Voluntários relatam como foi receber teste de vacina contra a COVID-19

Por Natalie Rosa | 28 de Maio de 2020 às 18h41

Já são inúmeros os hospitais, universidades e laboratórios que estão em busca de uma vacina contra a COVID-19, doença provocada pelo novo coronavírus. Desde o início da pandemia, uma corrida pela solução perfeita para combater o vírus está na ativa, com alguns testes já sendo realizados em humanos.

Neal Browning (46), engenheiro de rede, foi o segundo candidato a testes da vacina em humanos, recebendo a primeira dose ainda em 16 de março pela empresa Moderna. Quem foi contemplado com o teste foi Jennifer Haller, minutos antes. Ele conta que chegou ao local e teve um tempo na sala de espera para aguardar o momento tão esperado. Quando foi chamado, uma enfermeira fez algumas perguntas a ele, questionando se o paciente ainda não sentia febre e se ainda estava sem contato com pessoas doentes.

Browning, que havia escapado do seu trabalho na Microsoft pela manhã para receber a vacina, já estava lidando na empresa com a COVID-19 e suas consequências, se preparando para uma possível nova rotina de tarefas em casa. Seus colegas engenheiros já haviam rastreado o vírus desde Wuhan e o resto da China, até a Europa e, finalmente, nos Estados Unidos, bem perto de onde ele estava.

Neil Browning recebendo a vacina (Foto: Ted S. Warren/AP)

Antes mesmo de se preparar para receber testes de uma possível vacina, o engenheiro soube de um caso envolvendo um adolescente que morava a 16 quilômetros de sua casa. O jovem não havia viajado e não sabia dizer se teve contato com alguém que testou positivo para a doença. No outro dia, outra notícia mais assustadora: o primeiro óbito causado pela COVID-19 nos Estados Unidos. O hospital também ficava próximo à casa de Browning, a cerca de 8 quilômetros.

O candidato ficou sabendo dos testes da vacina por um amigo, que o enviou uma mensagem sobre a busca por voluntários. Mesmo ficando muito surpreso em saber a velocidade na qual a vacina estava sendo criada, não hesitou em se inscrever para o experimento. Os pesquisadores logo entraram em contato com Browning, pedindo exame de sangue e a sua ficha médica, uma vez que pessoas mais saudáveis são mais fáceis de rastrear possíveis efeitos da vacina.

Apesar de aparentar tranquilo, o paciente pediu conselhos de sua mãe e sua noiva, que trabalham como enfermeiras, questionando sobre os possíveis riscos que o teste poderia trazer. Ele sabia que a vacina poderia trazer alguns efeitos colaterais, talvez até mesmo potencializando a ação do vírus no organismo, caso fosse contaminado, mas não foi o suficiente para que ele pensasse em desistir. O que o fez continuar com o processo foi entender que pegar a COVID-19 pode ser mais grave que isso.

Imagem: Reprodução/Pixabay

Voltando ao momento de receber a vacina, ele teve mais amostras de sangue coletadas e, então, chegou a hora da dose do que pode ser a salvação contra o novo coronavírus. Na hora da aplicação, também estava no local um fotógrafo da imprensa, que registrou o momento exato da entrada e saída da agulha. Foram 25 microgramas de fluido injetados que, segundo o voluntário, nem foram sentidos.

Browning ainda precisou permanecer no local do exame por mais uma hora, como se estivesse de observação, para que fosse verificada a existência de possíveis reações. O candidato dizia saber, no entanto, que não é um processo rápido e que, caso a vacina fosse eficaz, muitas etapas ainda estariam pela frente. De modo geral, a chance de uma vacina não funcionar é de 94%.

Parte da complicação enfrentada para a criação da vacina é que, segundo Benjamin Neuman, virologista norte-americano que já vem estudando diversos tipos de coronavírus, é que o SARS-CoV-2 é o maior vírus de RNA conhecido até então. Com isso, o sistema imunológico pode ser facilmente enganado. O especialista conta que o novo coronavírus é 10 vezes melhor que o primeiro vírus SARS quando o assunto é se conectar a uma célula.

