Mesmo sem ser 100% fiel à história real, Chernobyl é alerta sobre desinformação

Por Natalie Rosa | 20 de Junho de 2019 às 20h00
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Estreou em maio deste ano, no HBO, a minissérie Chernobyl. Em apenas cinco impactantes episódios, a trama conta a história da explosão da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, que se tornou um dos maiores desastres já causados pelo ser humano. Sob direção de Johan Renck (Breaking Bad), a série tenta mostrar os eventos ocorridos antes, durante e após o incidente nuclear, não só com base em acontecimentos reais, mas também com liberdade artística para criar diferentes casos.

A explosão aconteceu em 26 de abril de 1986, quando o reator de Chernobyl 4 explodiu e liberou material radioativo por toda a Bielorrúsia, Rússia, Ucrânia e, até mesmo, pela Escandinávia e a Europa Ocidental. Um dia antes do acidente, em preparação para o desligamento de rotina, a equipe que trabalhava com o reator executava um teste para determinar por quanto tempo as turbinas girariam e forneceriam energia às principais bombas de circulação após a perda da principal fonte de energia elétrica.

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Foi quando uma interação do combustível muito quente com a água do resfriamento causou um rápido aumento na pressão e, em seguida, a destruição do reator. Em apenas 30 meses, 30 operadores e bombeiros morreram após a exposição ao material radioativo, enquanto uma morreu imediatamente no momento da explosão e outra logo depois, já no hospital.

Com o passar dos anos, dezenas de pessoas foram diagnosticadas com síndrome aguda da radiação, condição também conhecida como envenenamento radioativo, algumas vindo a falecer. Várias áreas dos países atingidos pela radiação foram contaminadas de forma gravíssima, com alguns desses países ainda impossibilitados de abrigar moradores até os dias de hoje.

Fiel à história real, mas nem tanto

A história, de fato, aconteceu como vemos na série, mas alguns detalhes e ocasiões foram criados pela produção com total liberdade artística para fazer com que o acidente fosse bem explicado para o espectador.

Todo o caso é bastante complexo porque nunca teremos acesso ao que realmente aconteceu com os funcionários responsáveis pela explosão, como de fato foram suas conversas e de quem, exatamente, foi a culpa. O que se sabe foi obtido através de análises profissionais na usina, coleta de depoimentos e investigações criminais.

Se você está em dúvida sobre o que realmente aconteceu ou não, fomos atrás de desmistificar alguns acontecimentos:

A explosão de Chernobyl produziu mais que o dobro da radiação de Hiroshima a cada hora? 

O bombardeio de Hiroshima durante a Segunda Guerra Mundial foi tão catastrófico quanto o de Chernobyl, não há como negar. Mas, na série, vemos os profissionais dizendo que a radiação emitida pelo reator explodido foi de potência extremamente mais grave.

No entanto, são situações diferentes e é difícil confirmar essa informação. Em Hiroshima, o maior impacto foi causado pela exposição à radiação. Quando uma bomba nuclear explode, a dose de radiação atingida em um corpo é determinada pela distância da pessoa do ponto de explosão.

Já em Chernobyl, uma alta quantidade de material radioativo foi levada à atmosfera e espalhada por uma grande área. Assim, as pessoas acabam inalando e ingerindo este material por um longo período de tempo.

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Os soviéticos tentaram usar robôs antes de apelar para o trabalho humano?

No episódio 4, quando a explosão já estava sendo esclarecida e medidas de evitar que a radiação se espalhasse a cada vez mais já estavam sendo definidas, vemos que é necessário retirar grandes blocos de grafite do telhado da usina. Na verdade, os homens precisaram limpar 100 toneladas de detritos radioativos daquela área, que chegou a ser considerada o local mais perigoso da Terra.

E, de fato, o início do processo foi feito com a ajuda de robôs controlados remotamente, mas as máquinas começaram a se decompor devido à atmosfera extremamente tóxica. Então, o trabalho precisou ser terminado por pessoas reais.

Imagem: Divulgação/HBO

Animais precisaram ser mortos por soldados?

Por mais triste que seja essa solução, um esquadrão soviético foi, de fato, ordenado a assassinar animais de rua que vagavam próximo ao reator.

Aproximadamente 36 horas após a explosão de Chernobyl, os residentes da cidade de Pripyat tiveram apenas 50 minutos para recolher seus pertences e embarcar em um ônibus para ir embora, mas sem poder levar seus bichos de estimação. Sem donos, os cães e gatos circulavam pelo local contaminados pela radiação, sendo considerado perigoso conviver ao lado deles.

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Uma explosão a vapor poderia deixar parte da Europa inabitável?

Depois da primeira explosão, os profissionais temiam que um novo incidente poderia ser tão poderoso a ponto de eliminar toda a população de Kiev e uma parte de Minks, impactando a Ucrânia Soviética, Letônia, Lutuânia, Bielorússia, Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia e grande parte da Alemanha Oriental.

No entanto, muitas outras hipóteses eram consideradas nesse cenário, segundo a produção da série, alguns deles sendo até mesmo um exagero.

Uma física nuclear chamada Ulana Khomyuk ajudou na limpeza de Chernobyl?

Ulana Khomyuk é uma personagem de bastante destaque em Chernobyl, mas ela foi criada por Craig Mazin, roteirista e produtor da série.

Valery Legasov e Ulana Khomyuk (Imagem: Divulgação/HBO)

Um bombeiro morreu no hospital devido à explosão deixando uma esposa grávida?

