Resfriado comum é capaz de expulsar o coronavírus das células, segundo estudo

Por Nathan Vieira | 26 de Março de 2021 às 10h10
Polina Tankilevitch / Pexels

A ciência ainda tem muito o que descobrir em relação ao coronavírus, considerando o quão enigmático esse vírus tem se mostrado desde que se tornou uma preocupação mundial. Dito isso, pesquisadores da Universidade de Glasgow, na Escócia, buscaram estabelecer uma possível relação entre a COVID-19 e o resfriado, e concluíram que o resfriado consegue expulsar a doença das células.

O que acontece é que alguns vírus são conhecidos por "competir" para ser o causador de uma infecção, por assim dizer. Isso significa que eles não toleram outros vírus infectando junto. E, para os cientistas da Universidade de Glasgow, o rinovírus (causador do resfriado) supera o coronavírus, sendo capaz de ajudar a suprimir a COVID-19.

É como se as células do nariz, garganta e pulmões fossem casas. Depois que um vírus entra, ele pode manter a porta aberta para permitir a entrada de outros vírus ou fechar, ficando ali sozinho. No caso do vírus responsável pelo resfriado, ele se fecha sozinho nessas casas. Os especialistas da ciência e da medicina têm se concentrado em entender como o Sars-CoV-2 interage com outros vírus, mas essa tem sido uma tarefa particularmente desafiadora, considerando que um ano de distanciamento social diminuiu a propagação de todos os vírus e tornou muito mais difícil estudar essa relação.

No caso desse estudo, a equipe usou uma réplica do revestimento das vias aéreas, feita dos mesmos tipos de células, e a infectou com Sars-CoV-2 e rinovírus, que causa o resfriado com o qual já estamos acostumados. Basicamente, se o rinovírus e o Sars-CoV-2 forem lançados ao mesmo tempo, apenas o rinovírus terá sucesso.

Resfriado expulsa o coronavírus das células, segundo estudo realizado pela Universidade de Glasgow, na Escócia (Imagem: ktsimage/Envato)

“Nossa pesquisa mostrou que o rinovírus humano desencadeia uma resposta imune inata em células epiteliais respiratórias humanas, que bloqueia a replicação do Sars-CoV- 2”, resume o professor Pablo Murcia, do Centro de Pesquisa de Vírus. “Isso significa que a resposta imune causada por infecções leves pelo vírus do resfriado comum pode fornecer algum nível de proteção transitória contra o causador da covid-19, potencialmente bloqueando a transmissão do Sars-Cov-2 e reduzindo a gravidade da doença.”

Outros experimentos mostraram que o rinovírus estava desencadeando uma resposta imunológica dentro das células infectadas, o que bloqueou a capacidade do Sars-CoV-2 de se replicar. No entanto, a COVID-19 seria capaz de causar uma infecção novamente assim que o resfriado passasse e a resposta imunológica diminuísse. O pesquisador conclui: "Essa infecção comum pode impactar a carga de COVID-19 e influenciar a disseminação de SarsCoV2, particularmente durante os meses de outono e inverno, quando os resfriados são mais frequentes".

Em agosto de 2020, um estudo da University College de Londres, publicado na revista científica Science, tentou entender se o resfriado dava imunidade à COVID-19. O projeto descreve como amostras de sangue coletadas antes de 2019, quando o SARS-CoV-2 ainda não estava circulando, foram capazes de reagir contra este vírus. A resposta imune contra o patógeno foi do tipo celular, na qual linfócitos T, uma classe específica de células do sistema, atacam outras células infectadas.

Os responsáveis pelo trabalho defendem que a variedade de memórias de células T aos coronavírus que causam o resfriado comum pode estar por trás de pelo menos parte da heterogeneidade observada na COVID-19.

Fonte: University of Glasgow via BBC News

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