O novo coronavírus, uma vez no organismo, transforma a estrutura das células humanas, é porque em fábricas de vírus supereficientes. Ele conta ainda com uma enzima capaz de destruir mensageiros de RNA, que são usados pela célula para "pedir ajuda" assim que percebe que algo está errado. A COVID-19 ainda tem muitos mistérios, com os cientistas tentando entender o que leva às diferenças de reações e sintomas de paciente para paciente.

Quando um paciente sobrevive, houve uma comunicação sólida e contínua entre partes do sistema imunológico, e quando acontece o óbito, o vírus parece se espalhar de forma rápida, desativando os "alarmes" dos problemas, com o corpo respondendo à contaminação de forma tardia, o que acaba comprometendo as células e órgãos.

O retorno

A vez de Jennifer Haller (Foto: Ted S. Warren/AP)

Sete dias depois de receber a vacina, em 23 de março, Neil Browning retornou ao local onde havia recebido a dose para coletar mais amostras de sangue, o que iria verificar como estava o seu sistema imunológico, mesmo que a previsão dos pesquisadores fosse de que essa resposta não acontecesse até junho. Lá, Neil reencontrou Jennifer e ambos disseram terem visto um ao outro em uma reportagem para a televisão.

Ambos relataram que não estavam sentindo nada de diferente após a aplicação da vacina, e poucas semanas depois retornaram para uma nova dose para reforçar o sistema imunológico. Durante esse processo, novos voluntários foram recebendo a vacina, mas em doses entre quatro e 10 vezes maiores que a dupla. No futuro, terão ainda mais doses em novos candidatos.

Se os testes apresentarem resultados positivos, a vacina pode começar a ser comercializada em um período de 12 a 18 meses, seguindo os protocolos de iniciar as aplicações no grupo de risco e pessoas que estão na linha de frente contra essa batalha. Browning diz estar confiante.

Outra reação

Outro voluntário da vacina contra a COVID-19, também desenvolvida pela Moderna, não teve muita sorte em relação aos efeitos colaterais. Ian Haydon, de 29 anos, residente de Seattle, começou a apresentar febre de 39°C apenas 12 horas depois de receber a dose. O paciente chegou a ir ao médico e, quando foi liberado e voltou para casa, acabou desmaiando.

Neste estudo realizado pela Moderna com 45 pessoas, quatro dos participantes sofreram por efeitos colaterais considerados severos e significantes, mas não o suficiente para oferecer risco de morte. Em resposta, a companhia afirmou que no caso de Haydon, a aplicação da dose foi maior. Um voluntário que recebeu uma dose menor, como comparação, apresentou apenas uma irritação no local da aplicação.

No formulário de consentimento assinado por Hayden havia a informação de que a vacina poderia causar um choque anafilático, contando ainda que não havia como prever como o sistema imunológico reagiria à vacina. Na segunda dose, o voluntário sentiu inchaço no braço, como aconteceu também na primeira, além de calafrios e febre novamente, com a temperatura chegando a cerca de 39,5°C.

A namorada do voluntário ligou para um número oferecido pela Moderna, que indicou que ele fosse à emergência de um hospital. Qualquer cuidado médico seria coberto pela empresa. Chegando lá, foi recebido assim como qualquer paciente: um possível contaminado pela COVID-19. Ele teve seu sangue coletado dos dois braços, então, com a febre mais baixa, e recebeu analgésico e antitérmico, sendo indicado para ser internado em um hospital vizinho. Ele recusou e voltou para casa.

Chegando lá no início da manhã, dormiu e acordou no meio-dia com um pouco mais de 38°C de febre. Ao se levantar, sentiu náuseas, vomitou e logo depois desmaiou. Entrando em contato novamente com um dos médicos responsáveis pela pesquisa, a recomendação fosse que ele voltasse ao hospital, mas acabou apenas ingerindo isotônicos. Com o tempo, Haydon melhorou e não apresentou mais nenhum efeito colateral. Ele disse que nunca se sentiu tão doente como nesses dias.

Segundo a Moderna, efeitos severos, como os de Haydon, foram vistos apenas em quem recebeu as doses mais altas, e isso não será mais feito. Outra vacina testada em pacientes diferentes apresentou febre como efeito colateral em quase metade dos voluntários. Todos esses problemas, obviamente, causam um impacto no estudo e podem afetar o futuro da vacina.

Fonte: Wired, Stat

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