Crítica | American Gods ainda é uma das produções mais belas e necessárias da TV

Por Rafael Rodrigues da Silva | 15 de Junho de 2019 às 15h10

Nos últimos três anos, a Amazon vem investindo pesado no Prime Video para tentar se sobressair principalmente à Netflix. E uma das maiores apostas da empresa tem sido no gênero de fantasia — prova disso é que a aquisição da licença para produzir a série de O Senhor dos Anéis fez com que o Prime Video passasse a ser pensado com carinho entre os fãs do gênero, que possuem poucas opções de qualidade sendo oferecidas para consumo na TV e em streamings. Mas, bem antes de anunciar o acordo para produção de séries na Terra Média, a Amazon já havia dado sinais de que iria apostar forte nesse gênero ao se aliar a Neil Gaiman.

Gaiman é, atualmente, o maior escritor de fantasia vivo de acordo com a crítica, e basicamente desde que entrou no mercado tudo que ele tem feito é ganhar prêmios. Uma de suas primeiras obras é, também, talvez, a sua mais conhecida: a graphic novel Sandman, que praticamente revolucionou o modo de se pensar uma história em quadrinhos e é considerada de forma unânime pela crítica como uma das cinco melhores de todos os tempos.

O sucesso impulsionou Gaiman a continuar escrevendo para as mais diferentes mídias, e em cerca de 40 anos de carreira o autor já publicou graphic novels, livros, coletâneas de contos, roteiros de filme e até mesmo um jogo de videogame. Participar da produção de uma série era uma das poucas coisas que ele ainda não tinha feito, e a parceria com a Amazon permitiu não apenas que o escritor colocasse isso em seu currículo, mas também garantir para o Prime Video uma das melhores séries de todo o seu catálogo: American Gods (Deuses Americanos).

Confronto de gerações

Ian McShane interpreta Mr. Wednesday, que é a personificação do deus Odin (Imagem: Starz)

Publicado em junho de 2001, Deuses Americanos é provavelmente o livro mais conhecido e aclamado de Gaiman, e foi um dos poucos a vencer tanto o prêmio Nebula quanto o Hugo (os dois mais prestigiados prêmios para livros do gênero de fantasia e ficção científica) no mesmo ano na categoria de “Melhor Romance”.

Como todas as obras do autor, Deuses Americanos é, ao mesmo tempo, sobre seres sobrenaturais e fantásticos e sobre as mais latentes questões da vida humana. Através do protagonista Shadow Moon, somos introduzidos em um mundo onde deuses caminham livremente sobre a Terra e vivem suas vidas tão banais quanto a de qualquer ser humano, e é nesse mundo de extremos, onde uma mesma personagem pode ser um assassino lendário e a atendente de um café de beira de estrada, que somos confrontados com questões complexas presentes em nossas vidas reais.

Um ponto que Deuses Americanos trabalha é a questão da imigração, que é importante já no próprio cenário. A história se passa dentro dos Estados Unidos, onde deuses de todos os lugares do mundo dividem espaço nas cidades com os humanos. Esses deuses foram trazidos pelos imigrantes, que, ao saírem de seus continentes natais e se mudarem (ou, no caso dos negros que vieram como escravos, serem forçosamente levados) para a América, levaram consigo suas crenças e, assim, seus deuses. Tanto o livro como a série nos lembram de algo que, em 2019, muitas pessoas — inclusive políticos eleitos — querem ignorar: que no continente americano basicamente não há, hoje, uma separação entre “verdadeiros americanos” e imigrantes. A América é um continente de imigrantes, e os “verdadeiros americanos” foram chacinados a partir do momento que o primeiro navegador europeu botou os seus pés aqui.

E esses imigrantes trouxeram com eles não apenas seus pertences e suas esperanças por uma vida melhor, mas também suas crenças — seus deuses. No mundo de Deuses Americanos, os deuses são seres imortais desde que as pessoas acreditem neles, mas são tão mortais quanto qualquer um a partir do momento que essa crença some com o passar das gerações. A ideia da crença — de que algo só existe porque acreditamos na existência desse algo — é outro tema que é sempre retomado pela história, e é usado com maestria para explicar o surgimento dos Novos Deuses.

O centro dessa história é o aparentemente inevitável conflito entre os Antigos Deuses (aqueles que a gente conhece dos mais diferentes panteões, como Odin, Anansi, Bilquis, Czernobog, Loki, entre muitos outros) e os Novos Deuses, os Deuses do Mundo contemporâneo, como o Mr. World (uma entidade criada pela crença conspiratória da existência de grupos como Nova Ordem Mundial e Illuminati, de que existe uma única pessoa controlando os governos do mundo por trás dos panos), Media (criada a partir da crença de que a imprensa é um inimigo e que tudo o que ela faz é lavagem cerebral nas pessoas), The Intangible (surgido da crença de que a economia é uma organismo “vivo” que não precisa ser regulado por ninguém, sendo a personificação da Mão Invisível do Mercado) e Technical Boy (o mais novo e que rapidamente vem se tornando o mais poderoso dos deuses, criado da crença de que a tecnologia — e, principalmente, a internet — pode resolver todos os problemas da humanidade).

