Por que celulares estão ficando mais caros? Especialistas explicam
Por André Leonardo • Editado por Léo Müller |

Quando o dólar sobre, os preços dos smartphones sobe junto devido a quantidade de componentes importados que o Brasil traz de fora para fazer esses aparelhos. Mas, em 2026, o dólar despencou de R$ 6 para R$ 4,99, e ainda assim, os celulares ficaram mais caros. Como isso aconteceu?
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Segundo especialistas com quem o Canaltech conversou, os motivos são variados e vão desde o aumento no custo de produção até mudanças na dinâmica global da indústria.
Para compreender esse cenário, é essencial olhar para a “Bill of Materials” (BoM), ou Fatura de Materiais. Ela representa o custo de todos os componentes físicos de um celular (como processador, tela, memória e bateria), sem incluir despesas como marketing, logística, impostos e margem de lucro.
Nos últimos anos, esse custo base passou a subir de forma consistente. Tensões geopolíticas, inflação global e gargalos na cadeia de semicondutores encareceram a produção de diversos componentes.
Em modelos premium, telas e câmeras seguem entre os itens mais caros, podendo representar uma fatia relevante do custo total. Além disso, chips mais avançados e novos materiais de construção também pressionam o valor final dos aparelhos.
Parte desse aumento está ligada à própria evolução tecnológica. Recursos como conectividade 5G e inteligência artificial exigem hardware mais potente e elevam os gastos com pesquisa e desenvolvimento.
IA deixou os celulares mais caros
A demanda crescente por processamento avançado pressiona a indústria de semicondutores como um todo, o que afeta a disponibilidade e o preço de componentes usados em smartphones, como memória e chips. Isso é válido até para aparelhos que não possuem recursos de IA embutidos.
A produção de memória, por exemplo, tem sido afetada por mudanças na prioridade das fabricantes, que direcionam capacidade para soluções mais lucrativas voltadas a servidores e IA. Isso reduz a oferta de componentes tradicionais e encarece dispositivos eletrônicos.
“O preço subiu porque ficou mais caro fazer o celular — peças, transporte e tudo ao redor. Mesmo com o dólar melhorando bastante no Brasil, isso não foi suficiente para baixar o preço sozinho, resumiu o analista de mercado Thiago Muniz, ao Canaltech”.
Além dos custos de produção, há uma mudança importante no mercado. Com menos avanços perceptíveis entre gerações, os consumidores demoram mais para trocar de aparelho. Isso reduz o volume de vendas e força as empresas a buscar maior margem por unidade para manter a rentabilidade.
No Brasil, o cenário fica ainda mais complexo. A carga tributária tem peso relevante no preço final. Estimativas indicam que os impostos podem representar mais da metade do valor pago pelo consumidor, considerando modelos importados.
Ao mesmo tempo, cerca de 95% dos celulares vendidos no país são montados localmente, estratégia que reduz o imposto de importação. Ainda assim, tributos como ICMS, IPI e PIS/COFINS continuam impactando significativamente o preço.
Reinaldo Sakis, diretor da IDC Latin America, explicou ao Canaltech que a pressão de custos deve continuar no curto prazo.
“Os custos de todos os componentes de tecnologia subiram de patamar e serão sentidos com mais força até o fim de 2026. Em 2027, a tendência é de estabilização, não de queda.”
Outro ponto relevante são os custos operacionais. Armazenamento, transporte, marketing, distribuição e suporte técnico também consomem uma parte importante da receita, reduzindo a margem real das empresas.
As estratégias variam entre fabricantes. A Apple, por exemplo, tende a operar com margens mais altas, apoiada no valor do seu ecossistema. Já outras marcas apostam em maior volume de vendas com margens mais apertadas.
No fim das contas, o preço de um smartphone é resultado de uma combinação de fatores globais e locais. Produção mais cara, demanda por tecnologias avançadas, menor volume de vendas e alta carga tributária formam um cenário em que os preços continuam pressionados — e sem sinais claros de queda no curto prazo.
O Canaltech ainda estimou alguns cenários para você entender melhor essa questão. Por exemplo, quanto a Samsung lucra com cada celular vendido no Brasil.