"Zoom fatigue": stress e esgotamento causados por home office têm nome

Por Luciana Zaramela | 01 de Julho de 2020 às 22h00
Junjira Konsang/Pixabay

Desde que a pandemia do novo coronavírus chegou ao Brasil, não tem sido difícil escutar reclamações de pessoas que estão vivendo em isolamento social, respeitando a quarentena e fazendo home office. Para manterem-se empregadas, muitas pessoas precisam transformar suas casas em locais de trabalho e adaptar suas rotinas de um modo completamente novo.

Você consegue imaginar a horda de profissionais que se enquadram no grupo de "home-officers" da quarentena? Muitos já conheciam a rotina do trabalho em casa, outros precisaram se adaptar parcialmente porque dividem a casa com outras pessoas — que, agora, também passam grande tempo compartilhando o ambiente. Já outros, estão vivendo um desafio sem precedentes.

Jornalistas, programadores, profissionais da área digital, vendedores, artistas, músicos, psicólogos, consultores de vendas, nutricionistas, professores e até médicos: o que hoje em dia é chamado por aí de "novo normal" tornou-se sinônimo de "matar um leão por dia", principalmente no caso de pessoas que têm muito compromisso em casa, além do trabalho. Como fica a cabeça dessa gente que precisa se organizar para fazer todas as tarefas do dia no mesmo lugar?

Como nossos cérebros estão reagindo ao trabalho remoto? (Imagem: Pixabay)

Esgotamento mental do home office

Para uma enormidade de profissionais, fazer home office é praticamente sinônimo de passar horas e horas em calls, termo que popularizou as videoconferências. Não é à toa que o Zoom, aplicativo de reuniões e conversas online usando voz e vídeo, explodiu durante a pandemia. E parece que, por mais acostumados que estivéssemos a esse tipo de ferramenta de trabalho, o quanto já participamos de calls online em nossas vidas, até antes da pandemia, ainda não foi o suficiente.

Não importa qual aplicativo você usa: Zoom, Hangouts, Skype, Houseparty, Instagram, Meet ou até mesmo o WhatsApp. Em tempos de trabalho remoto, usar a videoconferência se tornou essencial, e, algumas vezes, até passa dos limites. É chamada importante, é reunião com o conselho da empresa, é uma consulta online, é um bate-papo descontraído com amigos, é uma ligação para um ente querido... os contatos estão cada vez mais virtualizados e estão cobrando um preço alto do nosso cérebro: um novo tipo de esgotamento mental, já batizado de "Zoom fatigue" — termo que pegou emprestado o nome do app Zoom para ilustrar bem como fica nosso cérebro convivendo com tanta videoconferência.

Ficar encarando rostos nas telas por longos e longos períodos é exaustivo, independentemente de produção para aparecer na frente da câmera. E isso tem uma explicação psicológica: as pessoas, enquanto conversam virtualmente, estão completamente desprovidas de algo importantíssimo no dia a dia dentro dos padrões de normalidade: a linguagem corporal. As pistas que nosso corpo dá, ainda que não sejam nada verbais, fazem parte de uma fluidez natural da comunicação entre os seres humanos. E sem elas, a conversa fica mais engessada, mais quadrada e, consequentemente, exige mais energia dos participantes.

Segundo a psicóloga Sirlene Ferreira, "o corpo demanda descanso, relaxamento para se manter saudável. A exaustão reverbera no corpo de forma nociva, e é possível percebê-la na expressão corporal, na respiração, no olhar disperso... a exaustão altera o apetite e até mesmo causa insônia. Nas vídeoconferências, além da conversa engessada, tem a questão da falta de socialização pessoal, da troca de um abraço, de uma brincadeira que é comum acontecer durante as conversas pessoais ou reuniões. Isso, de uma certa forma, alivia o peso das responsabilidades e é muito necessário para nós, seres humanos".

