Famílias estão congelando cordões umbilicais de seus filhos — mas, por quê?

Por Fidel Forato | 28 de Agosto de 2020 às 13h58
Vidal Balielo Jr./Pexels

Nos Estados Unidos, há um movimento de famílias que armazenam parte do cordão umbilical de seus filhos, de olho, mais especificamente, no sangue rico em células-tronco. Por trás da iniciativa, está a ideia de que, caso essas crianças precisem de um transplante de médula óssea no futuro, não terão que aguardar em uma fila, durante o tratamento de leucemia, por exemplo. Pessimistas, precavidos ou realistas? Isso faz pouca diferença para a tendência que envolve uma série de questões.   

Vale lembrar que o cordão umbilical é o canal que liga o feto, ainda em desenvolvimento, até a placenta da mãe. Além disso, é rico em células-tronco, ou seja, células que podem se renovar e se diferenciar em diferentes outros tipos. Entre suas aplicações, são boas fontes de células-tronco para o transplante de medula óssea.

Em outras palavras, são um bem bastante valioso e é o que justifica, para alguns, o seu congelamento. Nesse processo, o valor de armazenamento inicial pode variar de US$ 1.500 a US$ 3.500 (algo em torno de oito a 19 mil reais), além das taxas para a manutenção anual, provavelmente, pagas por 20 anos.

Com medo de câncer e doenças no futuro, famílias preservam cordão umbilical de filhos por décadas (Imagem: Vidal Balielo Jr./Pexels)

Como armazenar as células-tronco?

No momento do nascimento, as chances de um bebê nascer com algum tipo de câncer são muito pequenas, ou seja, a maioria nasce saudável. É por isso que muitos médicos e famílias optam pela coleta de células do cordão umbilical, em um procedimento muito simples e seguro. Após o corte do cordão no parto, o resto do sangue presente nessa estrutura é direcionado para uma bolsa de coleta, que depois é congelada. 

Na vida real, é difícil encontrar compatibilidade entre a médula óssea do doador e os receptores que estão na fila de espera. "Além disso, não é necessária a compatibilidade total entre o sangue do cordão e o paciente. Com o uso do cordão umbilical é permitido algum nível de não-compatibilidade, ao contrário do transplante com doador de medula óssea, que exige compatibilidade total", explica o Instituto Nacional do Câncer (Inca) em sua página oficial. Embora quem congele essas células dos filhos não esteja pensando em doá-las para um banco de sangue do tipo, esse é um fator importante a se ter em mente.

Congelar cordão vale a pena?

Agora, a questão é entender o quão útil pode ser coletar, armazenar e preservar as células-tronco do cordão umbilical. Um estudo do CIBMTR (Centro Internacional de Pesquisa de Transplante de Sangue e Medula Óssea), em Wisconsin, nos Estados Unidos, procurou estabelecer a probabilidade das crianças poderem ser beneficiadas pelo procedimento e quais seriam os tipos de câncer mais comuns.

No período em que o sangue do cordão costuma ser armazenado, que é até os 19 anos, a leucemia foi o tipo de câncer mais comum, seguida por linfoma, neuroblastoma, tumores cerebrais e sarcomas. Entretanto, o câncer em crianças e adolescentes é incomum. Por exemplo: a taxa de incidência nos EUA para todos esses tipos de câncer é de 12 casos para cada 100 mil crianças por ano.

Caso o câncer pediátrico venha a se desenvolver em uma criança, a chance do paciente precisar de um transplante de médula óssea, nos EUA, que é uma das últimas alternativas para o tratamento, é de dois casos para cada 100 mil.  

Agrupando as possibilidades, a probabilidade de uma criança precisar de um transplante até os 20 anos é de 0,04%. Em comparação, a chance de alguém ser atingido por um raio é de 0,033%. Então, isso significa que o sangue da médula deve ser descartado? Muito pelo contrário, é um material biológico muito rico e que pode resolver problemas graves no futuro — principalmente se a família tiver histórico de doenças genéticas e, principalmente, condições de investir no congelamento, claro.

Todas essas possibilidades do que se fazer com as células-tronco de um cordão umbilical podem ser descartadas, caso um evento raro aconteça. É muito incomum, mas bebês podem nascer com leucemia e, nesses casos, essas células já estarão contaminadas e de nada adiantará congelar o cordão.

Doar é uma boa opção

Como a coleta de células-tronco presentes no cordão umbilical é simples e elas podem ser reutilizadas para diferentes tratamentos oncológicos, é importante preservá-las. Agora, como as chances de uso são pequenas para o próprio doador e se trata de um procedimento com custo bastante elevado, uma boa solução é a doação do material para bancos públicos, que o direcionarão para quem mais precisa.

Por exemplo, no Brasil, "a doação é realizada em maternidades credenciadas do programa da Rede BrasilCord, que reúne os bancos públicos de sangue de cordão", segundo o Inca. Além do mais, "não existe nenhum risco [no procedimento]. Lembre-se que tanto a placenta, quanto o sangue que fica armazenado nela, têm sido tratados, até então, como lixo. As equipes de coleta atuam somente com o consentimento do obstetra, garantindo que nada interfira no parto", ressalta o instituo.

Fonte:  MIT Press ReaderPopular Science e Inca   

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.