Crítica | Good Omens: a justa e precisa amizade de Neil e Terry, escritores

Por Rafael Rodrigues da Silva | 14 de Julho de 2019 às 10h20

Falar de adaptações é sempre um negócio complicado, pois ao mesmo tempo que uma adaptação deve ser medida contra a obra original que a inspirou, ao mesmo tempo não pode ser julgada por não apresentar a mesma “qualidade” de sua inspiração porque, como o próprio nome já diz, é uma “adaptação”. Não é uma cópia, ou duplicação, ou reprodução; é, como o próprio dicionário define, o ajuste de uma coisa à outra.

Assim, é sempre complicado quantificar qualidades de qualquer adaptação. Uma das frases mais comuns que vemos em muitas críticas de obras desse tipo é “o livro é melhor do que o filme/série”. Mas como estabelecer uma relação de melhor/pior quando falamos de coisas completamente diferentes? Quando estabelecemos uma comparação do tipo “laranjas são melhores do que maçãs” é fácil entender quais são os juízos de valor subjetivos que aplicamos para fazer essa afirmação. O mesmo quando falamos “bicicletas são melhores que carros”: mesmo sem uma explicação explícita, é possível entender quais foram os critérios usados pelo interlocutor para chegar a essa afirmação. Mas, quando falamos “laranjas são melhores que bicicletas”, a lógica natural não existe. Mesmo que se ofereçam explicações, elas não fazem sentido: uma laranja pode ser melhor de se comer, mas devemos mesmo julgar uma bicicleta pela sua incapacidade de ser usada como alimento quando essa nunca foi um dos propósitos de existência dela? Ou ainda, a bicicleta pode ser um melhor meio de transporte, mas é correto julgar a laranja por uma característica que não pertence a ela e a qual ela nunca aspirou em ter?

Esse é o problema de quando tentamos julgar de maneira objetiva a qualidade de uma adaptação, porque diferentes mídias irão gerar diferentes produtos. Mesmo que se tente manter a mesma temática — por exemplo, eu gosto de laranjas e, por isso, comprarei uma bicicleta laranja com folhinhas verdes saindo do guidão — não é porque eu aproximei o visual da minha bicicleta do visual de uma laranja que agora eu posso dar uma mordida nela e me alimentar caso fique com fome. Mesmo que qualquer pessoa olhe para minha bicicleta e fale “olha só, ela parece com uma laranja”, ninguém em sã consciência vai tentar roubá-la para fazer um suco, porque ainda que tenha diversos elementos inspirados em uma laranja, ela continua sendo uma bicicleta — algo completamente diferente, que não possui a mesma função da fruta e que, por isso mesmo, não pode ser julgada por não possuir as mesmas propriedades de uma fruta.

Fazer uma adaptação de uma mesma obra para diferentes mídias é igual a criar uma bicicleta que se pareça com uma laranja: por mais que tente se aproximar daquilo que te serviu de inspiração, sua bicicleta adaptada como laranja nunca será uma laranja, porque — pasmem! — laranjas são diferentes de bicicletas. E essa é uma realidade que parece escapar de muitas pessoas que comentam sobre adaptações: livros são diferentes de filmes, que são diferentes de séries, que são diferentes de peças de teatro. Assim como uma pessoa pode falar facilmente que “eu gosto mais de laranjas do que de bicicletas”, porque uma ordem de preferência não exige um pareamento lógico entre os elementos, é totalmente possível dizer que se prefere, por exemplo, os livros de Harry Potter aos filmes de Harry Potter. Mas é comum vermos uma confusão entre ordem de preferência e ordem de qualidade, e muitas pessoas usam “o livro é melhor que o filme” para indicar que preferem um ao outro, como se ambas as frases quisessem dizer a mesma coisa.