É para o meio desse conflito que o protagonista Shadow Moon é sugado.

Os buracos do caminho

Ricky Whittle interpreta o protagonista Shadow Moon (Imagem: Starz)

Assim como o livro é dividido em três atos que informam as diferentes maneiras de como Shadow interage com a descoberta dessa camada mágica do mundo, a série também deixa claro que seguirá essa mesma estrutura. Enquanto na primeira temporada vimos um Shadow aos poucos deixando o ceticismo de lado e construir a compreensão de que os deuses são reais e vivem no mundo ao lado dos humanos, na segunda temporada ele mergulha no mundo dos deuses para entender melhor o que acontece ali, descobrindo que eles não são exatamente aquilo que pensava e que podem ser muito mais cruéis do que aparentam.

Em tempos de líderes como Trump e Putin, é possível entender a relação de Shadow com Mr Wednesday — que é o deus nórdico Odin — como uma metáfora do cenário político atual. Assim como todo líder populista, Mr. Wednesday é extremamente carismático e parece saber o que está fazendo — mas, apenas quando Shadow começa a realmente prestar atenção, percebe que esse líder é na verdade um golpista que manipula as pessoas e as situações para os seus próprios ganhos. Como acontece com muitos de nós, Shadow já havia apostado suas fichas em Wednesday e jurado lealdade nos planos de guerra do deus nórdico, e a dúvida que paira sobre Shadow ao fim da temporada é: teria ele já se “vendido” tanto que a única escolha para ele é morrer abraçado aos planos de Odin, independentemente do quão pior eles pareçam quanto mais vão sendo revelados, ou ainda há tempo de voltar atrás em suas escolhas e fazer aquilo que ele acredita ser o certo?

O confronto entre gerações é um dos pilares narrativos de American Gods (Imagem: Starz)

Na segunda temporada de American Gods, Shadow é obrigado a confrontar o maior dilema de sua história pessoal. Durante toda a vida, ele nunca acreditou em seu próprio potencial e sempre foi alguém que seguia o sonho que outras pessoas tinham para ele — o de sua mãe de ser um filho exemplar, o de sua esposa de ser o marido perfeito, o do diretor da penitenciária de ser um detento modelo, o de Mr. Wednesday de ser o seu braço direito na guerra contra os Novos Deuses. Nesta segunda temporada, ele é obrigado a confrontar até onde essa decisão de se diminuir a favor de outras pessoas o levou, e se esse foi mesmo o melhor caminho para traçar durante a vida ou se está na hora de descobrir quem é o Shadow de verdade, e não aquele que os outros esperam que ele seja.

Como personagem, Shadow é o milenial quintessencial. Ainda que ele não tenha tido uma vida considerada fácil — criado por uma mãe solteira sem nunca conhecer o pai, passado grande parte de sua adolescência em um orfanato, e perdido dez anos de sua vida adulta na prisão —, como um bom milenial, o personagem chegou aos seus 30 e poucos anos sem exatamente saber quem é, sem entender qual é o seu papel na sociedade e sem perspectivas de que pode ter um futuro digno.

O mundo o rejeita principalmente por ser um negro ex-presidiário, e isso é tudo que ele precisa para saber exatamente quem é, mesmo que o próprio personagem não saiba. E, mesmo no auge de sua vida adulta, o homem ainda depende da ajuda de pessoas de uma geração mais antiga para garantir o seu sustento, em um emprego que ele nem queria ter de verdade, mas que se vê fazendo mais do que a função para o qual foi contratado, enquanto tem que escutar de seu chefe, que o manipula a toda momento, dizendo o quanto ele é ingênuo. A experiência de Shadow, em seu âmago, não é muito diferente da experiência de muitas pessoas em seus 30 e poucos anos, que precisam trabalhar num emprego que mal lhe paga as contas enquanto escuta a sociedade falando como ele faz parte de uma geração preguiçosa, que não compra carros ou casas ou tem filhos, quando muitos — tidos como bem-sucedidos e inteligentes — nem sabem se vão conseguir pagar o almoço. E o dilema em que ele se encontra no fim da segunda temporada é o mesmo que todo milenial tem passado na última década, de começar a compreender que o real problema não está nele como pessoa, mas no fato de tantas tradições e códigos morais da sociedade não mais fazerem sentido.

