O cérebro humano realmente prefere os finais felizes, segundo estudo

O cérebro humano realmente prefere os finais felizes, segundo estudo

Por Nathan Vieira | 23 de Outubro de 2020 às 11h45
Robina Weermeijer / Unsplash

O cérebro humano ainda é cheio de mistérios, e vem sendo cada vez mais decifrado pela ciência. Prova disso é um estudo publicado na última segunda-feira (19) no The Journal of Neuroscience. No trabalho, os envolvidos apontam que os seres humanos tendem a preferir experiências com finais felizes a experiências que se tornaram um pouco menos agradáveis ​​no final.

O estudo é comandado por Martin Vestergaard e Wolfram Schultz, e envolve o uso de fMRI (imagens de ressônancia magnética funcional, uma técnica específica do uso da imagem por ressonância magnética capaz de detectar variações no fluxo sanguíneo em resposta à atividade neural), e sugere que diferentes partes do cérebro preservam e processam diferentes pedaços de informação da mesma experiência. “A ideia específica que nos interessa neste trabalho é a desconexão entre o que as pessoas gostam e o que desejam. Se as pessoas não escolhem o que gostam, suas escolhas realmente não atendem aos seus melhores interesses”,  diz Vestergaard, em entrevista à Wired.

O cérebro humano define uma experiência com base no final, segundo estudo norte-americano (Imagem: Robina Weermeijer/Unsplash)

Basicamente, Vestergaard e Schultz almejavam compreender o que estava acontecendo no cérebro das pessoas à medida que processavam experiências que tendiam para a direção positiva ou negativa ao longo do tempo. Para isso, planejaram um cenário de jogo virtual que os participantes poderiam jogar em uma tela enquanto estivessem em um scanner fMRI. Em cada rodada, 27 participantes assistiram a duas sequências em que moedas de diferentes tamanhos apareceram e pulsaram antes de cair em potes, primeiro no lado esquerdo e depois no lado direito da tela. Quanto maior a imagem da moeda, maior seu valor monetário. Em seguida, os participantes tiveram que escolher qual pote continha mais dinheiro.

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Enquanto os participantes escolhiam o dinheiro que gostariam, o scanner fMRI revelava quais regiões de seus cérebros estavam sendo ativadas. O que os pesquisadores descobriram foi que todos os participantes processaram informações em duas áreas: a amígdala (uma estrutura cerebral altamente implicada na manifestação de reações emocionais e na aprendizagem de conteúdo emocionalmente relevante localizada nos hemisférios direito e esquerdo do cérebro) e a ínsula (cujas principais funções são fazer parte do sistema límbico e coordenar quaisquer emoções, além de ser responsável pelo paladar).

Quando os pesquisadores compararam os resultados, eles descobriram que aqueles que mais frequentemente escolheram corretamente o pote com mais dinheiro tinham mais ativação na amígdala, enquanto aqueles que tomaram decisões abaixo do ideal tiveram mais ativação na ínsula. Os autores concluíram que a amígdala é responsável por processar informações sobre a experiência geral, não apenas se ela termina bem ou não. Em contraste, de acordo com os especialistas, a ínsula se concentra no final que acaba se tornando não tão agradável quanto o início. 

No entanto, Vestergaard reconhece que existem limitações para este estudo. Acontece que os sujeitos eram todos homens com idades entre 21 e 36 anos, então não fica claro se há uma diferença entre homens e mulheres, ou entre velhos e jovens. De qualquer forma, para Vestergaard, o importante é compreender que, embora uma tendência negativa ou decrescente possa não ser uma informação relevante, o cérebro está penalizando a experiência por causa disso. “Seu cérebro registra isso e informa suas decisões, quer você queira ou não".

Os especialistas promoveram um jogo para os participantes e analisaram qual área do cérebro era ativada durante o processo (Imagem: Anna Shvets/ Pexels)

O co-autor do estudo observa que nossa preferência por finais felizes pode representar algo bom, mas  também pode nos levar ao erro. Pode fazer com que seja mais fácil tomar decisões rapidamente, porque nos dá uma sensação “intuitiva” ou “visceral” sobre qual opção é a melhor. Isso pode ser problemático, porque nosso instinto pode estar errado ou ser facilmente enganado.

No jogo em questão, os pesquisadores conseguiram enganar as pessoas para que escolhessem o pote errado - um que "parecia" ter mais valor, simplesmente porque as moedas que caíam aumentaram um pouco antes do fim da sequência. No entanto, Vestergaard dá um exemplo muito mais sério de como isso pode ser prejudicial na prática: “Os políticos sempre tentam parecer fortes e bem-sucedidos antes do fim de seu mandato. Se o eleitor considerar apenas as ações mais recentes daquele político, em vez de todo o seu mandato, pode acabar votando contra seus próprios interesses", reflete.

Fonte: The Journal of Neuroscience via Wired

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