analisar a oferta de um serviço, torna-se imprescindível que sua estrutura de custos seja considerada como parte do exercício realizado. Sobretudo se o almejado para a política pública nacional for aumentar o uso dessas tecnologias para promover o desenvolvimento, a geração de empregos e o bem-estar social.

Simplificando, o fato de três empresas oferecerem o mesmo serviço não significa que o custo de montagem da rede e a expectativa de vida entre elas seja semelhante. Isso se deve às muitas variáveis ​​que devem ser consideradas ao construir uma rede de telecomunicações, muitas das quais mudam de local para local.

Para exemplificar, não é a mesma coisa fazer um assentamento de fibra óptica em Montevidéu, no Uruguai, versus nas Artigas (à 600 km da capital Montevidéu, também no Uruguai), ou ainda, oferecer serviço 4G em Ciudad Sandino (município da Nicarágua). Sempre devem ser considerados os custos de mão de obra e o projeto de rede, assim como elementos como infraestrutura civil existente, taxas de impostos e topografia.

Mas mesmo supondo que todas as condições sejam idênticas, o que é completamente irreal, a estrutura de custos de uma rede vai variar de acordo com a tecnologia utilizada. Por exemplo, uma conexão de banda larga fixa de 150 Mbps que pode ser oferecida através de uma rede móvel, uma conexão de satélite ou de fibra óptica, é apresentada ao cliente com pacotes de tarifas muito diferentes.

Para além das variáveis ​​de oferta e procura que possam existir em cada local, as tarifas têm como objetivo recuperar o investimento feito em infraestruturas pelo operador de telecomunicações antes que a sua rede se torne obsoleta ou deixe de oferecer serviços. É justamente neste ponto que começamos a contemplar uma realidade pouco discutida: quanto tempo cada operadora tem para recuperar o investimento realizado em função do tipo de plataforma tecnológica que utiliza?

A realidade da indústria

Se a ênfase for colocada na indústria de satélites, observa-se que a vida média de um satélite que oferece serviços de telecomunicações oscila quase sempre, se não houver acidente, entre doze e quinze anos. Por esse mesmo motivo, o processo de venda da capacidade desses serviços começa muito antes de o satélite entrar em órbita, pois a geração de receita deve ser maximizada para garantir, no mínimo, o retorno do investimento. Claro, os satélites têm a vantagem de poder oferecer serviços em grandes áreas geográficas que muitas vezes incluem dois ou mais países, o que lhes permite, em teoria, ter um mercado potencial de clientes maior do que o das operadoras de telecomunicações terrestres que operam localmente. Ou nacional.

Contrastando com a expectativa de vida dos satélites, as redes móveis têm uma vida média de vinte anos, mas com a particularidade de que, aproximadamente a cada dez anos, surge uma nova tecnologia que leva cerca de uma década para se espalhar e se torna gradualmente obsoleta durante os dez anos restantes de existência. A vantagem das operadoras móveis é que sua implantação em comparação com redes cabeadas, como pares de cobre ou fibra óptica, é muito mais barata, cobrindo assim uma área geográfica maior. No entanto, sua vantagem sobre a cobertura mais ampla oferecida por satélites são os custos de acesso muito baixos que os clientes finais têm para acessar essas redes.

Enquanto os usuários de serviços de banda larga ou telefonia via satélite têm que gastar centenas de dólares em dispositivos e pacotes de serviços, as economias de escala do setor móvel permitem que os usuários obtenham serviços semelhantes por uma fração do preço oferecido pela operadora de satélite. O resultado dessa dinâmica é que os serviços de varejo por satélite têm sido historicamente um nicho, representando apenas décimos de um ponto percentual do total de linhas de telecomunicações. Também é importante mencionar que são linhas que oferecem serviço para pessoas ou entidades que não têm alternativa para se conectar.

5G deve tomar o globo ao longo dos próximos anos (Imagem: Freepik)

Por outro lado, se a rede que oferece serviço de 150 Mbps for de fibra óptica, observamos que a vida útil desses cabos é superior a quarenta anos. Agora, a implantação destes não é barata e só se justifica em áreas de alta demanda, como cidades ou áreas suburbanas com alta densidade populacional.

Claro, a vida é muito complexa e não temos divisões tão claras em termos de redes de telecomunicações completamente homogêneas. A realidade nos mostra um ecossistema de telecomunicações onde essas três plataformas principais se entrelaçam para que, dependendo da demanda, da topografia e da infraestrutura civil de cada localidade, a operadora possa decidir que tipo de tecnologia implantar por si mesma e qual alugar para terceiros. Algo popularmente chamado de coopetencia por pesquisadores da Universidade de Harvard na última década do século passado.