Infelizmente elas não dizem, e esse é o motivo de muitas brigas nas redes sociais: pessoas achando que dizer que prefere comer uma laranja a possuir uma bicicleta é a mesma coisa que colocar uma laranja e uma bicicleta lado a lado e julgar ambas pela capacidade de servir de alimento. E esse é um problema também ao se criticar obras que são adaptações de algo, pois muitos esperam que o crítico faça esse mesmo tipo de comparação, quando na verdade cada uma das obras devem ser vistas sob o seu o seu próprio prisma.

E, claro, esse é um problema que também existe em Good Omens.

E agora, para algo completamente diferente

Baseado em Belas Maldições: As Justas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa, a série Good Omens é, assim como o livro, um conto satírico sobre o apocalipse cristão, cheio do humor nonsense que tem sido uma característica da comédia britânica desde que Douglas Adams lançou O Guia do Mochileiro das Galáxias e Eric Idle, Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin e Terry Jones iniciaram o grupo humorístico Monty Python. Mas, como eu já expliquei na introdução, uma série de TV não é um livro - e Good Omens não é uma exceção à regra, pois é uma série de TV, e não um livro.

Ainda que replique praticamente todos os personagens, eventos e narrativa do mesmo modo e na mesma ordem que eles são narrados nos livros, há uma diferença muito grande e clara entre ambos que, ainda que no geral tenham os mesmos personagens, fazendo as mesmas ações que criam os mesmos eventos e concluem no mesmo final, tanto o livro quanto a série são duas histórias completamente diferentes.

Em Belas Maldições (o livro), a história central é uma paródia do apocalipse bíblico, onde o personagem principal é o Anticristo, e a narrativa principal é sobre como um erro no parto da criança — que a fez ser criada por uma família comum do interior da Inglaterra, e não na família tradicional de satanistas que se estava previsto — fez com que o próprio Anticristo não tivesse interesse nenhum em criar o Apocalipse para o qual foi gerado, mostrando aquele conflito típico entre pais e filhos em que os pais planejam todos os passos de o que seu filho vai estudar, treinar e desenvolver para se tornar um profissional extremamente qualificado na profissão escolhida já antes mesmo do nascimento — e se esquecem de perguntar para a criança se ela concorda ou não com todo esse planejamento.

Todo essa narrativa continua presente na série Good Omens, mas aqui ela se encontra em segundo plano. Ao contrário do livro, o tema principal da série de TV não é ser uma paródia do Apocalipse bíblico — esse é apenas o cenário que serve como fundo para toda a ação —. mas a amizade entre o anjo Aziraphale e o demônio Crowley através dos séculos e como essa amizade fez com que duas entidades que deveriam ser inimigas descobrissem muito mais coisas em comum entre si do que com seus pares.

E a escolha de inverter essas narrativas na série — ou seja, colocar a amizade entre o anjo e o demônio como fator principal, e tornar a narrativa apocalíptica como pano de fundo — foi uma escolha do próprio Neil Gaiman, um dos autores do livro que deu origem à série, para permitir que a Amazon fizesse uma adaptação da obra. Isso porque Belas Maldições é um dos livros mais queridos da carreira de Gaiman por ter sido o único que teve a oportunidade de escrever junto ao seu grande amigo (e já falecido) Terry Pratchett. Gaiman já havia recebido diversas propostas para adaptar a obra para a TV ao longo dos anos, e negado todas. Para Gaiman, a adaptação de Belas Maldições não deveria ser apenas uma releitura da história que eles haviam escrito juntos, mas uma ode à amizade dos dois — algo que se tornou ainda mais relevante com a morte de Pratchett em 2015.

E foi essa a oportunidade que a Amazon ofereceu a ele, e foi esse o único motivo de, dessa vez, ele ter topado. Ao colocar a amizade de Aziraphale e Crowley em primeiro plano (ambos magistralmente interpretados por Michael Sheen e David Tennant), a série se torna, ao mesmo tempo, uma adaptação não apenas do livro escrito pelos dois romancistas, mas também da amizade que os uniu por todos esses anos.

