A febre dos reality shows e por que gostamos de "cuidar" da vida dos outros

Por Natalie Rosa | 28 de Fevereiro de 2020 às 16h50
Reprodução

Se você é um consumidor de programas de televisão, provavelmente você já se viu preso em algum reality show. Como a própria tradução literal diz, esses "programas de realidade" costumam mostrar pessoas reais em situações inusitadas, como procurar um novo amor, se descobrir um cantor ou cozinheiro, ou simplesmente estar confinado em uma casa com vários outros desconhecidos e câmeras por todos os lados.

Por mais que os reality shows sejam roteirizados e muitos dos acontecimentos dependem do desejo dos produtores, não há como negar que as pessoas acabam mostrando o máximo de sua vulnerbilidade nesses programas, atraindo a atenção do público que, muitas vezes, assiste com pedras na mão pronto para criticar.

Hoje, basta abrir a Netflix para encontrar reality shows sobre os assuntos mais inusitados possíveis, como o Vidrados, em que você acompanha uma disputa de quem é o melhor vidraceiro, o Peles em Guerra, campeonato de pintura corporal, ou ainda o Instant Hotel, em que proprietários de imóveis cadastrados no Airbnb disputam quem é o melhor anfitrião. Na televisão aberta, não é difícil entrar no Twitter ou Instagram e não ver comentários sobre o Big Brother Brasil ou MasterChef, por exemplo, em que pessoas comuns de repente estão expostas ao Brasil todo em seus erros e acertos.

Big Brother Brasil 20 (Reprodução/TV Globo)

Com a fórmula dos reality shows ainda funcionando — e nós ainda assistindo —, fica a dúvida sobre o que realmente nos chama a atenção nisso. Gostamos de consumir um entretenimento que não tem muito a acrescentar, dependendo do ponto de vista? Gostamos de "cuidar" da vida dos outros e nos comparar? Seja qual for a explicação, está dando certo.

Mas o Canaltech foi atrás de entender essa fórmula que já vem nos acompanhando há anos na televisão, não só mundial como brasileira, e trouxemos algumas informações interessantes.

Qual a explicação científica e psicológica para gostarmos de reality shows?

De acordo com um artigo publicado no Psychology Today, existe uma relação bastante direta entre assistir a um reality show e o voyeurismo. O termo, que designa a "desordem sexual que consiste na observação de uma pessoa no ato de se despir, nua ou realizando atos sexuais e que não se sabe observada", ou ainda a "curiosidade mórbida com relação ao que é privativo, privado ou íntimo", segundo respostas do Google.

Comparar o consumo destes programas de televisão com o termo voyeurismo parece intenso, exagerado e um tanto quanto perturbador, mas é o que acontece de fato. Pensando no Big Brother, por exemplo, que tem edições em vários países, temos acesso às câmeras presentes em uma casa 24 horas por dia, sem interrupções.

De Férias com o Ex (Reprodução: MTV Brasil)

Assistimos sem desgrudar os olhos da tela os participantes fazendo as coisas mais comuns do dia a dia, como lavar louça ou a roupa, se alimentar, tomar banho e conversar, por exemplo. Se assistir a isso passa uma sensação de prazer e saciação da curiosidade, nada mais justo do que fazer essa comparação com o voyeurismo.

O artigo cita ainda uma pesquisa chamada I Am What I Watch: Voyeurism, Sensation Seeking, and Television Viewing Patterns (Eu sou o que eu assisto: voyeurismo, busca de sensações e padrões de televisão), de Zhanna Bagdasarov, que descobriu que as pessoas com classificações altas de voyeurismo são as que preferem assistir reality shows a outros programas.

Outra pesquisa de Lemi Baruh, chamada Mediated Voyeurism and the Guilty Pleasure of Consuming Reality Television (Voyeurismo mediado e o prazer culposo de consumir reality shows), encontrou uma vantagem positiva entre assistir aos programas de realidade na TV e o voyeurismo. Segundo o estudo, assistir reality shows é uma forma segura e acessível de ter acesso à experiências e informações que, de outra forma, seriam ilegais e inacessíveis.

MasterChef Brasil (Imagem: Reprodução/Band)

Sendo assim portanto, assistir a reality shows não significa, necessariamente, que uma pessoa seja adepta do voyeurismo, que em sua maioria envolve a questão sexual. Como diz Bagdasarov, indivíduos que possuem baixos níveis de interação pessoal e mobilidade são mais propensos a assistir aos programas não só para suprir seus desejos voyeurísticos, como também para compensar a necessidade de companhia.

Devido aos diferentes tipos de participantes, dos mais diferentes países do mundo, acaba sendo, então, visível a diferença entre assistir e espiar, como nota o artigo do Psychology Today.

O Canaltech conversou com a psicóloga de análise comportamental Kimberly Ferreti Pereira, que contou que são vários os fatores que podem influenciar no gosto do público pelos reality shows, dizendo que pode estar relacionado à representatividade, pois um entretenimento com "pessoas reais" acaba trazendo um outro tipo de interesse.