A nossa postura, a maneira como gesticulamos, o tom das nossas vozes e até mesmo nossas manias enquanto trocamos ideia ou nos reunimos fisicamente com alguém, seja essa pessoa um executivo, um colega de trabalho ou um cliente, faz toda a diferença na comunicação. E tudo isso acontece de maneira muito natural, de forma que nosso cérebro não se desgasta, nem consome memória cognitiva para processar toda a linguagem corporal. No mundo virtual, como ficamos mais atentos a tudo que estamos falando e fazendo diante da câmera, gastamos uma boa quantidade de energia para monitorar isso. E é exatamente esse gasto que nos deixa tão cansados no fim do dia.

Chegou exausto(a) no fim do dia? Pois é, você não está só (Imagem: Pixabay)

Precisamos nos focar muito mais em contato visual e na escolha das palavras certas, além de criar e respeitar rituais que já são característicos de home office. No final do dia, a sensação que temos é de que estamos amarrotados e com as energias drenadas.

"Talvez as conversas online exijam mais da nossa concentração porque o ambiente é nossa casa — onde, na maioria dos casos, também temos cônjuges trabalhando, crianças brincando e até aulas acontecendo online, tudo ao mesmo tempo, no mesmo lugar. Elas demandam um excesso de concentração e autocontrole, que, antes, o próprio ambiente de trabalho já nos proporcionava. E neste momento, isso tudo acontece dentro de casa — um ambiente até então utilizado para o descanso e atividades em família", avalia Sirlene.

Problemas técnicos

Durante as chamadas de vídeo, outro inimigo nos ronda constantemente: o bug, ou problema técnico. Quando não é apenas um, presenciamos vários deles em uma só chamada, e não é raro participarmos de reuniões em que, independente de qual lado esteja o entrave, acontecem as mais variadas surpresas: o vídeo fica travando, a internet não anda lá muito bem, o microfone não responde, a pilha do mouse acaba, a latência é grande, o eco é exagerado, a imagem trava... tudo isso cansa nosso cérebro e nos deixa mais irritados, mesmo que não percebamos.

São coisas que atrapalham a fluidez de uma conversa natural, e que comumente acontecem no ambiente virtual. De acordo com o professor de aprendizado e desenvolvimento na Insead, para a BBC, "O silêncio cria um ritmo natural nas conversações da vida real. No entanto, quando ele acontece numa videochamada, você fica ansioso por conta da tecnologia". Isso deixa as pessoas que participam da reunião desconfortáveis.

Inclusive, estudiosos alemães publicaram uma pesquisa em 2014 na qual avaliam os efeitos dos "lags" nas conversas via voz ou via voz e vídeo. Por menores que sejam os atrasos, a impressão que eles causam é que as pessoas do outro lado da tela estão perdidas ou desinteressadas na conversa. Os acadêmicos concluíram que lags de 1,2 segundo ou mais já são suficientes para mexer com a percepção dos usuários envolvidos em um call.

Mais um dia, mais uma reunião...

Cara a cara com você mesmo

Você sabia que ficar se vendo o tempo todo durante uma conversa também gera stress? De acordo com um recente estudo executado por neurocientistas italianos, ficar encarando nossas próprias emoções, ao mesmo tempo em que conversamos por vídeo com outras pessoas, afeta nosso cérebro em níveis neuropsicológicos. Por nos policiarmos demais, causamos uma sobrecarga nos músculos da face para nos mostrarmos felizes, interessados ou preocupados — mesmo que não estejamos. No dia a dia natural, em uma conversa fluida, isso não faz parte do nosso rol de preocupações, pois não temos um espelho na nossa frente nos mostrando o tempo todo como estamos reagindo com nossa fisionomia àquela conversa formal ou informal.

A explicação científica para essa dose extra de ansiedade reside no fato de que, numa conversa natural, fora do vídeo, nosso cérebro está focado no processamento emocional da(s) pessoa(s) com quem estamos conversando, e só. Quando nosso próprio rosto aparece na jogada, há uma quebra desse processamento, já que estímulos relacionados a nós mesmos são mais relevantes para nós do que aqueles relacionados aos outros. Em outras palavras, nosso cérebro gasta mais energia pois há uma dissociação nos níveis de processamento emocional quando estamos nos vendo, ao mesmo tempo em que estamos, inconscientemente, avaliando as expressões faciais de outras pessoas.