Se tomarmos o que foi escrito até agora como um preâmbulo do que são as redes 5G, descobriremos que sua existência e sucesso dependem em grande parte da infraestrutura de telecomunicações já implantada no mercado. Principalmente as redes de fibra ótica que serão as únicas capazes de suportar as altas taxas de tráfego bidirecional transportadas pelas antenas desta tecnologia, independentemente do seu tamanho ou localização da freqüência do espectro radioelétrico utilizado.

Ainda quando se fala em infraestrutura de telecomunicações existente ao considerar a 5G, deve-se mencionar que essas redes não são totalmente independentes, mas na verdade se constituem pela criação de um ecossistema de tecnologias, muitas delas em operação há anos, para atingir desempenho. De antenas inteligentes à separação de operadoras e uso de células pequenas (small cells), com a 5G veremos como as tecnologias existentes são aprimoradas e como a virtualização de rede começa a assumir um papel cada vez mais importante. A tecnologia é evolutiva, mesmo as redes OPEN RAN não são puramente 5G, e também operam com tecnologias anteriores.

5G sozinho não faz milagre

Uma vez compreendida essa equação, fica mais fácil entender o cuidado em atribuir que a 5G é a tecnologia que vai possibilitar a transformação digital, virtualizar redes e promover a digitalização através da Internet das Coisas. Tudo isso já existe com as tecnologias wireless anteriores, a 5G contribuirá como uma forte redução nos custos de transmissão de dados, um elemento extremamente importante para que todas essas tecnologias existentes saiam de seu nicho para começar a se generalizar, oferecendo seus serviços a um maior número de usuários.

5G não inventa a transformação digital, não cria a economia 4.0 e não formula o que será uma cidade inteligente. O que faz é dar maior capacidade para que as estratégias que visam esses objetivos sejam alcançáveis ​​em menor tempo e com menor custo.

Justamente por isso, é necessário iniciar um diálogo forte e sério sobre a 5G que ajude a dirimir dúvidas e estabelecer metas alcançáveis. Uma conversa que finalmente tira 5G da prisão por estar apenas relacionada ao espectro radioelétrico sem considerar todos os outros elementos tangíveis desse ecossistema que podem impulsionar ou interromper seu funcionamento. Deve ser um diálogo que vá além da oferta de serviço da operadora de telecomunicações para integrar atores que geram valor às redes por meio de aplicativos e equipamentos que podem se beneficiar de menor latência, maior velocidade de transmissão de dados e capacidade de conectar até um milhão de dispositivos por quilômetro quadrado.

O Instituto Federal de Telecomunicações do México, com a criação de seu Comitê 5G, parece apontar para esse objetivo. O regulador mexicano se une aos esforços de outras entidades regionais que sob diferentes enfoques estão investindo e explorando a melhor forma de aproveitar as novas tecnologias de telecomunicações, como foi observado na Colômbia com a implementação do primeiro ambiente de computação controlado regulado para as telecomunicações, mais conhecido como Sandbox nos fóruns especializados do setor.

A Comisión de Regulación de Comunicaciones - CRC (Colômbia) adaptou uma ideia originada anteriormente no Reino Unido, mas focada no setor de Fintech para agilizar a chegada de novas tecnologias e ser mais ágil na identificação de quais são as mudanças necessárias, se houver, na legislação do país para aprimorar o desempenho e a adoção da nova tecnologia.

Outros países como o Chile, através do seu Campus 5G, têm apostado em promover o desenvolvimento de aplicações e produtos que aumentem o impacto positivo desta tecnologia no mercado, pois incentiva a criação de soluções locais para os problemas locais, mas sem perder a visão que vivem em uma economia global. Os exemplos podem continuar a ser citados como o Complexo CPqD 5G no Brasil ou os esforços de pelo menos uma operadora para usar Porto Rico como um campo de testes para todos os serviços que pode oferecer a seus clientes regionais por meio da 5G.

São todos esses esforços que nos levam a criar esperança de que a atuação de grupos como os citados atendam às expectativas do setor, uma meta extremamente difícil. O desafio é grande, mas a recompensa é igualmente enorme, abrindo um precedente importante a nível regional em termos de diálogo entre autoridades das telecomunicações e representantes desta indústria, mas também o meio académico e a sociedade civil.

*Artigo produzido por colunista com exclusividade ao Canaltech. O texto pode conter opiniões e análises que não necessariamente refletem a visão do Canaltech sobre o assunto.

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