O anjo Aziraphale, interpretado por Michael Sheen (Imagem: Amazon)

Conhecido por ter criado o universo fantástico de Discworld, ao longo de toda sua vida Terry Pratchett era, assim como o anjo Aziraphale, uma criatura baseada na disciplina e na ordem. Pratchett dedicou toda a sua carreira apenas para a escrita, tendo publicado histórias infantis, contos e principalmente os livros da série Discworld, na qual publicou 41 títulos entre 1983 e 2015. Pratchett era um escritor disciplinado como poucos, e há uma anedota que definia não apenas a forma como ele escrevia seus livros, mas também ele como pessoa: todos os dias, o autor se sentava em seu escritório e só saía de lá quando tivesse escrito pelo menos 500 palavras do que quer que estivesse trabalhando. E, caso algum de seus livros chegasse ao fim antes de terminar as 500 palavras diárias, ele finalizava o manuscrito, colocava uma nova folha em branco em sua máquina de escrever, e começava a escrever o próximo livro, só parando quando completasse ao menos as 500 palavras de sua rotina diária.

E isso não mudou nem mesmo quando ficou doente: em 2007, Pratchett foi diagnosticado com um tipo raro de Alzheimer em que não há perda de memória, mas cria-se um enorme ruído entre o que se pensa e o que se comunica. De acordo com os médicos, conforme a doença progredisse, ele continuaria dotado de todas as suas capacidades mentais internas. Mas, na hora de se comunicar — fosse verbalmente ou através da escrita — a palavra formulada pelo seu cérebro em pensamento não seria a mesma enviada por ele para a comunicação externa, o que significaria que o autor pensaria em uma coisa e falaria — ou escreveria — algo completamente diferente daquilo que pensou — e mesmo sabendo que estava errado, não poderia fazer nada sobre isso. Esse tipo de doença degenerativa (que, ironicamente, parece ser o tipo de doença que o humor negro de Pratchett escolheria para abater sobre si mesmo em alguma de suas histórias) poderia significar o fim da carreira para qualquer escritor, mas a disciplina celestial de Pratchett o fez superar todos esses obstáculos e, mesmo depois de ser diagnosticado com Alzheimer, ele ainda publicou mais seis livros — o último deles finalizado meses antes de sua morte, quando a doença já estava em um estado tão avançado que ele praticamente não conseguia mais se comunicar com ninguém.

O demônio Crowley, interpretado por David Tennant (Imagem: Amazon)

Ao mesmo tempo, a figura do demônio Crowley é um claro paralelo à Gaiman, cuja carreira é marcada pelo caos e pelo sucesso que sempre teve em tentar coisas diferentes. Assim como Crowley se destaca dos outros demônios por conta de seus planos nada convencionais em seduzir as almas dos mortais para o inferno, o mesmo pode ser dito da carreira de Gaiman como escritor: ele se tornou um dos maiores autores de quadrinhos do último século ao quebrar todas as convenções da mídia e criar a série Sandman, assim como também se tornou um dos maiores escritores de fantasia vivos ao quebrar as convenções do gênero e escrever obras magníficas como Deuses Americanos, Stardust e Coraline. Assim como a vida de Crowley é regida pelo caos, também o é a de Gaiman, que começou como contista, se tornou quadrinista, depois romancista, passou a escrever roteiros de cinema e, agora, tem dedicado seus últimos anos a trabalhar a adaptações de suas obras para a TV - além de Good Omens, Gaiman também atua como consultor na adaptação de Deuses Americanos e na que a Netflix está preparando para Sandman.

Assim como Crowley e Aziraphele, Gaiman e Pratchett são a antítese um do outro. Enquanto a disciplina e a rotina definiram Pratchett como artista, o caos faz parte do processo de escrita de Gaiman. Em diversas entrevistas e ensaios ele já revelou que muitas de suas melhores histórias, principalmente na época que escrevia Sandman, foram escritas de véspera, faltando apenas algumas horas para a entrega combinada com seu editor — porque, como qualquer um que trabalhe escrevendo sabe, a maior musa de qualquer autor é a aproximação perigosa da data limite, que te obriga a parar de procrastinar e passar a escrever de verdade.

