Pesquisa testa eficácia da CoronaVac contra a variante de Manaus em laboratório

Por Fidel Forato | 03 de Março de 2021 às 17h00
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Com o aparecimento de novas variantes do coronavírus SARS-CoV-2, como a cepa de Manaus (P.1), estudos buscam verificar a eficácia das vacinas já aprovadas contra elas. De acordo com um estudo preliminar brasileiro, a P.1 pode se proliferar mesmo com os anticorpos dos pacientes que já contraíram a COVID-19 e aqueles produzidos por pessoas imunizadas com a vacina CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac e pelo Instituto Butantan.

Os dados sobre a eficácia dos anticorpos produzidos pela CoronaVac foram obtidos a partir de uma pequena amostra de voluntários (oito pessoas). Por isso, este resultado ainda precisa ser confirmado em pesquisas maiores e não são definitivos. No entanto, acende um alerta sobre a eficácia do imunizante contra as novas cepas do coronavírus.

Pesquisa mede eficácia da CoronaVac contra a variante de Manaus do corornavírus (Imagem: Reprodução/ Tang/ Rawpixel)

Publicado em forma de preprint — artigo não revisado por pares — na revista científica The Lancet, o estudo contou com a participação de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O que o estudo descobriu sobre os anticorpos?

Para o estudo, o grupo de pesquisadores coletou plasma sanguíneo de oito participantes dos estudos clínicos da vacina Coronavac e, por isso, receberam as duas doses do imunizante há pelo menos cinco meses. Depois, foram testados os anticorpos neutralizantes da amostra contra a cepa de Manaus e uma outra variante do coronavírus (B).

Após o teste, os cientistas observaram que os níveis de anticorpos capazes de deter o vírus foram mais baixos para a P.1 do que para a linhagem B. Dessa forma, os autores afirmam que “os resultados sugerem que a P.1 pode escapar de anticorpos neutralizantes induzidos por uma vacina de vírus inativado” contra o coronavírus, como é o caso da CoronaVac.

CoronaVac pode ser menos eficaz contra  avariante de Manaus do coronavírus(Imagem: Reprodução/ Jubjang/ Rawpixel)

Além disso, a pesquisa identificou que os anticorpos produzidos por pessoas já contaminadas pelo coronavírus parecem não ser capazes de impedir que a cepa de Manaus se reproduza. Para chegar a essa conclusão, foram avaliados plasmas de 19 pessoas recuperadas de infecções ocorridas antes do surgimento da nova variante. Nestes casos, foi verificada uma diminuição de seis vezes na capacidade de neutralização dos anticorpos contra a P.1 em comparação com a variante da linhagem B.

“Esses dados sugerem que a linhagem P.1 é capaz de escapar das respostas de anticorpos neutralizantes gerados por infecção prévia por SARS-CoV-2 e, portanto, a reinfecção pode ser plausível com variantes com mutações na proteína spike”, apontam os pesquisadores sobre as descobertas, no artigo.

Sistema imunológico é muito mais complexo

Para conter a questão dos anticorpos, os pesquisadores sugerem que pode ser necessária a aplicação de uma dose de reforço da vacina, atualizada para esta ou outras variantes que surgirem, como acontece anualmente com o imunizante da gripe. No entanto, a imunização desencadeada pela vacina CoronaVac não depende exclusivamente dos níveis de anticorpos neutralizantes, já que o número de anticorpos tende a diminuir de acordo com o tempo e existem outras células de defesa no organismo, como os linfócitos do tipo T ou B. Estas formas de defesa, por exemplo, ainda não foram medidas pela pesquisa.

De acordo com a pesquisadora Mellanie Fontes-Dutra, neurocientista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e não envolvida no estudo, "é possível, sim, que haja uma diminuição da ação neutralizante da CoronaVac sobre a P.1", ressaltando a importância de entender alguns pontos". Para isso, Mellanie destaca que "a CoronaVac induz a formação de anticorpos contra várias partes do vírus, não só dos spikes [proteínas presentes na membrana dos coronavírus e foco da maioria das mutações até agora identificadas]".

Dessa forma, a pesquisadora aponta para a necessidade de medir a eficácia, propriamente dita, do imunizante contra a cepa de Manaus para compreender sua proteção, ou seja, mais do que a ação exclusiva dos anticorpos. Além disso, "temos que lembrar que a CoronaVac também protegeu contra agravamento da doença e que temos que estudar o componente celular também. Células B e T que têm um papel fundamental na resposta contra a infecção", completa.

Como funciona o sistema imunológico?

Vale lembrar que, para proteger o organismo humano contra invasores, o sistema imunológico conta com uma eficiente rede de diferentes células tanto para rastrear quanto para atacar os patógenos. Por exemplo, as primeiras células a serem ativadas são os macrófagos, que capturam "substâncias estranhas" no interior do organismo e alertam o sistema sobre a possível invasão.

Após esse primeiro contato, dois tipos de glóbulos brancos, as células T e B, começam a operar contra os invasores do corpo humano. Nesse cenário, as células T identificam o que os macrófagos capturaram e ativam um alerta que é direcionado para as células B. Por sua vez, os anticorpos aparecem para a proteção do organismo, produzidos pelas células B.

Os anticorpos são substâncias específicas produzidas para atacar um único tipo de invasor, sob demanda. Em seu ataque, elas cobrem o coronavírus, por exemplo, e os macrófagos atacam, em massa, essa formação. Depois dessa invasão, o sistema imunológico arquiva esse tipo de anticorpo para eventuais ataques, no futuro. Esses arquivos são chamados de células de memória.

Para acessar o preprint completo, publicado na revista científica The Lancet, clique aqui.

Fonte: Estadão  

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