O bombeiro Vasily Ignatenko e sua esposa Lyudmilla tiveram, de fato, suas vidas afetadas devido ao incidente de Chernobyl. O casal planejava viajar à Bielorrússia na manhã da explosão, mas o bombeiro precisou ir à usina elétrica por volta da 1h30 da madrugada, quando se contaminou gravemente pela radiação.

Lyudmilla estava grávida e mentia para os funcionários do hospital para poder ver o marido, e mesmo sendo ordenada para não encostar na pele contaminada, ela o fazia mesmo assim. Vasily morreu 14 dias depois do acidente e, assim como aparece na série, precisou ser enterrado em um caixão de zinco.

A esposa acabou perdendo o bebê quatro horas depois do seu nascimento.

Um helicóptero caiu após a explosão?

De fato, um helicóptero caiu ao redor do que restou do reator, mas não foi logo após o acidente, e sim semanas depois. O roteirista da série contou que queria mostrar às pessoas que os pilotos estavam correndo risco de vida pilotando acima de um reator aberto.

Valery Legasov fez gravações com seus pensamentos em fitas após o desastre?

Valery Legasov, principal investigador científico de Chernobyl, realmente existiu. A diferença, no entanto, é que em vez de ser uma pessoa solitária, ele tinha uma esposa e filha.

Antes de se enforcar, dois anos depois do acidente, Legasov registrou o seu relato pessoal em fitas cassete. Está presente no seu obituário a informação de que o nome do cientista não foi mencionado em dezenas de relatos da mídia soviética. No episódio 5, vemos um oficial da KGB dizendo que os seus esforços em relação à limpeza do desastre seriam mantidos em silêncio.

Três voluntários se sacrificaram para drenar água radioativa?

Em um dos episódios, vemos que três pessoas se oferecem para drenar água radioativa da usina, sendo um trabalho bem perigoso e que custaria suas vidas. No entanto, isso não aconteceu de verdade.

O que ocorreu foi que foi que membros da equipe da usina, que estavam em plantão, receberam ordens por telefone para que abrissem válvulas.

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A radiação é mesmo contagiosa?

Essa afirmação pode mudar alguns relatos do que realmente aconteceu, inclusive de alguns que citamos acima, então é realmente difícil confirmar como houve o contágio.

Por mais que seja mostrado na série que pessoas contaminadas pela radiação não podem ser tocadas, especialistas dizem que não é bem uma verdade. Eles contam que, uma vez no corpo, a radioatividade é internalizada e não contagiosa. No caso de sangue, suor ou urina, esses líquidos podem contar com um pouco de radiação, mas não há evidências de que casos assim tenham ocorrido em Chernobyl.

Você com certeza reparou que os pacientes vítimas da radiação estão em seus leitos de hospital com plásticos em volta, certo? Na verdade, isso foi feito para que eles não sejam expostos a vírus ou bactérias que possam ser cruciais para seus corpos, visto que estão com o sistema imunológico sensível.

Há várias controvérsias sobre o que realmente aconteceu em Chernobyl, assim como em quantas pessoas foram afetadas pela radiação e como. Enquanto outras defendem a gravidade da situação, outras tentam amenizar o caso dizendo que houve muito sensacionalismo em cima do acidente. É complicado até mesmo obter dados estatísticos que comprovem as consequências da explosão.

Por que o timing da série é relevante?

Mesmo que o acidente de Chernobyl tenha ocorrido há mais de 30 anos, explicar a história de uma forma mais detalhada é crucial para o momento atual em que a ciência está vivendo. Especialistas climáticos vêm sendo ignorados pelas autoridades, em meio a diversos alertas sobre as consequências que essas alterações podem causar em nosso planeta.

A série não mostra, como muitos pensam, que a energia nuclear e o regime político da região afetada sejam ruins, mas sim um conflito de mentiras descaradas com verdades inconvenientes. O alerta é para um desafio muito urgente: a mudança climática.

A ameaça estava bem clara com a radiação invisível sobrevoando Pripyat, assim como, hoje, os gases de efeito estufa estão se acumulando em nossa atmosfera. Em ambos os casos a verdade é escondida, seja para não causar desespero na população ou por questões de poder.

Em Chernobyl, mesmo sabendo da gravidade do problema e da tragédia que estava por vir, fatos e informações eram encobertos. Um caso recente que aconteceu aqui no Brasil, ótimo para exemplificar a situação, é o rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais. Documentos vazados mostram que a Vale tinha conhecimento sobre essa ameaça pelo menos dois anos de realmente acontecer. Porém, nada foi feito para ser evitado.

"Ser um cientista é ser ingênuo. Estamos focados em nossa busca pela verdade que falhamos em considerar que poucos querem que nós encontremos. Mas ela está sempre presente, mesmo que nós a vejamos ou não, escolhamos ou não. A verdade não se importa com nossas necessidades ou desejos — não se importa com nossos governos, nossas ideologias, nossas religiões — mentem em ficar esperando o tempo todo. Este, finalmente, é o presente de Chernobyl. Onde uma vez eu temia o custo da verdade, agora eu só pergunto qual é o custo das mentiras", disse Jared Harris, ator que interpretou Legasov.

Cientistas vêm alertando que a alteração da atmosfera do planeta pode levar à natureza a um colapso, mortes por calor, costas inabitáveis e poluição grave. Mas o lucro arrecadado por grandes empresas, investidores bilionários e políticos acaba se sobressaindo. O problema é tão grave que até grupos, como o Extinction Rebellion, foram criados para pressionar as autoridades sobre esses alertas.

Emissões de carbono continuam acontecendo e aumentando a cada dia mais — assim como o custo das mentiras, que não para de aumentar.

Fonte: Gizmodo, Forbes, Business Insider

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