5 séries inesquecíveis que nunca ganharam um Emmy

Por Rafael Rodrigues da Silva | 23 de Setembro de 2019 às 13h40

Neste domingo (22), a 71ª edição do Emmy colocou todo o mundo do entretenimento em pausa e todos os olhos se voltaram para a premiação em Los Angeles, onde foram premiados os melhores atores, atrizes e séries de TV do último ano. A cerimônia deste ano não trouxe muitas surpresas, com Game of Thrones levando 12 prêmios ao todo e Fleabag fazendo “a rapa” na categoria de comédia, garantindo não só o prêmio de “Melhor Série de Comédia” como também os de “Melhor Atriz em Série de Comédia” e “Melhor Roteiro em Série de Comédia” para sua criadora, roteirista e protagonista Phoebe Waller-Bridge.

Mas, para cada vencedor no Emmy, há pelo menos uma dúzia de séries de qualidade que não levam a estatueta para casa. Assim, o Canaltech lista cinco séries inesquecíveis que nunca foram premiadas com um Emmy, embora algumas tenham até mesmo influenciado toda uma mudança cultural e na forma como pensamos uma produção para TV.

1. Star Trek/Jornada nas Estrelas

Poucas séries são tão importantes para a cultura geral quanto Star Trek. Responsável por impulsionar nos Estados Unidos e em todo o mundo toda a cultura geek que hoje é a dominante em todas as áreas do entretenimento, a série original de Star Trek se tornou uma das raras produções a criar um impacto significativo na sociedade — por exemplo, mesmo quem não é fã dela sabe de quem falamos quando citamos “Spock”.

Apesar de ter entrado para a história da TV não apenas por seus personagens marcantes como também por alguns momentos únicos — como o primeiro beijo inter-racial da história da TV —, Star Trek nunca ganhou nenhum Emmy, nem mesmo os de categorias técnicas.

Não é como se a qualidade da produção não fosse reconhecida pela premiação: nos três anos em que foi transmitida (entre 1966 e 1969), a produção foi indicada 13 vezes, mas acabou não ganhando em nenhuma delas. Não há uma explicação exata porque Star Trek foi tão esnobada, mas acredita-se que rolou um certo preconceito do júri pelo fato de ser uma série de ficção científica e não um “drama sério” como os que costumavam (e ainda costumam) ser premiados.

Em um mundo onde Game of Thrones pode ser considerada como a melhor série de drama de um determinado ano, é possível que Star Trek tivesse muito mais sucesso na premiação. Mas, no final da década de 1960, só o fato de ser indicada para algo já poderia ser visto como uma vitória.

2. Sons of Anarchy

Criada por Kurt Sutter, a série sobre um clube de motoqueiros que vivem à margem da lei é considerada por crítica e público como um dos melhores dramas do final dos anos 2000. Ao longo das sete temporadas (2008 a 2014), somos levados a um mundo inspirado nas operações reais dos Hell’s Angels, um motoclube considerado uma das maiores organizações criminosas dos Estados Unidos.

Sons of Anarchy foca no drama de Jackson “Jax” Teller, o presidente do motoclube SAMCRO (Sons of Anarchy Motorcycle Club, Redwood Original) e a dificuldade dele de balancear a realidade de organização criminosa do grupo com os planos do pai falecido de transformá-los em um motoclube legítimo, que não dependesse do crime para obter seu sustento.

Sons of Anarchy é uma história de promessas quebradas, traição e encontrar seu lugar no mundo — o tipo de narrativa que o Emmy costuma premiar. Mas o tão esperado prêmio nunca veio: a série recebeu apenas seis nomeações (tendo mais temporadas do que nomeações ao Emmy) e não levou para casa nenhum dos prêmios. Ainda que tenha sido considerado como uma das melhores séries de seu tempo — principalmente nas três primeiras temporadas —, ela nunca recebeu indicações para qualquer categoria principal do Emmy, sendo lembrada apenas em categorias relativas à música de abertura, maquiagem e trabalho de dublês — e, mesmo assim, nunca ganhou em nenhuma delas.

3. The Wire

The Wire é um dos casos mais estranhos com relação ao Emmy: considerada pela crítica como uma das melhores séries de todos os tempos e umas das mais influentes no modo como uma série de TV é pensada, ela foi praticamente ignorada pelo Emmy durante toda sua existência.

Isso porque The Wire é quase que a romantização de um documentário. O foco da série não são os personagens em si, mas as relações de poder existentes em Baltimore, mostrando como o funcionamento da classe política, da imprensa e até mesmo da própria polícia impede qualquer esforço de acabar com os altos índices de criminalidade da cidade.