RuPaul's Drag Race (Imagem: Reprodução)

"Outro ponto pode ser a alienação, que nos mantém afastados de nós mesmos e ligados ao mundo. Algumas pessoas não conseguem, não querem ou até não foram ensinadas a lidar com suas questões de vida, e alienar-se ao consumir a vida dos outros na tela de uma televisão ou celular parece suprir esse vazio", destaca a profissional.

O que diz uma especialista no assunto?

O Canaltech conversou ainda com Maura Martins, jornalista, mestre e doutora em comunicação, e professora-pesquisadora dos cursos de jornalismo e publicidade e propaganda.

Espectadora assídua de programas de televisão, como parte de suas pesquisas, a profissional diz se sentir atraída pelos reality shows devido à imprevisibilidade dos formatos, citando a vigésima edição do Big Brother Brasil como exemplo.

"Tudo é imponderável: nunca sabemos quais as fórmulas exatas para o sucesso, mesmo quando os programas se desgastam (vide, por exemplo, a edição ruim de BBB 19 e agora essa de BBB 20 que parece ter acertado em tudo). Além disso, como a maior parte dos espectadores, sou atraída pela perspectiva de ver o 'real' que emerge da convivência dos indivíduos, mesmo que seja por um breve segundo", conta.

Big Brother Brasil 20 (Reprodução/TV Globo)

Sobre assistir aos reality shows ser uma forma de "cuidar" da vida dos outros, Martins diz que ao mesmo tempo em que esses programas são sem significado, eles podem ser ainda mais que isso, ressaltando que a matéria-prima destes conteúdos são, sem dúvida, a bisbilhotice alheia. A educadora diz ainda que essa característica é inata do ser humano, que está sempre curioso para ver "como as pessoas vivem, convivem, reagem e qual é a sua essência".

Maura vai mais além: "Lembro, por exemplo, que essa premissa – a de querer ver a vida do outro – é o que fundamenta a estética realista na literatura. E ninguém acharia que obras realistas clássicas, como as de Balzac ou Flaubert, são apenas entretenimento. Por isso, os que acham que se trata de um entretenimento descartável ou inútil estão mais julgando o veículo (a televisão) do que o conteúdo em si dos programas (o cotidiano)", ressalta.

Questionamos Martins sobre o que pode ser absorvido com esses conteúdos, e se os reality shows são mais que uma forma de alienação — falamos aqui sobre a alienação sem ser, necessariamente, algo negativo — ou se é possível retirar informações úteis sobre a vida em sociedade. A profissional respondeu que o BBB, por exemplo, é formado pela convivência entre pessoas que estão em uma sociedade, contando ainda que a edição deste ano vem trazendo à tona questões que, nos dias de hoje, vêm sendo bastante debatidas, como o machismo e sexismo. "Cada temporada, ao que me parece, acaba refletindo um pouco os debates do seu tempo – o que, é claro, também é estrategicamente reforçado pela edição do programa", completa Maura.

A pesquisadora finaliza ainda dizendo que ser popular não significa ser algo ruim, e que esses programas que mostram a realidade fazem sucesso por falarem sobre nós, como indivíduos em sociedade. "No BBB 20, há muitos debates que estão sendo levantados e que podem reverberar em outros espaços, como na família, no trabalho, mesmo na escola. Ano passado, havia uma tônica interessante voltada à questão do racismo, e nesse ano tem-se falado muito desta 'disputa' entre homens e mulheres", finaliza.

The Voice (Imagem: Reprodução)

O consumo em excesso dos reality shows pode ser nocivo à saúde mental?

Para Pereira, o consumo de reality shows podem causar um sentimento de comparação com o que está sendo apresentando, pois muitas vezes os programas acabam expondo pessoas que possuem padrões difíceis de serem alcançados, principalmente físicos. "O tempo que a pessoa destina para isso também pode ser considerado um fator a se analisar. Deixar muitas coisas da própria vida de lado para se dedicar a isso pode ser nocivo também", completa.

Martins diz também acreditar que os reality shows podem ser nocivos aos espectadores quando há um grau de envolvimento maior do que deveria, levando o seu conteúdo tão a sério a ponto de criar fã-clubes e votações em massa, por exemplo.

Em relação ao conteúdo exibido, que mostra o comportamento humano explícito, com seus erros e acertos, a psicóloga afirma que pontos negativos e positivos podem ser absorvidos deste conteúdo, e que isso vai depender da realidade de casa pessoa. "A forma com que enxergamos a 'realidade' é moldada por nossas vivências e experiências de vida. Assim como o que eu considero positivo pode não ser assim para outras pessoas. O posicionamento que a mídia dá para as coisas também influencia nesse positivo e negativo", conclui.

 O que podemos, então, tirar dos reality shows?

Entendemos que a vontade de acompanhar a vida dos outros acaba sendo natural do ser humano, como uma curiosidade despertada como consequência da sociedade em que vivemos. Alienar-nos e assistir a conteúdos que, na teoria, não nos acrescentam culturamente, pode acabar sendo uma surpresa e trazer questões sobre a nossa postura como seres humanos.

Além disso, não é de todo mal se alienar e focar na vida de outras pessoas como forma de entretenimento, visto que a vida é tão dura que qualquer forma de escape na televisão, cinema ou literatura é bem-vinda.

Fonte: Com informações de: Psychology Today

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