Startups inovam no acesso à água, mas esbarram no desinteresse de gestores

Startups inovam no acesso à água, mas esbarram no desinteresse de gestores

Por Márcio Padrão | Editado por Claudio Yuge | 02 de Fevereiro de 2022 às 20h00
Nataljusja/envato

O Brasil detém 12% da água doce presente no planeta. Mas como ela é usada? Não por toda a população, certamente. Quase 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável e cerca de 100 milhões não têm coleta de esgotos. Startups focadas em recursos hídricos poderiam ajudar a resolver essa crise, mas enfrentam problemas antigos, como a má vontade política e os poucos investimentos em ideias ambientais.

Essas startups atacam em diversas frentes do problema: desde equipamentos que purificam certos tipos de água em regiões isoladas até softwares que detectam pontos de vazamento em uma rede encanada.

No entanto, as startups ouvidas pela reportagem do Canaltech afirmaram já ter se deparado com problemas já conhecidos por outras companhias do ramo govtech. Enfrentam burocracias com processos licitatórios, desinteresse dos fundos de investimento e quase ausência de programas de incentivo. Sem falar de dores específicas do setor, como as dificuldades técnicas e financeiras para desenvolver as soluções ou vendê-las de forma escalável.

Aparelho da PWTech (Imagem: Divulgação/PWTech)

Caixa que filtra 5.000 litros de água por dia

A paulista PWTech, que iniciou suas operações em 2019, é um exemplo disso. Criou um sistema de purificação de água com custo unitário de R$ 10.500. A caixa de cerca de 12 kg consegue remover em 100% o nível de vírus e bactérias da água doce não tratada — isto é, em seu estágio natural em rios e lagos — e reduzir até 99% de partículas sólidas. Sua capacidade de tratamento é de até 5.000 litros de água por dia, e conta com diversas fontes de energia, incluindo placas de energia solar.

Nesses três anos a PWTech foi reconhecida pela ONG BrazilLab e acelerada por programas da Ambev e prefeitura de Curitiba. Mas o fundador da startup, o engenheiro químico Fernando Marcos Silva, admite os empecilhos para crescer. "Eu achava que o equipamento seria de uso bastante lógico no Brasil, mas a um quilômetro da minha casa há 8.000 pessoas sem acesso a água potável. Não tem cabimento um negócio desse. A água é um direito de todos, mas a nossa dificuldade é criar esse mercado", diz.

Silva diz que a solução é simples e barata, mas depende do interesse de empresas e governos para comprá-la e fornecê-la a comunidades carentes. Não raro, elas acabam recorrendo a soluções mais imediatistas do que o seu aparelho. "O cara que tá no semiárido não tem dinheiro para comprar uma coisa dessas. Por isso digo que nosso maior concorrente não são outras startups do setor, mas os galões de água mineral e carros-pipa".

Anna Luisa Bezerra, da SDW, testa o Aqualuz (imagem: Divulgação/SDW)

Projeto limpa água com luz solar

Atualmente a PWTech, cujo investimento inicial foi na ordem de R$ 1,5 milhão, recebeu o fundo de investimento Fram Capital como sócio e está em processo de avaliação para receber mais aportes. Uma situação bem longe da realidade das fintechs mais promissoras do país, como Nubank e Ebanx, mas ainda mais confortável que a SDW, startup hídrica criada pela premiada biotecnóloga baiana Anna Luisa Bezerra.

Aos 15 anos, ainda no ensino médio, Bezerra começou a desenvolver em Salvador o Aqualuz, uma tecnologia para tratar água de zonas rurais com a luz do sol. A SDW foi criada por ela para desenvolver a ideia de matar a sede a comunidades do semiárido brasileiro, um sonho que ela alimenta desde que leu o livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos. "Comecei a entender essa problemática da seca e ficar ainda mais frustrada, pois ela ainda acontecia em locais não tão longe de onde eu morava", lembra.

Em 2019, Bezerra ganhou o prêmio Jovens Campeões da Terra, da Organização das Nações Unidas (ONU) pela criação do Aqualuz. Hoje a SDW possui quatro outras tecnologias no portfólio, como o Aquapluvi, lavatório com acionamento por pedal instalado em Salvador; e o Aquasalina, para limpar água salobra, ainda em desenvolvimento. Em 2021, o faturamento bruto foi de quase R$ 1 milhão.

Mas apesar do bom histórico e referências, a startup fabricou até agora apenas 920 unidades do Aqualuz e não recebeu grandes aportes. "A gente recebeu algumas propostas mas nenhuma era suficiente para abrir mão de equity, seria um valor muito baixo. Seria mais vantajoso pegar empréstimo do que dar parte da empresa", diz. Assim como a PWTech, a empresa está deixando de lado os governos para focar no B2B, em empresas que queiram entrar ou ampliar em projetos sustentáveis.

Solução com sensores da Stattus4 (Imagem: Divulgação/Stattus4)

Sensores para achar vazamentos

Já a Stattus4, sediada em Sorocaba (SP) desde 2016, trabalha com diversas ideias em cidades inteligentes. Para o setor hídrico, tem duas soluções. A primeira é o 4Fluid Móvel, no qual equipes de campo usam sensores para coletar indícios de perda d'água. Os dados são enviados para um sistema de inteligência artificial concluir se há um vazamento de fato. A segunda é uma versão fixa do mesmo sistema, que coleta dados da vibração, consumo e pressão da água de uma determinada região.

A empresa já trabalhou com mais de 150 empresas de distribuição de água, como a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), e a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), que atende Paraná e o grupo Águas do Brasil. Seu faturamento anual está em torno de R$ 4,5 milhões e já recebeu R$ 2 milhões de investimento.

Mas a empresa tem seus desafios, como esperado. Principalmente na cultura de gestores. "Às vezes conseguimos acesso fácil a financiamento com taxas melhores por ser um projeto socioambiental. Mas a gente precisa trabalhar isso para quebrar as burocracias. Você precisa convencer aquela pessoa, que trabalha daquela forma desde sempre, que a utilização da tecnologia pode ajudá-la a conseguir resultados ainda melhores", diz Marilia Lara, CEO da Stattus4.

Por que essas startups não aceleram de vez?

Bruno Rondani, CEO da plataforma de inovação aberta 100 Open Startups, acredita que a comparação das startups de água com outros nichos precisa levar em conta o contexto. "Em todos os outros setores já vemos as empresas líderes de mercado com seus programas de ecossistema de inovação, e nas de saneamento as líderes começaram a realizar isso apenas um ou dois anos atrás, como a Iguá, Sabesp e BRK Ambiental. Isso é muito recente", argumenta.

Para ele, outro ponto que trava o crescimento dessas empresas é que muitas são criadas por pessoas de perfil técnico, e não empreendedor. "Essas pessoas foram formadas em uma geração do ecossistema que dava pouca atenção ao modelo de negócios. Assim, empresas maiores, que também contam com mais recursos para investir em P & D [pesquisa e desenvolvimento], avançam mais", diz.

Ainda assim, Rondani espera que essa realidade mude em breve. "Estamos agora começando a formar um ecossistema neste setor. As oportunidades se multiplicam e aí chegaremos a números mais espetaculares, como ocorreu com o setor financeiro. Daqui a quatro ou cinco anos achamos que o cenário será bem diferente".

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