Qual a relação entre a Ômicron, a falta de vacinas na África e o HIV?

Qual a relação entre a Ômicron, a falta de vacinas na África e o HIV?

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 04 de Dezembro de 2021 às 10h00
Photocreo/Envato Elements

A África é o continente com menos pessoas completamente vacinadas contra a covid-19 do planeta. Na última semana, a África do Sul foi relacionada com o surgimento da variante Ômicron (B.1.1.529) do coronavírus SARS-CoV-2. Em paralelo, a região ainda enfrenta outra epidemia, com taxas de incidência do HIV muito altas. Agora, algumas teorias buscam relacionar estes três fatos.

Cerca de 44% da população mundial está com o esquema vacinal completo — duas doses ou imunizante de dose única — contra a covid-19, segundo a plataforma Our World in Data. A porcentagem representa 3,47 bilhões de pessoas, mas esses indivíduos protegidos estão concentrados nas nações mais ricas; inclusive, alguns já tomaram ou se prepararam para tomar as doses de reforço.

No continente africano, a população com o esquema vacinal completo é de apenas 7,5%, ou seja, 102,5 milhões de pessoas. No caso da África do Sul, a situação melhora um pouco, mas ainda está longe do ideal de 75%. É estimado que 25% dos sul-africanos estejam com o esquema vacinal completo, o que representa 14,8 milhões de pessoas.

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Falta de vacinas contra a covid-19 favorece mutações do coronavírus e permitiu o surgimento da Ômicron (Imagem: Reprodução/Markusgann/Envato Elements)

Com falta de vacinas, existe uma grande dificuldade em conter novos casos de covid. Em um cenário de alta transmissão, as possibilidades para o surgimento de novas mutações do coronavírus estão favorecidas, como, muito provavelmente, ocorreu com a variante Ômicron.

Além da covid-19, o continente africano apresenta as maiores taxas de infecção pelo HIV do mundo. Segundo o relatório da UNAIDS (programa das Nações Unidas) de 2020, 25,5 milhões de pessoas vivem com o HIV apenas no continente. Somando todos os casos estimados do globo, o número total chega a 37,7 milhões.

Falta de vacinas contra a covid-19, descontrole das transmissões do coronavírus SARS-CoV-2 e alta incidência de pessoas que vivem com HIV formam o cenário onde, muito provavelmente, surgiu a variante Ômicron.

HIV e Ômicron: tem relação?

Em nota, o professor François Balloux, do Instituto de Genética da University College London (UCL), afirmou que a variante Ômicron do coronavírus, provavelmente, surgiu a partir de uma infecção persistente em um paciente imunocomprometido, muito provavelmente alguém que convive com o vírus da Aids de forma não diagnosticada.

A justificativa é de que pessoas que convivem com o HIV e, mais especificamente, aqueles indivíduos que não fazem o acompanhamento médico adequado podem desenvolver quadros de infecções prolongadas pelo coronavírus. Em outras palavras, permanecem doentes por um tempo maior que o esperado.

Teorias buscam associar o surgimento da Ômicron com os casos de HIV na África do Sul (Imagem: Reprodução/Fusion Medical Animation/Unsplash)

Por que há infecção prolongada em casos raros de pacientes com HIV?

Afinal, o sistema imunológico desses indivíduos está debilitado pelo HIV e tem poucas armas para combater a infecção do vírus da covid-19, o que favorece mutações — mas isso também é favorecido em populações que habitam locais com baixa cobertura vacinal.

Na defesa do argumento de Balloux, é citado o caso de uma paciente que acumulou mais de 30 mutações do coronavírus na África do Sul. A pessoa apresentava infecção por HIV em estágio avançado, sem tratamento antirretroviral, conforme relatou um preprint — estudo sem revisão por pares — sul-africano, com participação de cientistas da Universidade do KwaZulu-Natal (UKZN).

"Por meio do sequenciamento do genoma completo, demonstramos o surgimento precoce da substituição [da mutação] E484K associada ao escape de anticorpos neutralizantes, seguido por outras mutações de escape e a substituição N501Y encontrada na maioria das Variantes de Preocupação [VOC, na sigla em inglês]", detalharam os pesquisadores responsáveis pelo caso.

Segundo os autores do artigo disponível na plataforma MedRxiv, a descoberta "fornece suporte para a hipótese de evolução intra-hospedeiro como um mecanismo para o surgimento de variantes do SARS-CoV-2 com propriedades de evasão imune". Em outras palavras, o organismo de pacientes que convivem com o HIV, de forma descontrolada, pode contribuir com novas mutações do vírus.

