Duas novas variantes do coronavírus preocupam os EUA

Por Fidel Forato | 26 de Fevereiro de 2021 às 09h30
Daniel Roberts/Pixabay

Os Estados Unidos enfrentam uma situação inédita em relação à epidemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2), com duas variantes emergentes e que ganham espaço entre os novos diagnósticos da COVID-19 no país. Nesse cenário, pesquisadores apontam para a importância do acompanhamento das cepas da Califórnia e a da cidade de Nova Iorque. Além disso, é possível que uma terceira variante, em breve, entre no radar dos cientistas.

Entenda os riscos da variante da Califórnia

De acordo com os pesquisadores da Universidade da Califórnia (UFSF), as mutações identificadas na cepa do estado, conhecida oficialmente como B.1.427 / B.1.429, devem fazer dela uma VOCs (variante de preocupação). Para entender, na pandemia da COVID-19, as variantes do Reino Unido, da África do Sul e do Brasil já são consideradas VOCs. Afinal, segundo o Dr. Charles Chiu, pesquisador de doenças infecciosas e médico da UCSF, a cepa local já se estabeleceu e, provavelmente, será responsável por 90% das infecções do estado até o final do mês que vem.

Variante da Califórnia é mais transmissível, segundo análise de pesquisadores (Imagem: Reprodução/ Fernando Zhiminaicela/ Pixabay)

As evidências descobertas pelo grupo de pesquisadores apontam que a cepa pode ser mais transmissível e pode reduzir a eficácia das vacinas contra a COVID-19. De acordo com as amostras coletadas pelo grupo, é possível que a variante seja de 19% a 24% mais transmissível do que as outras cepas do coronavírus. Nesse sentido, as medidas de saúde pública, como uso de máscaras e distanciamento social, são bastante necessárias.

De acordo com as análises, o genoma da variante B.1.427 / B.1.429 inclui três mutações que afetam a proteína spike, encontrada na membrana viral e responsável por invadir as células saudáveis. Uma dessas três mutações foi nomeada de L452R e, ao que tudo indica, favorece uma ligação mais forte entre o vírus e as células-alvo. Até então, essa adaptação não foi observada em outras variantes já descobertas.

Para o Dr. Anthony Fauci, principal autoridade em saúde na crise da COVID-19 nos EUA, uma competição para sobrevivência do mais apto entre a variante do Reino Unido e a da Califórnia pode acelerar a disseminação da cepa. Agora, a melhor maneira de prevenir esse cenário é interromper a disseminação de qualquer uma das variantes através da vacinação, defende Fauci.

As análises sobre a variante da Califórnia ainda estão sendo revisadas pelos departamentos de saúde pública do estado, além da UFSC. A publicação deve ser feita até o final desta semana, segundo Chiu.

Variante já predomina na cidade de Nova Iorque

Além da cepa da Califórnia, uma outra variante está se espalhando rapidamente na cidade de Nova Iorque e carrega também mutações preocupantes, o que pode enfraquecer a eficácia das vacinas já adotadas, segundo pesquisadores. Identificada pela primeira vez em amostras coletadas na cidade em novembro, esta nova variante foi chamada de B.1.526.

Para compreender os riscos dessa variante, dois estudos norte-americanos foram publicados, nesta semana, em formato de preprint — publicação sem revisão por pares. Na plataforma BioRxiv, foi publicada uma pesquisa liderada pelo renomado grupo do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). Enquanto isso, na plataforma MedRxiv, foi publicado um segundo estudo desenvolvido por membros da Universidade Columbia. Ambas as análises apontam para o risco real da disseminação dessa cepa.

Mutações da variante de Nova Iorque podem agravar a situação da COVID-19  (Imagem: Reprodução/ Fernando Zhiminaicela/ Pixabay)

Michel Nussenzweig, imunologista da Universidade Rockefeller, que não estava envolvido em nenhuma das duas pesquisas, alegou estar mais preocupado com a variante de Nova Iorque do que com a que está se espalhando rapidamente pela Califórnia. Essa a nova cepa parece ter uma alta transmissibilidade com a mutação E484K — presente nas variantes da África do Sul e do Brasil — e a nova S477N. Em números, casos da COVID-19 com ambas mutações, neste mês, já representam cerca de 27% das amostras sequenciadas na cidade.

“Dado o envolvimento das mutações E484K e S477N, combinado com o fato de que a região de Nova Iorque tem uma grande imunidade permanente contra a onda [do coronavírus] da primavera [em decorrência do alto número de casos já registrados], esta é definitivamente uma região para ser observada”, comenta Kristian Andersen, virologista do Scripps Research Institute, que também não estava envolvido nos estudos.

Mesmo que carregue novas mutações, “pessoas que se recuperaram do coronavírus ou que foram vacinadas têm grande probabilidade de combater essa variante, não há dúvida disso”, pensa Andersen. No entanto, a pesquisadora não descarta a possibilidade desses indivíduos apresentaram sintomas ou outros quadros da infecção.

Descobertas para ficar de olho

É provável que uma terceira variante ainda ganhe destaque no país, de acordo com os pesquisadores Children's National Hospital (CNH), em Washington DC. Isso porque a equipe do hospital identificou uma nova variante em um bebê diagnosticado com COVID-19. Segundo as análises da condição de saúde do bebê, a sua carga viral era 51.418 vezes maior do que carga média de outros pacientes pediátricos. No entanto, ainda não é possível afirmar que a nova cepa é responsável pela gravidade da infecção. Além disso, mais estudos devem ser realizados, já que apenas um único paciente foi identificado com a mutação.

Outra questão para os norte-americanos é a importância de se investigar a possível interação entre as diferentes cepas do coronavírus, o que pode ser descrito como um "pesadelo" para o pesquisador Chiu. Isso porque é possível que duas variantes diferentes se encontrem em uma única pessoa contaminada — neste caso, seria uma coinfecção. Dessa forma, as cepas poderiam trocar as suas mutações e formar uma nova cepa mais diferente que o coronavírus ancestral.

Inclusive, é possível que isso já tenha acontecido, segundo o relato da pesquisadora Bette Korber no Laboratório Nacional de Los Alamos, localizado no estado norte-americano do Novo México, com a variante da Califórnia e outra do Reino Unido.

Para acessar o estudo sobre a variante de Nova Iorque, publicado no BioRxiv pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), clique aqui. Para conferir a pesquisa da Universidade Columbia, disponibilizada na plataforma MedRxiv, acesse aqui.

Fonte: New York TimesLos Angeles Times    

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