Ao Canaltech, a psicóloga diz que acredita que tudo corrobora para o estresse neste momento de pandemia, medo e apreensão. "Não não temos hoje, em isolamento social, as condições para manter o corte de cabelo, nem outros cuidados que antes tínhamos com o nosso marketing pessoal. A autoestima tende a ser abalada, se pensarmos no medo que nos aflige e na necessidade de nos apresentarmos com a expressão de tranquilidade. É um grande paradoxo", avalia.

Longe do alcance das crianças?

Outro desafio dos home-officers é a questão familiar, e quem tem filhos em casa está mais propenso a se estressar mais. Se cuidar das crianças normalmente não é tarefa fácil, cuidar delas e dar atenção durante o trabalho é ainda mais exaustivo para os pais que estão conectados no trabalho enquanto elas circulam livremente pela casa.

"Quem tem filhos, dependendo da idade, pode fazer combinados sobre ruídos, explica que existem momentos que não podem ser interrompidos. Já com os menores, vale a conversa — porém é preciso lembrar que essas crianças estão dentro de casa em isolamento social há muito tempo e a única possibilidade de socialização são os pais que se mantêm trabalhando. A paciência é a melhor ferramenta neste momento. Pode ser que o pequeno invada a reunião, sim, porém sem maldade sem a intenção de prejudicar e os demais participantes, que podem estar vivendo situações semelhantes. A dica é não maximizar essa situação — isso só vai lhe causar mais estresse", aconselha Sirlene.

Tempo de qualidade: ele existe na pandemia?

Qualquer evento inesperado que possa acontecer durante uma chamada de vídeo, na qual estamos expostos, é capaz de gerar ansiedade e piorar nosso nível de stress. Perdemos o controle da situação no momento em que uma criança pequena entra em cena e aparece na câmera pelo grau de imprevisibilidade do que pode rolar a seguir: das mil e uma artes que as mãozinhas dos pequeninos aprontam às famigeradas birras e "frases de impacto", que podem soar constrangedoras por expor nossa intimidade a pessoas que, às vezes, nem conhecemos.

Se você tem filhos e, por acaso, se deparar com uma situação indecorosa, não se sinta mal por isso. "Peça desculpas, desligue o microfone e procure entender: é uma criança que não vê e não brinca com seus amigos há muito tempo... e ela não te vê como o gerente da empresa — ela te vê como o papai ou a mamãe que tanto ama", orienta a profissional.

Como reduzir o stress no fim do dia?

Diante desse novo cenário em que o digital se incrustou ainda mais em nossas vidas, será que existe alguma maneira de chegar ao final do dia, ou mesmo da semana, com um pouquinho mais de energia? Sim, há, desde que você seja firme, primeiramente, com você mesmo. E, claro, mantenha sua saúde mental em primeiro lugar.

Aqui vão algumas dicas para levar com você durante a pandemia — e, muito provavelmente, para além dela:

Reuniões que poderiam ter sido um email

Quando você estiver cansado, valorize seus limites: você é um ser humano, então é naturalmente limitado. Não custa reconhecer que está exausto e dizer isso para a pessoa com quem você tem um call marcado, afinal. Dependendo da reunião, avalie se dá para deixar para depois, ou simplesmente resumir o assunto a ser tratado em um email. Corpo e mente agradecem.

Saiba usar a sua agenda

Quando você tiver uma videoconferência, atente-se para os horários. Reuniões já são famosas por não respeitarem o tempo dos participantes, mas ter uma definição bem franca de agenda com os participantes é essencial para que a conversa não se arraste demais, e nem te sugue energias demais. Combine calls mais curtas sempre que possível, e quanto mais distante do fim do expediente, melhor.

Use as plataformas online de compartilhamento de arquivos

Slack, Asana, Google Docs estão aí há muito tempo, e nada melhor que contar com ferramentas do tipo para realizar seu trabalho com seus colaboradores e clientes. Que tal investir em documentos organizados, com comentários detalhados, para poupar seu cérebro um pouquinho?

Multitarefa? Mesmo?

