Crise dos chips: memória já é mais cara que Snapdragon de última geração
Por Bruno Bertonzin • Editado por Léo Müller | •

A indústria de smartphones enfrenta uma crise de suprimentos que especialistas e fontes do setor classificam como "catastrófica". O aumento nos custos de memória e armazenamento atinge patamares sem precedentes e impacta diretamente o planejamento dos próximos grandes lançamentos globais.
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Dados recentes revelam que o custo de produção para o conjunto de 16 GB de RAM LPDDR5X e 1 TB de armazenamento UFS 4.1 atingiu a marca de US$ 318. O valor é tão alto que já supera o preço estimado do Snapdragon 8 Elite Gen 6, futuro processador topo de linha da Qualcomm, segundo o informante Digital Chat Station.
Como fabricantes de diversos segmentos utilizam os mesmos componentes de memória, a alta nos preços reflete em todas as categorias do mercado. Modelos como Xiaomi 18, Redmi K100 Pro Max e POCO F9 Ultra devem sofrer reajustes de aproximadamente US$ 140 para o consumidor final.
Para mitigar esse impacto financeiro e evitar repasses ainda maiores, a Xiaomi aposta em soluções de software integradas ao HyperOS. A marca utiliza as altas velocidades de leitura e escrita do padrão UFS 4.1 para alocar parte do armazenamento como memória virtual de sistema.
Essa estratégia permite que aparelhos com menos memória física entreguem um desempenho multitarefa equivalente a versões mais robustas e caras. Assim, a empresa busca proteger o orçamento dos usuários sem abrir mão da fluidez característica de seus celulares mais potentes.
Ententa a crise
A origem do problema está na produção de memórias DRAM e NAND. Gigantes como Samsung e Micron agora priorizam componentes HBM para atender servidores de inteligência artificial. Essa mudança de foco restringe a oferta de peças para celulares e eleva os custos de fabricação em toda a escala.
Reinaldo Sakis, analista da IDC, recorre a uma analogia com o mercado automotivo para explicar o cenário atual. "Com a mesma pastilhinha de silício, você pode produzir um Fusca ou uma Ferrari. Eles optaram por fazer mais Ferraris, e aí não tem material para fazer o Fusca", afirma o especialista.
O cenário atual supera a gravidade da escassez vista na pandemia. "Esta é a pior crise que eles já viram na história", alerta Sakis. Em 2025, o custo de produção de aparelhos de entrada subiu 25%, com novas altas previstas para 2026, o que deve encarecer o preço médio global em quase 7%.
Para evitar valores proibitivos, as marcas podem aplicar uma "reduflação" nos eletrônicos. A prática inclui a troca de chips 5G por versões 4G e a redução na capacidade das baterias. Com isso, novos modelos de 2026 podem chegar às lojas com ficha técnica inferior aos antecessores de 2025.
O professor Thiago Muniz, da FGV, aponta que a inteligência artificial pode servir de justificativa para esses cortes de hardware. Segundo ele, as marcas podem economizar em sensores físicos com a promessa de melhorias via software. O consumidor deve redobrar a atenção para não levar um produto com hardware defasado.
Fonte: Digital Chat Station