Novo exame de sangue brasileiro pode diagnosticar esquizofrenia e bipolaridade

Por Fidel Forato | 12 de Agosto de 2020 às 14h17
Pexels

Geralmente, o diagnóstico de distúrbios psiquiátricos é baseado na análise clínica, em um processo que pode levar anos e pode ser bastante subjetivo, já que depende da capacidade do paciente em relatar os sintomas. Agora, um novo tipo de exame desenvolvido por pesquisadores brasileiros pode diagnosticar, a partir de um único exame de sangue, a esquizofrenia e o transtorno bipolar.

Pioneiro em diferenciar esses dois transtornos através de alterações bioquímicas e moleculares no organismo dos pacientes, esse exame laboratorial é resultado de pesquisas, em conjunto, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),

Como diferenciar as doenças?

“É complicado diferenciar duas enfermidades que compartilham sintomas tão parecidos através de exames clínicos. Com o exame laboratorial é possível identificar padrões no soro sanguíneo e, assim, diferenciar casos de esquizofrenia e bipolaridade de modo preciso, o que melhora o prognóstico dos pacientes”, explica Mirian Hayashi, professora no Departamento de Farmacologia da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp) e coordenadora do estudo apoiado pela Fapesp.

A partir de exame de sangue, pesquisadores brasileiros podem identificar casos de esquizofrenia e bipolaridade (Foto: Reprodução/ Pexels)

Para isso, os pesquisadores analisam o padrão de metabólitos presente no sangue – que é um conjunto de substâncias químicas resultantes de reações do metabolismo — e não um biomarcador específico, como proteínas, genes ou outras moléculas, encontradas no organismo do paciente.

Durante o processo de diferenciação dos padrões, a equipe de pesquisadores precisou a aprender como distinguir os dois transtornos através de técnicas de bioquímica. Nessa etapa, foram analisadas amostras de soro sanguíneo de 182 indivíduos, entre pacientes esquizofrênicos, bipolares e um grupo controle de pessoas sem nenhuma das doenças psiquiátricas.

“O nosso objetivo foi encontrar diferentes padrões de metabólitos e associá-los a um dos transtornos. Para isso, colocamos as amostras de soro sanguíneo sob efeito de um campo magnético. Com a análise da ressonância magnética nuclear de prótons é possível detectar todas as variações (picos) de prótons em uma amostra. Como toda molécula tem prótons, é possível traçar um perfil de ressonância, com diferentes composições dentro de um fluido. Ao analisar essas variações de prótons entre diferentes indivíduos, é possível identificar padrões nas amostras de pacientes esquizofrênicos que diferem dos padrões em bipolares ou pessoas saudáveis”, detalha a professora Hayashi sobre o processo.

“O estudo não só diferencia uma condição da outra como também traz novas informações sobre os transtornos, que poderão ser estudadas futuramente. Afinal, se existe um padrão de alteração nos metabólitos, ele decorre de uma via específica para cada doença, que ainda não conhecemos”, comenta João Victor Silva Nani, coautor do artigo.

Próximos passos

As descobertas que relacionam reações do metabolismo com doenças psiquiátricas podem ajudar, no futuro, no desenvolvimento de tratamentos mais eficientes para pacientes que passam por delírios e alucinações. Nesse caminho, o grupo de cientistas já iniciou um novo projeto, em colaboração com pesquisadores japoneses, e que pode contar com financiamento do próprio governo japonês.

Com o uso de técnicas de bioinformática e Inteligência Artificial (IA), a pesquisa entre o Brasil e o Japão deve investigar como acontecem essas enfermidades. “Embora os motivos de fundos genéticos que levam o indivíduo a ser esquizofrênico ou bipolar sejam reconhecidos, trata-se de genes comuns a vários transtornos mentais. Ao identificar essas vias metabólicas exclusivas para cada doença, será possível, no futuro, melhorar o tratamento”, completa a professora Hayashi.

Já patenteada, a nova metodologia teve seus resultados detalhados em um artigo publicado no Journal of Psychiatric Research.

Fonte: Agência Fapesp  

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