Ao contrário das séries de policial da época em que foi transmitida (entre 2002 e 2008), The Wire não fazia nenhuma questão de colocar os policiais como heróis do combate ao crime, mas apenas como engrenagens de um sistema em que eles não tinham poder nenhum para influenciar. Mesmo que o sucesso de público tenha sido apenas póstumo, ela sempre foi considerada como um sucesso de crítica, o que torna uma afronta o caso de, em seus seis anos de existência, só ter sido nomeada duas vezes ao Emmy — ambas por roteiro.

Há várias especulações sobre o motivo de isso ter acontecido, desde o fato de The Wire não ter grandes ligações com Hollywood e praticamente todos os atores da produção serem pessoas comuns da própria cidade, que não possuíam agentes ou eram filiadas aos sindicatos de atores de Hollywood; até o fato de a série não ter exatamente um momento icônico devido à sua natureza e foco nas disputas de poder, e a audiência que nunca foi exatamente grande durante os cinco anos em que ficou no ar.

Porém, também há um motivo muito mais polêmico que é citado por alguns críticos: o racismo inato na premiação do Emmy. The Wire era uma séria com uma grande quantidade de negros no elenco, e isso fazia com que os responsáveis por escolher os indicados para o Emmy deixassem ela de lado. Ainda que não seja possível provar essa afirmação — afinal, nunca ninguém do corpo de jurados do Emmy no início dos anos 2000 vai vir a público admitir isso — a tese de que possa haver um certo racismo na premiação tem uma certa base.

Ao analisar as premiações para Melhor Ator e Melhor Atriz em série de drama (que é onde competiria o elenco de The Wire), entre 1990 e 2019, é possível notar que, nesse período de 29 anos que somam 58 premiações, apenas cinco vezes um ator ou atriz negra recebeu o Emmy por seu trabalho (divididos em quatro prêmios entregues para atores e apenas um para atriz), sendo que três dessas cinco premiações aconteceram nos últimos quatro anos. Então, ainda que seja impossível provar que existia um certo racismo por conta de quem escolhia os indicados e ganhadores do Emmy, é fácil mostrar que, ao menos na categoria de série dramática, atores negros costumam mesmo ser deixados de lado.

4. Doctor Who

Assim como The Wire, é um enorme mistério o fato de Doctor Who nunca ter sido premiada com um único Emmy. A série original, que foi ao ar entre 1963 e 1989, nunca recebeu sequer uma única indicação, mas nesse caso é possível que tenha sofrido com o mesmo problema de Star Trek: rejeição pelo fato de ser uma produção de ficção científica.

Pode-se dizer que Doctor Who praticamente inventou a ficção científica na TV, sendo influência importante em tudo o que foi produzido após ele, incluindo gigantes como Star Trek e Star Wars. Mas, como a série original é de uma época em que o gênero ainda era visto como algo menor pela crítica, é possível entender porque ela teve tão pouco reconhecimento durante a sua época.

Mas difícil é entender porque o Emmy continua por não reconhecer a importância dela. Desde que retornou em 2005, Doctor Who já recebeu ao todo 373 nomeações das principais premiações do mundo — mas nenhuma delas do Emmy. A série já tem uma próxima temporada confirmada e sempre há chance de o ano que vem ser o ano em que Doctor Who será lembrada nas categorias internacionais da premiação, mas se isso ainda não aconteceu nos últimos 14 anos, as chances de ela ser lembrada agora pelo júri do Emmy não são das melhores.

Parks and Recreation

Uma das melhores séries de comédia desta década, Parks and Recreation utiliza a fórmula popularizada por The Office e a eleva para novos padrões, criando uma comédia situacional de local de trabalho como poucas.

Muito disso se deve pela qualidade de seu elenco e de toda a equipe envolvida. Produzida pelos mesmos criadores da versão americana de The Office, Parks and Recreation trazia um elenco estrelado "do futuro” (ou seja, atores que não eram tão conhecidos na época, mas que hoje são os principais nomes da TV e do cinema) como Amy Poehler, Chris Pratt, Aziz Ansari, Rashida Jones, Aubrey Plaza e Billy Eichner.

Durante os sete anos que ficou no ar (2009 a 2015), a série recebeu 14 indicações ao Emmy, mas acabou saindo do ar sem ganhar nenhum prêmio — ainda que seja considerada quase que unanimemente como uma das melhores comédias já criadas nos últimos 10 anos.

Apesar de sua importância, a série foi nomeada para a categoria “Melhor Comédia” em apenas dois anos: em 2011, quando perdeu para Modern Family, e em 2015, quando perdeu para Veep. Ainda que os críticos concordem que a nomeação em 2015 tinha sido mais pelo conjunto da obra, já que ela estava em uma última temporada muito aquém do que já havia apresentado, a derrota para Modern Family em 2011 é considerada pela crítica como a mais “pesada”, pois foi na época em que Parks and Recreation estava em seu auge criativo.

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