Sob nova direção

A Nova Media de Kahyun Kim é uma das poucas novidades positivas desta segunda temporada (Imagem: Starz)

Ainda que a segunda temporada de American Gods se aprofunde nas questões do confronto geracional, ela não o faz sem problemas. Com as saídas de Bryan Fuller e Michael Green da função de showrunners logo após o fim da primeira temporada, era esperado que a série sofresse alguns problemas. E, ainda que eles tenham sido menores do que se poderia esperar, não foram inexistentes.

Mesmo que Craig Cegielski tenha se esforçado para manter a identidade visual criada por Fuller, é possível notar como a saída do aclamado diretor influenciou nas decisões da segunda temporada. Ainda que a história tenha se mantido bastante fiel aos livros e, no geral, continue sendo uma das melhores narrativas de fantasia da TV, há uma certa falta de momentos visualmente marcantes nessa segunda temporada, o que faz com que a série perca um pouco da qualidade mostrada quando estreou. Mesmo que o visual ainda seja extremamente bonito no geral e consiga manter com perfeição a paleta de cores definida por Fuller para este mundo, há uma falta de cenas não apenas belas, mas poéticas — cenas essas que ajudaram a destacar American Gods das outras produções de sua época.

Ainda que mantenha o mesmo padrão estético, a segunda temporada não tem nenhuma cena como a dos vikings chegando na América e sendo recebidos por milhares de flechas de nativos escondidos na floresta, ou a imagem do Jesus Mexicano sendo morto por um grupo de patrulheiros da fronteira, que carregam rosários em suas mãos e atiram nele com espingardas gravadas com passagens bíblicas. A imagem dele estirado no chão, de braços abertos, com as chagas nas palmas de suas mãos causadas por balas de fuzil — uma crucificação atualizada para os tempos atuais — é uma das mais bonitas e críticas já criadas para a TV, e esse tipo de composição é uma marca característica de Bryan Fuller. Assim, por mais que tente imitar a primeira temporada, esta segunda sofre da falta desse gênio, e não há nenhuma cena dessas memoráveis.

A saída de Fuller por divergências criativas também significou a saída de Gillian Anderson, que na primeira temporada fez um trabalho fenomenal como Media. Com a saída de Anderson, a escolha dos criadores para mudar a atriz que interpreta a personagem foi também mudar o personagem em si, mostrando uma evolução da Media para Nova Media. Interpretada por Kahyun Kim, a Nova Media é surpreendentemente uma das melhores partes da segunda temporada. Assim como Shadow é a quintessência das disputas internas do milenials, a Nova Media é um reflexo da faceta mais superficial e narcisista da geração, e seu reflexo como uma deusa das redes sociais consegue trazer toda aquela aparência de positividade e modernidade como uma forma de esconder os mesmos discursos segregacionistas e elitistas de sempre. Substituir uma atriz da qualidade de Gillian Anderson, e uma personagem extremamente complexa, não era uma tarefa fácil, mas Cegielski conseguiu acertar em cheio com a ideia da Nova Mídia.

Mas ainda que tenham acertado com a Nova Mídia, outras novas ideias não pareceram ter feito tão bem à série. Ela ainda usa o cenário de deuses para fazer diversas críticas sociais relevantes — principalmente ao modo como os negros são tratados, onde o Anansi de Orlando Jones continua dando show com seus discursos sobre a condição do negro da América —, mas, ao contrário da primeira temporada, que tentou atualizar os livros ao trazer para a TV o peso da crença no cristianismo, a segunda temporada foca apenas nos deuses esquecidos, deixando claro que os criadores querem fazer parte do nosso atual momento de debate de políticas públicas e perseguição a minorias, mas não querem arriscar mais ficar na mira de grupos religiosos por conta de algumas pessoas poderem se ofender com o modo como Jesus é retratado.

É uma decisão que faz muito sentido em termos de negócios, mas que, como narrativa, me deixa, pessoalmente, decepcionado, pois parece estranho você falar sobre uma guerra entre deuses onde a crença é, literalmente, a diferença entre viver e morrer para essas entidades e ignorar o único Deus que ainda possui uma base de fiéis estatisticamente relevantes no Estados Unidos atual.

Os deuses devem estar loucos

Assim como em sua primeira temporada, American Gods continua sendo uma das séries mais belas e confusas da TV. E, mesmo que tenha perdido a qualidade em alguns pontos, ela continua sendo uma das narrativas que mais se esforçam para explicar o mundo doido em que vivemos hoje — ainda que precise colocar uma nova camada de loucura nele para conseguir esse efeito.

As duas temporadas de Deuses Americanos já estão disponíveis de forma completa no Amazon Prime Video.

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