COVID-19 | Máscaras transparentes M85 não funcionam, apontam especialistas

Por Nathan Vieira | 02 de Março de 2021 às 14h15
Reprodução/YouTube/MáscaraCristal

A essa altura, você já deve saber que uma das medidas mais utilizadas para se proteger da COVID-19 é o uso de máscara. Com isso, vários tipos de máscaras surgiram no mercado, algumas mais recomendadas, outras nem tanto. No entanto, ultimamente uma versão transparente desse item tem se destacado, feita com policarbonato. Por não esconder o rosto, muita gente tem cogitado aderir a esse tipo de material. No entanto, especialistas em infectologia estão levantando um alerta: esse produto não é eficaz.

Segundo esses médicos, que deram entrevista à BBC News, o material não é capaz de filtrar o ar inspirado ou expirado e não há uma boa adesão ao rosto (o que justamente visa aumentar a proteção). O espaço entre o rosto e a máscara acaba permitindo a entrada e saída de ar sem nenhum tipo de filtragem. Os infectologistas ainda alegam que "não há absolutamente nenhum elemento filtrante" nesse tipo de material, que "não deveria nem se chamar de máscara, e sim protetor facial".

Segundo Antonio Bandeira, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia, há uma grande carência de posicionamento das autoridades, como Anvisa e Ministério da Saúde. E, de fato, a página divulgada pelos órgãos com recomendações sobre uso de máscaras não traz esse tipo de material transparente entre as orientações.

Frente a isso, a resposta da Anvisa para o veículo em questão foi que "não regulamenta e não tem recomendações sobre o uso das máscaras de vinil ou similares". Para Beatriz Klimeck, antropóloga e doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), as marcas justamente acabam se aproveitando dessa falta de diretrizes para vender os produtos.

Máscaras transparentes M85 não funcionam, apontam especialistas (Imagem: Reprodução/MáscaraCristal)

Vale ressaltar a importância de não confundir a M85 com a N95, que é uma máscara profissional e segue padrões estabelecidos por normas técnicas para garantir um nível alto de proteção. O nome se deve ao fato, justamente, de que ela filtra pelo menos 95% das partículas de 0,3 mícron de diâmetro, as mais difíceis de se capturar, eficaz pela alta capacidade de adesão ao rosto. Segundo os especialistas, o nome M85 acaba confundindo as pessoas.

Um dos lugares que produz essas máscaras é o site Máscara Cristal, que defende que o nome do item vem porque veda 85%, e menciona em torno de 130 revendedores do produto no Brasil. De acordo com os proprietários, a Anvisa informou que a certificação só é necessária se for pra vender pra uso profissional, como médicos e enfermeiros. "Único escudo protetor anatômico com 85% de vedação contra gotículas e 15% com a liberdade para respirar e renovar seu oxigênio indispensável, pela parte inferior", diz o site.

Bruna Fernanda Carvalho, administradora das vendas do site Máscara Vinil Cristal, admitiu à BBC que o produto não protege contra a COVID-19, considerando que "nenhuma máscara protege". "[Os consumidores compram] porque é uma imposição da sociedade (usar máscara). Você pode entrar num mercado sem máscara? Então a pessoa usa uma máscara com a qual vai se sentir melhor".

Em relação à proteção das máscaras, estudos já apontaram que o nível de proteção varia, com os respiradores N95 e PFF2 com maiores níveis de filtragem, e que as máscaras devem ser usadas em junção com outras medidas de prevenção, como o distanciamento, o álcool gel, a lavagem de mãos frequente. O veículo ainda anuncia que, embora os vendedores do site apontem que a máscara não precisa de certificação da Anvisa porque não é para uso profissional, boa parte das vendas do site é destinada a fonoaudiólogos.

Máscara de tecido protege mesmo?

O uso de máscara tem sido a principal medida contra a propagação da COVID-19, desde o início da pandemia (Imagem:  engin akyurt / Unsplash)

Em setembro de 2020, um artigo publicado no New England Journal of Medicine (Nejm) apontou que o uso obrigatório e universal das máscaras em ambientes públicos reduz a taxa de transmissão do coronavírus, mas também poderia estimular uma maior imunidade e até mesmo resultar em casos menos graves da doença.

Mas atenção: nada de máscaras com válvula. Acontece que, em novembro de 2020, um engenheiro de pesquisa do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia (NIST) chamado Matthew Staymates fez alguns vídeos para mostrar por que se deve evitar esse item. O argumento é de que as válvulas de expiração tornam as máscaras mais fáceis de respirar e mais confortáveis e são apropriadas quando o assunto é proteger os trabalhadores da poeira em uma construção, por exemplo.

No entanto, as máscaras que os especialistas recomendam para retardar a disseminação da COVID-19 têm como objetivo principal proteger outras pessoas além do usuário: elas diminuem a propagação da doença capturando gotículas exaladas que podem conter o vírus, e mesmo as pessoas sem sintomas devem usar máscaras, porque é possível estar infectado, mas não apresentar sintomas.

Fonte: BBC

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