Em busca da cura, médicos testam remédios para HIV contra o coronavírus

Por Fidel Forato | 03 de Fevereiro de 2020 às 14h00
Getty Images

Muito pouco se sabe sobre o novo coronavírus chinês, chamado provisoriamente de 2019-nCoV. Diante do aumento de infecções em todo o mundo, cientistas procuram aprender mais sobre o vírus, buscando entender o tempo de incubação ou ainda se pacientes podem não apresentar sintomas e mesmo assim transmitirem a doença. Além, é claro, de qual é o melhor tratamento para esses pacientes.

Em esforço conjunto, empresas farmacêuticas norte-americanas enviam medicamentos antivirais às autoridades de saúde chinesas. É uma parceria que espera avaliar se medicamentos já existentes podem ajudar a conter a explosão de infecções pelo novo vírus respiratório que afeta a China. Uma das possibilidades mais acertadas, por enquanto, são as fórmulas usadas para o controle do HIV.

Duas importantes companhias americanas, a AbbVie Inc. e a Johnson & Johnson, enviam medicamentos aprovados para o tratamento do HIV para o país. Além disso, uma comissão do próprio governo chinês tem recomendado que os médicos receitem medicamentos indicado para o vírus da Aids, entre eles o Kaletra, para pacientes com resultado positivo para a doença.

Por enquanto, autoridades de saúde chinesas recomendam remédios para o tratamento do HIV para pacientes infectados pelo novo coronavírus (Foto: Eugene Hoshiko/AP Photo)

Já outro grupo dos Estados Unidos, a Gilead Sciences, estuda enviar uma terapia antiviral ainda em fase de testes. Isso porque, novamente, as autoridades chinesas solicitaram remessas para testar a eficácia dos supostos medicamentos. A aposta é que seria capaz de ajudar pacientes infectados com o novo coronavírus.

Por enquanto, não há vacinas ou medicamentos aprovados em qualquer lugar do mundo, especificamente, para o novo coronavírus, o que leva as autoridades de saúde reaproveitarem, inclusive, antivirais não testados. É um grande esforço no combate ao surto que se espalhou rapidamente pela China e começa a aparecer, de forma menos expressiva, em outros países.

Mais fabricantes de medicamentos e pesquisadores também estudam o vírus para desenvolver vacinas exclusivas, por exemplo. O problema é que podem levar meses para chegar nos testes em humanos e, ainda mais, para uso legalizado.

Situação na China

O coronavírus, que se originou no mês passado na cidade de Wuhan, no centro da China, já infectou mais de 4.500 pessoas e matou pelo menos 106, com autoridades de saúde pública alertando que sua disseminação tem se acelerado.

No domingo (26), um programa nacional de saúde chinês passou a recomendar uma terapia, aprovada pela primeira vez há duas décadas para tratamento do HIV, que combina dois agentes antivirais. Essas medicações pertencem a uma classe de medicamentos conhecidos como inibidores da protease, ou seja, que bloqueiam uma enzima chave que ajuda a replicação do vírus.

Administrados a pacientes com SARS - última grande crise epidemiológica que o governo chinês enfrentou, em 2002 -, mostrou um "benefício clínico substancial" ou menos resultados clínicos adversos, de acordo com um estudo de 2004 publicado na revista médica Thorax.

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Mais substâncias para testes

"A indústria pode tomar medidas diferentes para combater esta epidemia o mais rápido possível", explica Paul Stoffels, diretor da Johnson & Johnson, o que deve ajudar as autoridades a encontrarem um tratamento eficiente, de maneira mais ágil.

Laboratórios também avaliam se algum dos ativos internos, que a empresa já desenvolveu, seria eficaz contra o coronavírus de Wuhan. É o caso da Merck, que produziu uma vacina contra o Ebola, aprovada tanto pelas autoridades sanitárias dos EUA quanto da Europa.

Para o novo coronavírus, a J&J também estuda desenvolver uma vacina, com a mesma tecnologia aplicada à vacina contra o Ebola, atualmente em uso na África, explica Stoffels. Segundo o diretor, deve ser possível iniciar o teste em oito a 12 meses, já em humanos.

Entenda o novo coronavírus

Os pesquisadores ainda têm uma série de dúvidas sobre como o novo coronavírus afeta o organismo humano. O vírus infecta as vias respiratórias e os pacientes desenvolvem, inicialmente, febre, tosse e dores, que podem evoluir para falta de ar e complicações por pneumonia, de acordo com relatos de casos.

No entanto, os quadros têm oscilado de caso para caso. Isso porque alguns pacientes manifestam apenas sintomas leves. Enquanto outros podem desenvolver, rapidamente, sintomas mais graves de pneumonia. Alguns pacientes também não tiveram febre, em um primeiro momento, e nem desenvolveram uma pneumonia.

Especialistas acreditam que os pacientes fiquem doentes entre dois e 14 dias, após a infecção. Também é provável que o vírus se espalhe através da tosse, beijo ou outro contato com a saliva, dizem autoridades chinesas. A (possível) boa notícia é que o vírus permaneceu estável geneticamente até agora, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o CDC, nos EUA.

Fonte: The Wall Street Journal

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