Ilustração dos escritores Neil Gaiman (à esquerda) e Terry Pratchett (à direita) (Imagem: BBC Radio 4)

Gaiman também não tem muita disciplina na hora de escrever suas histórias, e o processo de escrita do autor é bem parecido com o modo como Crowley leva a vida: cria-se um plano inicial e a partir daí vamos descobrindo para onde ele irá levar. Uma das histórias mais interessantes desse processo foi quando ele estava escrevendo Os Filhos de Anansi e em determinado momento largou o livro durante três meses porque ficou chocado pela morte de um personagem. E ele fala isso sem ironia: a ideia dele durante toda a concepção do livro nunca tinha sido de matar aquele personagem, mas as ações delas foram se desenrolando de tal maneira que, em certo ponto, ele soube que aquele personagem ia morrer, e ficou realmente chocado com isso. Chocado, mas não surpreso: como alguém que escreve sem nenhum planejamento sobre como a história deve terminar e que espera que as personagens dela o levem até o derradeiro final, aquela não era a primeira vez — e nem seria a última — que o caos de seu método o levaria para desfechos totalmente inesperados e imprevistos.

Assim como Aziraphale e Crowley, Pratchett e Gaiman eram muito diferentes entre si: Pratchett era o típico senhor de meia-idade que mora no campo com a família, Gaiman o punk de vinte e poucos anos que se veste apenas de preto e todo final de semana vai curtir um cover de Ramones no pub mais próximo. E, mesmo tão diferentes, os dois perceberam que compartilhavam entre si o mesmo amor pela escrita, pelo gênero de fantasia e pelo humor sarcástico e nonsense, e fizeram disso a base de uma justa e precisa amizade. Depois da morte do amigo, Belas Maldições passou a ter um significado muito mais profundo para Gaiman, e era esse significado que o autor gostaria de mostrar em uma adaptação: o de que às vezes é necessário o fim do mundo para descobrirmos quem realmente são as pessoas mais importantes em nossas vidas.

Olhe sempre pro lado bom da vida

Para uma série sobre o apocalipse, Good Omens é uma obra incrivelmente otimista. E, em um mundo cada vez mais dividido, uma produção sobre uma amizade que resiste ao fim do mundo é exatamente o tipo de coisa que precisamos assistir.

No fim, tudo se resume ao que você prefere se apegar: a única coisa que tanto os colegas anjos de Aziraphale quanto os colegas demônios de Crowley tinham em comum entre si era o ódio que cultivavam da outra facção — um ódio que não tinha exatamente um motivo, era um ódio por tradição, por “ser sempre assim”, e que era tão incutido em suas sociedades que fez com que perseguissem seus próprios pares por conta deles se recusarem a participar desse ódio gratuito e sem sentido.

Enquanto isso, o que juntou Aziraphale e Crowley foi o amor pela humanidade e pelo estilo de vida que eles levavam fazendo parte dela — amor esse que os tornou párias entre os de sua espécie. Mas o fim do mundo os ajudou a perceber que eles mais nada tinham a ver com os de sua espécie, e que não havia nenhum problema serem expulsos dessas comunidades se isso significasse viver em harmonia entre aqueles com os quais realmente se importavam.

Assim, Good Omens não é apenas uma releitura do livro escrito por Neil Gaiman e Terry Pratchett, mas uma adaptação que é, ao mesmo tempo, uma ode à amizade dos dois e um lembrete de que tanto o amor quanto o ódio podem servir para unir as pessoas, embora apenas um deles irá ajudar a construir um mundo melhor. E, com tudo o que tem acontecido no mundo nos últimos anos, ela pode nos ajudar a recordar de que sempre vale a pena escolher o amor sobre o ódio, mesmo que isso signifique deixar para trás tudo aquilo que, por tradição, deveria se sentir compelido a defender sem se perguntar o porquê.

Good Omens é uma minissérie produzida em parceria entre o canal inglês BBC Two e a Amazon, e todos os seis episódios da série já estão disponíveis no Amazon Prime Video.

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