Está vivo! Cérebro criado para testes pode sentir dor

Por Fidel Forato | 21 de Outubro de 2019 às 18h00
BBC

Se os pesquisadores buscam um consenso para as edições genéticas do genoma humano, mais uma questão ética esbarra nos avanços da ciência. Podem os mini-cérebros humanos, desenvolvidos em laboratórios, sentirem dor com uma existência consciente, sem corpo? É o que defende Elan Ohayon, diretor do Green Neuroscience Laboratory, em San Diego.

A criação de mini-cérebros ou organoides cerebrais se tornou um dos campos mais quentes da neurociência moderna. As bolhas de tecido são produzidas a partir de células-tronco e, embora tenham o tamanho de uma ervilha, alguns desses experimentos desenvolveram ondas cerebrais espontâneas, semelhantes às observadas em bebês prematuros.

Muitos cientistas acreditam que os organoides têm o potencial de transformar a medicina, permitindo explorar o cérebro humano vivo como nunca antes. No entanto, o trabalho é controverso, porque não está claro onde ele pode cruzar a linha de experimentação em seres humanos.

"Se houver a possibilidade de o organoide ser senciente, (ou seja, capaz de sentir), poderíamos estar cruzando essa linha", afirma Ohayon. "Não queremos que as pessoas pesquisem onde há potencial para algo sofrer."

Pesquisadores americanos alegam que mini-cérebros, desenvolvidos em laboratório, podem sentir dor

Devido às dificuldades no estudo de cérebros humanos, esses organoides são considerados um divisor de águas nessas pesquisas. Têm sido usados ​​para investigar esquizofrenia e autismo e esperam também que possam ser utilizados em estudos para outros distúrbios cerebrais, como Alzheimer e Parkinson.

Ohayon e seus colegas Ann Lam e Paul Tsang defendem verificações obrigatórias nesses cérebros, de modo a garantir que os organoides não sintam dor. Para isso, desenvolveram um programa de computador que deve auxiliar na identificação da senciência precoce, mas acrescentam que há uma "necessidade urgente" de mais trabalhos na área.

Ciência vs ética

No ano passado, um grupo de cientistas, advogados, especialistas em ética e filósofos convocou um debate ético sobre os organoides do cérebro. Os autores, incluindo Hank Greely, diretor do Centro de Direito e Biociências da Universidade de Stanford, na Califórnia, disseram que os organoides ainda não eram sofisticados o suficiente para suscitar preocupações imediatas, mas que era hora de começar a discutir diretrizes.

Na Grã-Bretanha, os pesquisadores já estão proibidos de trabalhar em embriões doados com mais de 14 dias. O limite, que alguns cientistas querem estender, foi imposto para proteger os humanos em desenvolvimento do sofrimento.

Fonte: The Guardian

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