Medir a temperatura no pulso é eficaz para prevenir casos da COVID-19?

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 28 de Maio de 2021 às 17h30
Luciana Zaramela/Canaltech

Em inúmeros estabelecimentos comerciais, como na entrada de shoppings e mercados, é comum que um segurança meça a temperatura daqueles que querem entrar, com um termômetro infravermelho e mirando para o pulso. Apoiada pela maioria dos estados, a medida é justificada como uma forma de prevenir que pessoas infectadas com o coronavírus SARS-CoV-2 — e com febre — entrem no local. No entanto, aferição é ineficaz contra a transmissão da COVID-19, segundo especialistas e entidades reguladoras.

Se no começo da pandemia da COVID-19, o consenso era de que aferir a temperatura pudesse contribuir com a segurança do local, evitando que pessoas com febre e, possivelmente, infectadas entrassem, hoje não é mais assim. Depois de um ano e muitos estudos, sabe-se que nem metade dos contaminados têm febre. Por outro lado, o uso de máscaras e distanciamento social, como controlar a quantidade de pessoas em um mesmo espaço, continuam fundamentais para barrar a transmissão do vírus.

Aferir no braço é errado

Aliás, inúmeros estabelecimentos ainda insistem em aferir temperatura pelo pulso. Pedro Henrique Abreu, Gerente de Marketing e Produtos da G-Tech, fabricante de produtos médicos (incluindo termômetros), contou ao Canaltech que temperatura com termômetros infravermelhos se mede onde os manuais indicam. E os manuais desses aparelhos são categóricos ao instruir que eles devem ser direcionados para o centro da testa do paciente (alguns, inclusive, requerem rastreio até as têmporas).

“Os termômetros são calibrados para medir a temperatura no local especificado na embalagem/manual. Como cada local do corpo pode apresentar variação de temperatura, o ajuste do termômetro é feito para compensar e indicar a temperatura correta. Logo, se o termômetro for utilizado em local diferente, pode haver variação entre o resultado apresentado e a real temperatura corporal”, explica o executivo, derrubando a ideia disseminada de que aferir temperatura pelo pulso funciona.

Segundo especialistas, medir temperatura não é um método eficaz contra a transmissão do coronavírus (Imagem: Reprodução/AtlasComposer/Envato Elements)

Anvisa e OMS não recomendam a medição de temperatura contra a COVID-19

Segundo apuração do portal Uol, nem a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e nem a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendam a aferição de temperatura como método para detectar potenciais pessoas infectadas pelo coronavírus. "O implemento de medidas térmicas, seja em pontos de entrada (portos, aeroportos e fronteiras), seja nas cidades/municípios é uma medida inócua, em especial se considerarmos a situação epidemiológica atual e a sobrecarga dos sistemas locais de saúde", destacou a Anvisa, em nota.

"Os scanners térmicos são eficazes na detecção de pessoas com febre (ou seja, com temperatura corporal acima do normal). Porém, não detectam se a pessoa está infectada com a COVID-19. Existem muitas causas para a febre", afirmou a OMS através da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), em nota.

Riscos de confiar na medida para se proteger contra o coronavírus

Mesmo quem está com a COVID-19 e apresente febre pode burlar o sistema de aferição de temperatura, caso queira agir de forma irresponsável. Segundo a infectologista da Universidade de Campinas (Unicamp), Raquel Stucchi, a medida "é inútil por dois motivos: já sabemos que pelo menos metade das pessoas com COVID-19 não tem febre — mas ainda transmite — e, se a pessoa for mal-intencionada, ela toma um antitérmico e vai passear".

Outra questão importante é falsa sensação de segurança que essa aferição pode trazer para as pessoas. "A medida não só é ineficaz e inócua, como perigosa. Passa uma falsa sensação de segurança. Serve de subterfúgio para dizer que 'fazemos controle', 'temos protocolo' e, com isso, não se cobra o essencial: distanciamento, renovação de ar, controle do número de pessoas e, sobretudo, uso correto da máscara", completou o infectologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, Evaldo Stanislau.

Fonte: Uol  

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