Ser multitarefa é legal, não é mesmo? Para muitos, sim, mas já estamos todos sobrecarregados devido à situação trazida pelo novo coronavírus que, hoje em dia, para quem faz home office, menos é mais. Ter que ativar diferentes partes do cérebro para desempenhar um mundo de funções ao mesmo tempo não é nada saudável se você já estiver se sentindo cansado. Então, é melhor que você ajuste sua rotina de trabalho para fazer menos coisas de cada vez, porém com melhor desempenho — e se cobrando menos.

Rotina é importante

Crie rotina! Sirlene Ferreira acredita que o potencial da rotina é fundamental no home-office. "Como já existia antes do isolamento, todos tinham uma rotina para ir ao trabalho. E criar uma rotina para iniciar o trabalho é muito benéfico, pois nos ajuda a organizar as ideias e prepara a mente para o novo dia", explica.

Autocobrança

"Lembre-se: você precisa descansar", reafirma a psicóloga. Não se cobre demais, não exagere e nem passe dos seus limites, seja no trabalho, seja nas tarefas de casa. Procure encontrar o equilíbrio para manter a saúde mental.

Reduza o uso de telas

Certa vez, em entrevista ao Canaltech, Leon Grupenmacher, oftalmologista e professor da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), afirmou que as telas não são inimigas, desde que usadas de forma adequada. Mas é preciso tomar cuidados com a saúde ocular e com a quantidade de estímulos recebidos pelo cérebro: como ficamos muito focados, piscamos menos e nossos olhos podem sofrer com ressecamento.

Segundo pesquisas recentes, mesmo que o filtro de luz azul cause menos danos à visão, fixar a vista em telas durante a noite pode prejudicar o sono. O melhor mesmo é evitar.

"Resenhas" virtuais — precisa mesmo?

Aprenda a dizer não caso aquele bate-papo com amigos não seja essencial. Se estiver muito cansado das tarefas do dia, não precisa participar só para não fazer feio: quanto menos exposição às telas após o expediente, melhor.

Velhas tecnologias também ajudam

Não só de aplicativos modernos vive o profissional moderno. Afinal de contas, se você tem um assunto importante e inadiável a tratar, considere sua urgência e a real necessidade dessa conversa acontecer em vídeo. Por que não usa o telefone, com um horário combinado para a conversa iniciar e terminar? E se o assunto couber em um email, melhor ainda.

Primeira reunião: precisa ser em vídeo mesmo?

Para muitos, o vídeo já é algo essencial desde o primeiro contato profissional, mesmo que nunca tenha visto a outra pessoa. Bom, vamos por partes, aí: não se sinta obrigado a usar um app de videoconferência todas as vezes. Se você recebeu um convite para uma reunião, mas não se sente confortável com o vídeo, que tal sugerir o telefone? E, se você estiver na outra ponta e precisar conversar com alguém que nunca falou antes, que tal perguntar o que a pessoa prefere? Às vezes, o bom e velho telefone é muito melhor.

Respeite seu ritmo de sono

Muita gente está com a rotina de pernas para o ar nesta pandemia. Mesmo que seja difícil, tente respeitar seu ritmo de sono ou criar um hábito para seu corpo entender que é hora de se desconectar. Uma boa dica é escurecer o ambiente, deixar o celular, o computador e a TV de lado e focar em atividades tranquilas fora do quarto de dormir a partir de uma hora antes do sono. Assim, seu cérebro vai entender que a hora do descanso se aproxima, já que você mesmo o instruiu dessa forma, reduzindo os estímulos.

Tempo de qualidade

Cada pessoa reage de um jeito: uns sentem-se confinados e sozinhos, outros estão abafados por conviverem demais com a mesma pessoa sob o mesmo teto, outros ainda redescobriram laços e coisas em comum com quem compartilha a casa. O importante é descobrir que há vida dentro de casa, mas longe do ambiente online do seu home office: restaurar hobbies antigos, buscar diversão nas interações com quem mora junto com você ou redescobrir bons hábitos individuais que te fazem bem parece bobagem, mas faz uma grande diferença em nossas rotinas: é o que chamamos de tempo de qualidade, já que é bem aproveitado e traz benefícios para a mente e para o corpo.

Fonte: Com informações de: BBC, International Journal of Human-Computer Studies, Frontiers in Psychology e Harvard Business Review

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