Cenário é mais complexo

Combate da covid-19 precisa ser coletivo e países devem contribuir com doações de imunizantes (Imagem: Reprodução/Gstockstudio/Envato Elements)

A relação entre as mutações do coronavírus e o HIV recebeu bastante destaque nos últimos dias. Só que a afirmação precisa considerar, obrigatoriamente, o cenário do país, onde faltam vacinas contra a covid-19 e também remédios e programas para o tratamento da população que convive com o HIV. São duas epidemias que se sobrepõem.

Nesse sentido, discutir o paciente zero de uma nova variante, como a Ômicron, pouco pode contribuir para o controle da pandemia. Por outro lado, algumas estratégias de saúde pública podem fazer a diferença no país, como a doação de vacinas contra a covid-19.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) é uma das primeiras a lembrar que a pandemia da covid-19 só poderá ser controlada de forma coletiva e, nos últimos meses, defendeu que países doassem o contingente de doses de reforço para aqueles que não conseguiram imunizar as suas populações nem com a primeira dose.

Nesse sentido, o brasileiro Túlio de Oliveira — que foi um dos autores do estudo sobre o risco das infecções prolongadas em pacientes com HIV não controlado e pesquisador da UKZN — defende a urgência de doações de vacinas contra a covid-19 para a África do Sul e outros países da região.

Para além dos países, o pesquisador está procurando o apoio de pessoas públicas e influentes, como o fundador da Tesla e da SpaceX, Elon Musk, para a doação e financiamento de programas que combatam o coronavírus no continente africano.

Variante Gama e Manaus

A Ômicron do Brasil foi a variante Gama, também considerada uma VOC pela OMS (Imagem: Reprodução/Photocreo/Envato)

Para lembrar da importância do controle da transmissão da covid-19, vale destacar o surgimento da variante Gama (P.1) no Brasil, associada à cidade de Manaus. A cepa, segundo a OMS, foi identificada pela primeira vez em novembro de 2020, ou seja, antes do início da campanha de vacinação brasileira, iniciada apenas em janeiro deste ano, focando em idosos e profissionais da saúde.

Na época, o estado — e também o Brasil — enfrentava um pico de casos da covid-19, o que favorecia o surgimento de novas mutações. A situação ficou tão grave que o sistema de saúde do estado do Amazonas entrou em colapso, em janeiro deste ano. Posteriormente, a cepa se tornou predominante no país todo e foi considerada uma VOC pela OMS.

No caso brasileiro, nenhuma associação foi feita com pacientes que apresentam sistema imunológico comprometido, como pessoas que vivem com o HIV, mas a principal associação foi com a falta de medidas sanitárias para conter a transmissão do vírus e a inexistência de vacinas na época. Guardando as devidas proporções, a situação pode se assemelhar ao desafio do continente africano, onde faltam imunizantes.

Ômicron veio mesmo da África do Sul?

Para adicionar um novo elemento a toda essa discussão sobre a origem da variante Ômicron do coronavírus, será que o seu surgimento está, de fato, relacionado à África do Sul ou a algum país vizinho? Hoje, a afirmação pode trazer algumas dúvidas, embora o consenso continue a ser da sua relação com o continente africano.

Foi uma cientista da África do Sul chamada Raquel Viana que sequenciou os primeiros genomas da variante Ômicron, em 19 de novembro. Outra cientista de lá, Alicia Vermeulen, desconfiou da ausência de um gene da proteína S do coronavírus e, após análise completa, foi confirmada a perda desse gene — uma das mutações que distinguem a Ômicron da Delta.

Entretanto, na terça-feira (30), autoridades de saúde holandeses afirmaram que a Ômicron foi detectada, na Holanda, antes do primeiro registro, até então, considerado como oficial da África do Sul. O país africano relatou, oficialmente, a descoberta apenas no dia 24 de novembro para a OMS.

Vale ressaltar que o Instituto Nacional de Saúde Pública (RIVM) da Holanda relatou que "encontramos a variante do coronavírus Ômicron em duas amostras de teste que foram coletadas em 19 e 23 de novembro". De acordo com RIVM, “não está claro ainda se essas pessoas visitaram a África Austral”.

Agora, mais investigações são necessárias. Isso porque uma nova variante não obrigatoriamente surgiu no país que a identificou pela primeira vez, já que o coronavírus circula e pode facilmente se espalhar por diferentes regiões. Segundo as autoridades sul-africanas, a origem pode ter relação com algum outro país e eles apenas a identificaram.

Fonte: UCL, MedRxiv, UnaidsOur World in Data e Reuters    

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